Em qualquer site oficial ou publicação leiga sobre desordem bipolar, depois da introdução, vem o capítulo sobre tratamento. Hoje a medicina aborda o tratamento da desordem bipolar apenas do ponto de vista medicamentoso. O resto é “resto”: psicoterapia é “útil” e, se o site for elaborado por gente muito bem informada para a média dos profissionais da área da saúde, vai mencionar que atividade física ou meditação pode contribuir. Mas isso é bem raro. Ou seja: qualquer coisa que não seja droga é, na melhor das hipóteses, co-adjuvante no tratamento da desordem bipolar para a medicina mainstream.

Quem, como eu, freqüentou e participou ativamente de grupos organizados de pacientes (em geral comunidades digitais), sabe que os efeitos colaterais desses medicamentos quase sempre são catastróficos. Existe uma interminável discussão sobre a relação entre custo e benefício: qual é o preço, em termos de perda de qualidade de vida causada pela toxicidade destas drogas, que se está disposto a pagar pelo benefício do efeito sobre o sofrimento da doença? Esta é uma pergunta quase impossível de ser respondida. Em primeiro lugar, porque, como veremos, o custo se manifesta aos poucos, quase como a doença em si. Em segundo lugar, porque o benefício é difícil de se determinar. O quão melhor você realmente ficou depois de dopado? Melhor em relação a que? Que parâmetro de comparação existe entre a insuportável dor na alma e escuridão desesperada da doença em fase aguda e a morte da própria alma, a anestesia existencial que boa parte das drogas da moda proporciona? O que é melhor? A vida com dor ou o estado vegetativo anestesiado? Não existe resposta objetiva a essa pergunta – só cada um, depois de uma experiência concreta, pode respondê-la.

Mas vamos às drogas em si. Abaixo elaborei uma tabela, comentada a seguir, com as drogas mais freqüentemente empregadas no tratamento da desordem bipolar. Aquela que até dois anos atrás era o creme de la creme, enfiado goela abaixo dos psiquiatras sem tempo para estudar por uma campanha bilionária da Eli Lilly, hoje apelidada de “a droga da morte” – ZYPREXA – merecerá um capítulo à parte. A Eli Lilly hoje paga milhões (possivelmente bilhões) de dólares em indenização a pacientes que desenvolveram diabetes, hiper-colesteremia e hiper-tensão em função das disfunções metabólicas causadas por Zyprexa, que continua, a despeito disso, sendo receitada. Eu tomei por três ou quatro semanas: garanto que se existe vida após a morte, o inferno deve ser semelhante a um estado permanente de administração de zyprexa.

 

Droga e nomes comerciais Fabricante Tipo/classificação
Aripiprazole (Abilify) Otsuka Pharmaceutical Company Anti-psicótico atípico
Ácido valpróico (depakene) Abbot (existem outras marcas, com outros fabricantes) Anti-convulsivante e estabilizador de humor
Litio (carbonato de lítio, etc.) Vários Estabilizador de humor
Ziprasidona (Geodon)   Anti-psicótico atípico
Lamotrigina (Lamictal0   Anti-convulsivante e estabilizador de humor
Pramipexole (Mirapex)   Droga indicada para doença de Parkinson (agonista não ergolínico de dopamina)
Risperidona (Risperdal) Janssen Pharmaceutica Anti-psicótico
Quetiapine (Seroquel) Astra-Zeneca Anti-psicótico atípico
Carbamazepine (Tegretol)   Anti-convulsivante
Oxcarbazepine (Trileptal)   Anti-convulsivante
Olanzepine (Zyprexa)   Anti-psicótico atípico

 

A primeira droga considerada bem-sucedida no controle da desordem bipolar foi o lítio, amplamente comentado em todos os livros de Kay Jamison. No primeiro da série, An unquiet mind, ela descreve o mal-estar causado pela droga nas doses inicialmente prescritas. Esse mal-estar se refere não apenas a desconfortos orgânicos, como uma espécie de vazio existencial. Um psiquiatra mainstream, como a própria Jamison, em parte, atribui a isso uma espécie de adicção do bipolar à sua mania ou hipomania, que é naturalmente suprimida pelo lítio.

Essa é uma história contada pela metade. Na verdade, a fisiologia da ação destas drogas é em grande parte desconhecida. Os neurolépticos – sejam eles anti-psicóticos típicos ou atípicos – inibem TUDO. Inibem o “ser humano” do paciente. São drogas muito potentes, anos luz longe do conceito de “magic bullet”, que têm efeitos generalizados sobre as reações emocionais, cognitivas e mesmo motoras das vítimas. Como infelizmente utilizei vários deles, consigo descrever a sensação comum a todos de que uma espécie de anestésico de efeito parcial foi injetado dentro da cabeça. A dor – essa dor insuportavelmente intensa que os bipolares sentem – é amortecida. Mas todo o resto também é: a percepção de tudo, todas as emoções, os prazeres. É como se o volume do aparelho fosse repentinamente reduzido a quase nada. Assume-se uma espécie de existência vegetativa.

Os anti-convulsivantes são um capítulo à parte. Com exceção da lamotrigina – única droga que tomei entre as centenas que testaram em mim que não me causou nenhum mal-estar (mas também nenhum bem-estar) – todos causam alguma coisa bizarra. Trileptal, por exemplo, me provocava surtos de agitação estranhíssimos, em que eu tremia e tinha algo semelhante a convulsões, que duravam alguns minutos. Gritava tanto que ficava afônica. Dois meses depois, os exames de sangue exibiram uma leucopenia acentuadíssima causada pela droga. Uma droga que foi bastante usada para bipolares e não está na lista, o Topamax, é quase ridículo: o efeito destruidor sobre a atividade cognitiva é tão acentuado que há casos de pessoas que param de falar. Comigo, naturalmente fiquei mais burra. Mas o chato foi perder grande parte da memória. Não conseguia lembrar de letras de músicas, depois de autores de livros e finalmente me dei conta de que é uma droga que anula inteiramente alguém que trabalhe com a mente, como é meu caso. Como um intelectual pode perder o acesso à memória de seu conhecimento? Melhor morrer, penso eu.

Tegretol é chapante e outro que não está na lista, mas foi muito usado, o triptanol (amitriptilina), me causou uma hepatite medicamentosa que praticamente me matou, elevando minhas transaminases a valores acima de 5000.

Não conheço nenhum caso de bipolar que não tenha sido medicado com diferentes drogas. Por que? Porque naturalmente, depois de algum tempo de um pouco de alívio (qualquer coisa aliviaria uma depressão ou surto insuportáveis), o paciente e seu médico se dão conta de que o medicamento é insatisfatório. Se o médico tiver algum bom-senso, troca o medicamento. E isso vira uma ciranda. Se o médico for sem-noção como a maioria, ele soma um novo medicamento ao que o paciente já tomava. Eu cheguei a tomar 11 diferentes medicamentos por dia. E isso, nas listas de pacientes, não é incomum.

O que leva a comunidade de usuários e prescritores de drogas (pacientes e médicos) a não se dar conta de que essa ciranda farmacológica nada mais é do que o efeito da indústria farmacêutica empurrando sobre ambos medicamentos sob patente, e portanto mais caros do que os mais antigos, mas de forma alguma mais eficientes? Não sei. Um marqueting fabuloso e o virtual silenciamento de vozes dissonantes, como esta que lhes fala.