Dia 5 de novembro deste ano, em Las Vegas, competi na modalidade “supino” no Campeonato Mundial de Supino, Terra e Powerlifting da International Powerlifting League (IPL), a mais rigorosa e bem regrada das inúmeras federações mundiais deste esporte, me sagrei campeã e quebrei o recorde mundial “open” (categoria absoluta) e “master” (da minha categoria de idade) .

Competir fora do país, para brasileiros, é um desafio em todos os sentidos: financeiro e físico. Há quem me pergunte por que eu compito tantas vezes fora do país. A resposta é simples: a essa altura da minha performance, é a única coisa que faz sentido. Há anos eu estou nos dois primeiros lugares do ranking mundial inter-federativo (compilado pela organização “Powerlifting Watch”) do esporte tanto no full power (competição com as três modalidades: agachamento, supino e levantamento terra) como no supino e no agachamento. No supino, há anos só no primeiro lugar.

O problema é que o “custo-atleta” neste nível é alto. Que adjetivo usar? “Muito”? “Extremamente”? Tudo depende do que se vê como benefício. Nada é simplesmente caro. É caro ou de bom preço em relação a algo. Mas estamos falando de um custo-atleta que ultrapassa os R$100.000,00/ano.

Só é possível (para mim, pelo menos) dar conta disso através do apoio de muita gente e algumas empresas. São meus patrocinadores.

Eu gostaria que esse texto fosse educativo, mostrando ao mesmo tempo que esta parceria com uma atleta como eu é comercialmente muito interessante para empresas, mas que, pelo fato de tantas empresas não enxergarem isso, pela pobreza da cultura do marketing esportivo brasileiro, o atleta acaba virando agente de si mesmo, departamento de marketing de seus parceiros, showman e o grande patrocinador de si mesmo.

E quem não tem como ser tão patrocinador de si mesmo assim? Então eu começo com meu principal patrocinador. Melhor seria dizer meu “paitrocinador”: meus pais, a famosa “Fundação Coutinho”. Seguramente são os maiores investidores na minha performance esportiva. De longe, mas muito longe. Como eu disse antes, “caro” ou “barato” depende do que se está pagando. Para eles, que acompanharam a luta da filha contra uma desordem neurológica letal e o controle da mesma através do powerlifting, estamos naquela zona do “sem preço”. Eu acho que o que passa pela cabeça deles é algo em torno da idéia de que a vida da filha deles não tem preço. Assim, se as empresas não tem como ou não querem investir, dane-se: eles bancam o que eu não posso. Claro que tem também o reconhecimento deles: é a filha deles que traz as medalhas brilhantes que ficam penduradas no candelabro da sala. Então aí vai o primeiro e lógico agradecimento aos meus “paitrocinadores”.

O resto da minha família milita incansavelmente pelo meu desempenho. Essas fotos maravilhosas que vocês vêem são obra da minha irmã, a fotógrafa Helena Coutinho. Tem bem mais de US$15.000,00 investidos só esse ano dela em mim. É ou não é “irmãtrocínio”?

Laerte Coutinho, minha célebre irmã, mais de uma vez produziu sua arte ours concours para meus projetos, virou do avesso para impulsioná-los e às vezes até conseguiu (ufa!).

Em seguida vem a saúde. Vamos ser honestos aqui: uma grande parte dos bons médicos não atende convênio e médicos especializados em esporte, menos ainda. Nutricionista nem é considerado algo importante para um convênio cobrir – afinal, o conceito de nutrição como medicina preventiva não chegou ainda nem nas políticas públicas. Assim, o atleta de alta performance, obrigatoriamente, tem um “custo-atleta” em saúde muito alto. O atleta vê seu ortopedista uma média de uma vez por mês (isso quer dizer algumas vezes quase todo dia): é, é tanto assim que acontecem lesões ou riscos de lesão. O meu é Fabiano Rebouças, da Ortesp-SP. O atleta fala com seu “médico do esporte” (uma espécie de veterinário ou pediatra de atleta) em média duas vezes por semana. É, é tanto assim. Cada dor de barriga de um atleta em preparação competitiva é potencialmente um risco para o pódio. O meu médico é o Rafael Knack. O atleta consulta e dá feedback a seu nutricionista esportivo uma média de uma vez a cada duas semanas fora de preparação e, em preparação, uma vez por dia. O meu nutricionista é Rodolfo Peres. Durante os dias que precedem a competição, chegamos a trocar vários e-mails por dia. O peso, a hidratação, como estou me sentindo, urinando, se a pesagem foi ok, quanto foi o peso, exatamente o que você está ingerindo, quantos ml e o que. Atleta dá mais trabalho do que grávida no mês do parto.

Atleta é esquisito, por definição. Atleta não funciona dentro dos parâmetros de normalidade. Cada atleta é um universo de esquisitice. Se não fôssemos assim, não seríamos excepcionais. Não somos excepcionais (portanto fora da norma, portanto anormais) só no peso que levantamos. Somos anormais em todo o resto. E isso dá muito trabalho.

Eu só pude, até hoje, ter a performance que tive, porque tenho estes três comigo e me patrocinando fortemente. Fortemente mesmo (façam as contas).

As empresas que apostaram suas fichas em mim fizeram isso contra o senso comum do marketing esportivo brasileiro, que prefere uma comunicação desrespeitosa com o consumidor e um conteúdo de rápida obsolescência. Começo pela FAST Nutrition, a indústria de suplementação que eu vi nascer de dentro da cadeia de lojas de suplemento Nutrafit.

Não há nada que eu tenha pedido até hoje que a FAST me tenha negado. Na verdade eu não sei quanto whey, glutamina, BCAA ou creatina eu consumo. Se está para terminar eu peço mais e é assim que funciona: apoio absoluto e total. Também nem sei o sabor das outras marcas. Tomei aqui um BCAA insuportável e dei para o Hugo. Idem uma caseína muito ruim.

Não é uma empresa grande, como todas as brasileiras neste ramo passa por várias dificuldades, mas com tudo isso, o apoio que me dão é incondicional. O que eles podem fazer, fazem. Se não fazem mais é porque a empresa ainda não cresceu mais, coisa que, dependendo do meu esforço, continuará fazendo.

Eu fico feliz que tanta gente compre FAST porque me vê usando, lê o que escrevo ou minhas recomendações. Mas principalmente, me vê usando: afinal, você sempre pode recomendar Antártica e consumir Brahma.

A Rocktape entrou com força no mercado brasileiro com produtos voltados para o público Crossfitter, com o qual eu dialogo o tempo todo através de meus textos e cursos, todos oferecidos em boxes de Crossfit. O apoio que deram a mim e também à nossa organização brasileira, foi inestimável.

O público crossfitter conta, hoje, no Brasil, com produtos voltados às suas necessidades graças à Rocktape.

Duas empresas muito interessantes entraram no finalzinho da minha preparação, mas aposto nelas com muita fé: a Genotyping e a Hidrotabs.

A Genotyping é uma empresa de genotipagem (análise de marcadores genéticos). Em outros países, a genotipagem em grande escala para finalidade esportiva já é utilizada de maneira corriqueira. Aqui ainda se faz de maneira específica (determinadas sondas gênicas para responder questões pontuais) e, institucionalmente, de forma predominantemente acadêmica. Minha parceria com a Genotyping começa agora e é minha intenção acompanhar o crescimento desta empresa de alta competência no campo esportivo.

A Hidrotabs é uma empresa que produz pastilhas efervecentes para reposição eletrolítica, para reposição de glicose e também pastilhas mastigáveis para reposição eletrolítica. Em geral, menciona-se a reposição eletrolítica para os esportes de endurance. No entanto, para nós, atletas de força, um perfeito equilíbrio eletrolítico faz a diferença entre levantar ou não levantar o peso competitivo. É fácil apoiar um produto que se usa o tempo todo, do qual se depende e do qual se vê a utilidade no dia-a-dia.

Agradeço minha equipe, “my boys”, meus pequenos dragões (eles me chamam de “the mother of dragons”), que enfrentaram coisas complicadas, difíceis e assustadoras ao meu lado: Hugo Quinteiro e Carlos Daniel. Me enchem de orgulho e, em termos relativos, tiveram um desempenho melhor que o meu. Isso fica para outro artigo. Nesse, fica o meu orgulho, minha profunda gratidão e minha felicidade em tê-los por perto.

Finalmente vem a turma que ficou em casa, que me apoiou e ajudou em diversos momentos, meu bróder André Giongo, João Ricardo Cozac, os meninos e meninas (ups… coaches e atletas!) da Crossfit Chácara, Crossfit SP, Crossfit Sampa, Crossfit Brasil (onde tudo começou!), o pessoal do Arte da Força, que sempre, sempre, me deu a tal força com arte, os amigos do Grupo de Treinamento de Força da Runner Club, todo o pessoal do Inner Sanctum da ANF e uma porção de outras pessoas.

Naturalmente eu terei esquecido gente importante e vou lembrar depois, de modo que, desde já, peço desculpas.