Os dados: venci nas categorias open e master, quebrei os recordes de agachamento, supino da categoria open e todos os da master.

No entanto, em termos de resultado de performance, não foi minha melhor competição: fiz um agachamento apenas 1kg mais pesado do que o mais pesado anterior, um supino igual ao anterior e um terra pífio.

Em termos da minha preparação e força, capacidade e desempenho, de longe o melhor.

Como explicar a discrepância?

Primeiro: houve um inesperado. Tendo chegado até Miami no melhor da minha preparação e sem lesões, o vôo de Miami até Las Vegas inverteu isso. Foi um péssimo vôo: lotado, quente (o ar condicionado não deu conta das 300 pessoas empacotadas numa nave pequena e os atendentes não tiveram sensibilidade para tomar providências, a despeito das reclamações) e, depois de uma soneca rápida, acordei com dores fortes na região lombar. Não num ponto específico: em toda a lombar. A dor foi aumentando, tomei um tylex, não adiantou. Tomei outro. Cheguei em Las Vegas sem conseguir me inclinar para frente e com muitos movimentos limitados. Não era uma lesão simples: era uma lesão grave. Discuto isso depois.

O segundo motivo da discrepância é adaptação a um sistema de arbitragem muito mais rigoroso do que todos os que já enfrentei. Tive meu segundo agachamento de 148,5kg (quebra de record) invalidado por altura, bem como a quarta pedida de 152,5kg e no vídeo parecem válidos. Minha postura: defendo os árbitros. Num campeonato mundial as coisas devem ser duras, talvez extra-duras.

Depois da pesagem, tomei anti-inflamatório, relaxante muscular e analgésico. Alan Aerts se surpreendeu com o fato de que eu tenha sequer pisado no tablado. Pisei, mas super-medicada com drogas não muito boas para performance.

Meu round era de mulheres pequenas manipulando cargas baixas. Nos rounds mais pesados de homens, a arbitragem é ligeiramente diferente por motivos óbvios. Talvez seja “azar” meu ser sempre a mais forte da minha categoria, mas, como diz o tio do homem aranha, “com grande poder, vem grande responsabilidade”. Sendo como é, é minha obrigação agachar tão fundo que não permita qualquer sombra de dúvida e satisfaça até o mais antigo representante da velha guarda.

O levantamento terra foi a chamada administração de riscos catastróficos: ao fim do round de supino, o quadrado lombar não apenas doía, mas “coçava”. Parecia arranhado. Durante o aquecimento enfiei na cabeça que faria as pedidas custasse o que custasse, mas o aquecimento me mostrou o quão difícil estava. Baixei minha pedida para 160kg, fiz a primeira e na segunda, de 172,5kg, carga fácil, a barra não saiu do chão e senti um “ploct” na lombar.

Não sei o que é “ploct”: tomei uma oxicodona (vidodin) e fiquei feliz. Cheguei ao final da competição, classifiquei. Perdi o recorde do terra e do total open, devo ter perdido por pouco o título de melhor atleta open, mas cumpri meu desejo e compromisso comigo mesma de terminar um campeonato de powerlifting, que é a soma dos totais de três levantamentos.

Sem record all-time, com adversidades malucas no percurso, tenho claro que foi minha melhor competição. Meu agachamento de 152,5kg, quase sem descanso para o anterior de 148,5kg, confirmou o que eu achava: eu vim para fazer 155kg e 160kg e tinha força para isso. Cometi um erro técnico que me custou este recorde all-time: acontece.

Competi contra a pior lesão que já me acometeu numa competição e levei a coisa numa boa, sem drama e sem reclamar. Durante o final de semana, a dor foi quase insuportável, de suar de dor porque era constante, não parava nunca. Mesmo assim, em nenhum momento perdi o tesão pela coisa. Brinquei com os parceiros de equipe: entre no terra para fazer 160-172,5 -183,5kg (recorde). Afinal, otimismo e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém.

Foi meu melhor campeonato porque os juízes que me invalidaram estavam do lado dos atletas, torcendo e sendo prestativos. É uma organização justa e dura, consistente.

Tudo começou precisamente no horário previsto, o aquecimento foi solidário e benigno, a organização fez tudo pelo conforto e bem estar dos atletas.

Aqui escrevendo para vocês, tendo sido acordada pela dor na madrugada e com mais “aditivos” anti-dor recém tomados, posso afirmar que dor nenhuma rouba felicidade e satisfação.

Estou feliz por mim, por pessoas que vi competindo e me fizeram vibrar, pelos organizadores e pela IPL , a International Powrlifting League, onde o rigor é o que diz ser: rigor. Uma maneira de conduzir as coisas que preserva a essência da arte que escolhi e me escolheu e que merece isso: reverência e honra.

 

  • Maria Teresa Conti Vieira

    Muito, muito bom, Marília: “ganhei tudo, quebrei uns recordes, foi mal pq eu tava machucada pra caramba”. :)
    You’re ll kinds of awesome.

  • mama

    MAma nem consegue expressar direito o que sente: um sufoco de orgulho, horror pelas agonias da dor constante , espanto com a capacidade da superação nas provas, é um misto de sentimentos, uma admiração pelo pequeno e poderoso ser que ajudei a fabricar e que expressa em palavras esta força imensa. Não conseguiria falar isso tudo, seria um engasgo só! Beija-te a mama.