A história do treinamento físico é fascinante em diversos aspectos. Um dos mais interessantes é a invenção e desenvolvimento de equipamentos.

Ninguém sabe exatamente por que os halteres foram chamados de “dumbbells”. Uma das hipóteses é que monges utilizavam sinos sem badalo para condicionamento físico e de força: sinos, “Bells”; mudos, “dumb”.

Se é assim ou não, não importa: ilustra uma história rica em que os homens fizeram uso de quase qualquer coisa para aplicar um princípio que foi rapidamente observado desde a antiguidade, na preparação de exércitos: a de que a força e as habilidades eram treináveis com cargas progressivas e incrementos técnicos.

Pedras, naturalmente, foram um capítulo especial no treinamento físico em tempos remotos: são pesadas e encontráveis em qualquer lugar.

A história dos kettlebells também é coberta de mistério. A palavra gyria, que designa kettlebell em sua origem russa, apareceu num dicionário pela primeira vez no século XVII. Acredita-se que estes objetos eram usados em feiras agrícolas como contrapeso para balanças e, num período que pode ir deste a mais remota antiguidade, nos primórdios da rota da seda, até a Idade Média, em algum momento começaram a ser usados como objeto para jogos e demonstrações de força. Talvez ao mesmo tempo, para treinamento.

Já as barras olímpicas têm uma história muito mais recente, bem como as anilhas. A introdução das barras com pesos, inicialmente não anilhas, data de meados para final do século XIX. O primeiro registro de barras carregadas aparece na ilustração de uma importante academia francesa, fundada pelo “homem forte” Hippolyte Triat, em 1854. Os precursores das barras são aparatos feitos com bastões de madeira, carregados com resisitências diversas. Registros deles aparecem num manuscrito de 1837. Também pré-datam as barras de Triat outras barras de ferro para treino. Não se sabe qual teria sido a fonte de inspiração para Triat.

As barras carregadas eram, no início, fabricadas com globos maciços. Nos anos 1880s, os globos maciços deram lugar a globos vazios que podiam ser preenchidos com areia ou chumbo.

Estes novos aparatos para treinamento e apresentações se tornaram atraentes, mas quem se interessou por eles tinha poucas opções além de mandar fazer seu próprio equipamento. Em 1902, Alan Calvert criou a Milo Barbell Company – a primeira indústria de equipamentos para levantamento de peso, nos Estados Unidos.

Placas para barras já existiam na Alemanha desde os anos 1880s, mas estes dois fabricantes as tornaram um produto industrial. Foi na Alemanha que Theodore Siebert introduziu o “sistema universal de carregamento de discos na barra” em 1901.

Em 1910 esse sistema passou a ser fabricado pela Companhia de Kaspar Berg. Esta companhia produziu os pesos utilizados na prova de levantamento de peso nas Olimpíadas de 1928 e depois copiadas pela York Barbell Company. A partir de então, com a entrada em cena de Bob Hoffman, proprietário da York Barbell, entusiasta do levantamento de peso e bodybuilding, patrocinador de inúmeros eventos na área e editor da revista Strength and Health, os esportes de força ganharam outras feições.

A partir da invenção das barras com anilhas, os esportes de força se diversificaram. O Strongman ficou com as manifestações de força com objetos pesados em geral e surgiram os LEVANTAMENTOS DE PESO feitos com barras e anilhas.

Acabava a era dos “homens fortes” e um novo mundo de esportes de levantamento de peso se fez possível a partir deste simples equipamento: uma barra com anilhas.

Como era de se esperar, houve um “boom” de invenções de levantamentos. Hoje, algumas organizações se dedicam a preservar a memória deste período heróico dos esportes de levantamento, quando foram criados mais de 130 levantamentos .

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O que nos diz esta bela história que vem das pedras e termina nas simples, mas tecnologicamente sofisticadas, barras e anilhas olímpicas? Que o equipamento é desenvolvido em função de uma demanda, como qualquer item de invenção tecnológica. No entanto, também como qualquer objeto, quanto mais simples for na forma, mas usos se permite. Enquanto um forno de micro-ondas se oferece apenas ao cozimento e aquecimento de materiais de certa composição, uma faca pode ser usada para qualquer coisa, inclusive para produzir arte.

Assim é com os equipamentos de maior funcionalidade e que são utilizados em modalidades de treinamento de maior transferabilidade (mais funcionais): barras, anilhas, kettlebells, cordas, sacos de areia, etc. A complexidade, neste caso, está no tipo de uso. Quanto mais próximo da maior sofisticação do uso, como o uso competitivo, maior é a demanda sobre a qualidade do equipamento, até o ponto de serem especificados nos mínimos detalhes nos livros de regras dos esportes.

O treinamento que recorre ao repertório do levantamento de peso olímpico requer uma barra olímpica. Uma barra olímpica difere de barras comuns não apenas em suas dimensões, mas na liberdade de giro sobre o próprio eixo da manga da barra, onde são encaixadas as anilhas. As anilhas, por sua vez, devem ser de material tal que, embora finas, sejam emborrachadas para que possam ser arremessadas no chão sem riscos para o praticante. A borracha não deve ser deformável, considerando as quedas. Tudo isso representa desafios tecnológicos.

O treinamento que faz uso dos gestos do powerlifting requer a mesma barra olímpica e anilhas não emborrachadas, mais finas, pois potencialmente a barra pode ser carregada com mais peso. Estas anilhas têm um diâmetro e raio definidos.[i]

Kettlebells devem ter uma alça com espessura e curvatura tal que permitam a melhor pegada para a execução os movimentos balísticos do swing, do snatch, do clean e outros.

 

Uma visita rápida ao youtube permite que o leitor se delicie com o mar de besteiras feitas com barras, anilhas, kettlebells e outros equipamentos usados em treinamentos tão sérios. O motivo é que o equipamento não fala. Ele não se recusa a ser usado de forma inadequada.

Assim, ter excelentes anilhas, barras, kettlebells, cordas, dumbbells e outros equipamentos não quer dizer que um ginásio oferece bom treinamento. Mas um bom ginásio necessariamente deve ter excelentes equipamentos.

 

[i] É perfeitamente possível treinar powerlifting com anilhas de levantamento olímpico. Só não se pode competir com elas.