* Toda vez que eu for citada sem os devidos créditos em fora de contexto, a íntegra das minhas respostas sairá no meu blog. Acompanhem.

 

Entrevista do Webjournal da UNESP sobre o assunto

 

– Qual o limite da dependência da maquiagem e tratamentos estéticos?

 

Existem vários conceitos imbricados aí. Um é “dependência”. Eu não acho um bom termo para se usar porque ele tem conotações técnicas complicadas. Dependência é o resultado clínico de um coportamento que gera uma alteração fisiológica ou psicológica tal que, se retirada, produz consequências negativas e se mantida também. Pense em cigarro, álcool, mas também adicção a sobre-alimentação voluntária, a relacionamentos abusivos, etc.

Acredito que a relação com estas formas (que vou chamar de convencionais por falta de termo melhor) de modificação corporal precisam ser examinadas à luz dos modelos de motivação: o quão exógena e ou quão endógena é a motivação?

Vejamos as pessoas transgêneras, por exemplo. Mulheres transgêneras fazem tratamentos estéticos radicais e caros porque estão re-adequando seus corpos a uma identidade de gênero escolhida, e não outorgada geneticamente. Estas pessoas fazem uso de tais tratamentos estéticos (e muita maquiagem) por motivação predominantemente endógena.

Já a moça que faz implantes mamários porque, de maneira bem inconsciente, responde a pressões para se tornar mais conforme ao modelo dominante de estética feminina, faz isso por motivações predominantemente exógenas.

O problema de ser endógena ou exógena não se esgota em si: endógena e exógena como? E aí é que eu acredito que podemos botar o dedo na ferida: se a motivação se origina no eficentíssimo e difuso marketing da indústria da beleza, podemos dizer que o “limite” que você menciona é precoce. É no primeiro batom, no primeiro sutien para realçar as mamas. Se isso é feito como resposta positiva ao marketing desta indústria, então estamos diante de algo destrutivo e alienante.

Condenar as intervenções corporais não é correto: maquiagem é um recurso interessantíssimo, uma ferramenta para produzir “personas”, para dar autonomia criativa ao corpo que a mobiliza. Tanto que é um dos principais itens das artes dramáticas.

No fundo, somos todos um pouco atores e vivemos personas. O quão conscientes, o quão ludicamente fazemos isso, faz toda a diferença.

 

– Como a forma como uma mulher vê o próprio corpo pode vir a influenciar nas diversas esferas da sua vida?

 

“Forma como vê a própria forma” (e não corpo) é uma construção simbólica, uma representação. Mas somos animais simbólicos e tudo é representação. O que há “por trás” do espelho é nada: não temos acesso sensorial não categorial ao “real”. O real é um contínuo de estímulos sensoriais. Vemos o que as categorias que temos permitem que vejamos.

Se um conjunto de representações valorativas, devidamente potencializadas por emoções, está em ação, então a representação de si mesma pode desviar muito do real, seja lá o que ele for. Antes de mais nada, o importante é o julgamento que antecede e se confirma com o espelho: “sou gorda”; “sou feia”; “meu cabelo é ruim”.

Tudo isso informa a mulher para suas decisões e na modulação de sua relação com o resto da vida social. Se em seu mundo valorativo, só são dignas do amor e carinhos sexuais de um parceiro ou parceira aquela que estiver conforme a um determinado padrão de beleza, então ela pode simplesmente condenar-se a relações abusivas por sua aferição distorcida da própria forma.

Se ela também tiver assimilado o conceito de que o gordo é fraco e indisciplinado, são estes julgamentos que determinarão fracasso profissional e relações também abusivas no trabalho

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– A imposição de padrões estéticos sobre as mulheres é ainda muito diferente da que é feita com os homens? Como?

 

Sim e não. A pressão de conformidade estética masculina é pouco compreendida. Infelizmente a antropologia se dedica menos a isso. Bullying entre garotos é um problema seríssimo e tem forte relação com padrões estéticos. Não apenas pode matar na infância, mas seguramente gerará traumas por uma vida inteira para aquele garoto. Eu lido todos os dias com adolescentes que abusam de esteroides porque suas formas não se adéquam a padrões estéticos externos e o grau de insatisfação consigo mesmos é tão alto que eles se expõe a riscos altos.

Creio que o problema dos padrões estéticos femininos é que o modelo é diferente. O padrão (igualmente opressor) masculino é de uma estética de dominação, de agressividade e força. O padrão feminino é de uma estética da fragilidade, da sensualidade submissa, de um erotismo a serviço do outro.

Os dois padrões são opressores porque são desumanizantes, mas um padrão objetiva produzir opressores e o outro objetiva produzir oprimidas.

 

-Por que a selfie sem maquiagem virou um desafio para as mulheres atuais? É saudável que isso seja encarado dessa forma?

 

Não, não acho. Pelos motivos que eu justifiquei acima. A maquiagem é um recurso dramático e de transformação corporal altamente positivo. Essa campanha foi simplificadora e, sinceramente, escondeu o problema real.

 

– Em sua opinião, há alguma maneira mais eficaz e combativa para lidar com a ditadura da beleza que não tratando a foto sem make como um desafio?

 

Acho que sim. Acho que opressão ideológica se combate com educação e comunicação eficiente. Com a disponibilização de informação adequada para tomada de decisão. Vamos falar sobre tudo: sobre cirurgias estéticas, sobre a produção de outdoors de lingerie, sobre sapatos, mas sempre contextualizando historicamente a questão.

 

– Qual a sua análise perante a campanha #StopTheBeautyMadness e sua repercussão no Brasil?

 

Boba. Não impulsionou em nada a causa maior de empoderar as mulheres a ter autonomia estética. Pode até mesmo ter exercido efeito contrário.