Algum tempo atrás publiquei um artigo com o título de “the journaling effect”. Tratava-se de uma crônica sobre o meu próprio comportamento alimentar quando registrando e quando não registrando a dieta, ou seja, fazendo o diário alimentar. Quando é necessário modificar o peso ou composição corporal por ocasição de alguma competição, o registro por si só já provoca as alterações no sentido previsto. O fato é que o ato de registrar de forma precisa e detalhada algum comportamento ilumina o mesmo com nossa atenção e traz à tona elementos inconscientes ou pouco conscientes.

No meu caso, como de outros atletas, a correção é simples. Temos consciência de que estamos comendo em desacordo com os objetivos e, ao começar a registrar nossa dieta, automaticamente corrigimos os erros. Somos atletas, nossa performance é em grande parte determinada pela dieta e já temos experiência ness controle.

Ao escrever o artigo, no entanto, me deparei com o conceito de “self-DDD”: self-deception, self-delusion and self-denial. É um conceito interessante desenvolvido por Penny Tompkins e James Lawley que procura explicar situações em que pessoas perfeitamente racionais se agarram a crenças falsas e irracionais a despeito de ampla evidência em contrário. Os motivos pelos quais alguém mentiria para si mesmo são complexos e em geral envolvem grande quantidade de ansiedade e dor.

Os padrões de alimentação se encaixam bem dentro do modelo de “self-DDD”. Em geral, as pessoas que vivem conflitos com seus padrões alimentares jogam um jogo de esconde-esconde consigo mesmas.

O diário alimentar é ao mesmo tempo um desafio doloroso e uma libertação: através dele, é possível romper o ciclo de DDD e, através do registro, se apoderar da verdade que foge da pessoa pelas ações escondidas dela mesma. O “mas eu como muito pouco” se transforma rapidamente nas 2700 calorias que explicam o ganho (ou incapacidade de perda) de gordura de mulher pequena. O “eu tomo água suficiente” vira o 1,2 litros tão insuficientes para qualquer pessoa.

Não acho que o diário alimentar difere muito de qualquer iniciativa de auto-conhecimento genuina. Trata-se de uma ação enérgica para desvendar mentiras que contamos para nós mesmos, ou segredos enterrados pela violência de nossos traumas.

Pode doer, mas vale a pena. Toda liberdade vale a pena.

 

The Journaling Effect