(este artigo foi publicado pela primeira vez na revista Musculação e Fitness, no 94)

Quando minha filha tinha cinco meses, escutei um ruído abafado vindo do quarto dela e, em seguida, um chorinho de má vontade. Corri para lá, onde encontrei um bebê perplexo, sentado no chão. Como ela foi parar lá? Como saiu do berço, onde estava dormindo? Ora, era óbvio: ela tinha caído de ponta cabeça no chão e o barulho foi o choque do crânio dela com o piso coberto por carpete. “Meu deus! Matei o bebê!” pensei, como toda mãe de primeira viagem.

Bobagem: não matei, está aí, viva há 24 anos. Mas aprendi uma coisa: a grade do berço estava baixa o suficiente para que ela conseguisse se erguer e se propulsionar para frente, caindo para fora do berço. Com cinco meses, ela não ficava de pé sozinha, naturalmente. Mas foi capaz de erguer seu próprio peso corporal segurando nas grades do berço.

Com o tempo, ela foi automatizando as tarefas motoras de escapar do berço até que desisti e deixei a grade só como anteparo para que ela não caísse dormindo.

Minha filha não é nenhum ET: toda criança faz isso. As fotos abaixo são imagens captadas por pais de crianças escapando de berços. Observem a força e resistência da pegada destes bebês, a capacidade de erguer seu próprio peso corporal e a desenvoltura em realizar manobras que envolvem complexo processamento espacial (propriocepção).

 

 

Quantos adultos você conhece que erguem seu peso corporal com um braço só? Quantos sobem e saltam obstáculos de sua altura? Seria justo, então, dizer, que, em média, os bebês são proporcionalmente mais fortes do que nós?

Observe também as figuras abaixo. São imagens domésticas de bebês agachando. Em geral, agachando para brincar – seja para brincar agachados, com algo que se passa no chão, ou para agarrar algo que deve ser transportado para outro local. A técnica utilizada pelos bebês para transportar objetos instáveis, como a bolsa da tia, é semelhante à técnica, treinada à exaustão, dos atletas de Strongman para a prova de carregamento de sacos de areia.

fig 1 a

 

fig 1 b

Se observarmos os bebês apanhando algo do chão e levantando, vemos que eles agacham para melhor fazer a pegada no objeto e então elevam o quadril o suficiente para a alavanca precisa na extensão do quadril. Ou seja? Realizam um levantamento terra.

Uma vez ensinei as duas filhinhas de um casal de amigos a fazer supino com um cabo de vassoura. Uma tinha 5 e outra tinha 8 anos. Ambas se colocaram no banco e, sem que eu dissesse nada, aduziram as escápulas e contraíram os glúteos, em técnica perfeita.

Peraí: por que é que eu passo meses ensinando adultos a agachar, supinar e fazer levantamento terra se, naturalmente, todo bebê já sabe fazer isso?

Sempre botei a culpa na cadeira. A cadeira é um objeto terrível, pois limita a flexão do nosso quadril a 90º quando naturalmente agacharíamos para fazer qualquer coisa. Com o tempo, ocorrem perdas tanto musculares – atrofia da musculatura extensora de quadril – como neurais, e sobre essas não sabemos nada. Com estas perdas, todo nosso controle da postura e locomoção bípede é comprometido.

Tim Anderson e Geoff Neupert, autores de “Original Strength” (2013) sugerem que nascemos programados para o movimento integrado. Em outras palavras, nascemos feitos para o recrutamento eficiente de todas as nossas alavancas para a harmônica e coordenada execução forte de movimentos.  Segundo os mesmos autores, também nascemos com a capacidade de eficientemente explorar as três dimensões do espaço. É o processo de “civilizar” nossos filhos nascidos com corporalidade perfeita que a degenera.

O desenvolvimento motor é descrito pelos especialistas segundo estágios. Abaixo temos uma tabela que reúne contribuições de diferentes autores:

Idade

Desenvolvimento motor

1–1.5 meses Quando carregado verticalmente, mantém a cabeça ereta e firme
1.5–2 meses Quando deitado ou inclinado, levanta-se com os braços. Rola de um lado para decúbito dorsal
3 meses Mantém a cabeça ereta por períodos prolongados quando na posição vertical. Cabeça em ângulo de 90º. Mantém-se erguido pelos braços quando deitado. Fim do reflexo de agarrar.
5 meses Mantém a cabeça firme. Busca objetos e os agarra. Pegada intencional (“purposeful grasp”, como diferente da pegada por reflexo dos recém-nascidos). Objetos são levados à boca. Brinca com os pés. Alonga-se. Toca a genitália. Balança-se na barriga por prazer.
6 meses Transfere objetos de uma mão para outra. Puxa-se para sentar e senta-se ereto com suporte. Rola de decúbito ventral para dorsal. Pegada palmar de um cubo.
7 meses Senta-se com “tripé” (apoio da mão). Empurra cabeça e tronco para fora do chão. Suporta o peso sobre as pernas. Remexe superfície com as mãos.
9–10 meses Consegue se contorcer e engatinhar. Senta-se sem suporte e volta para outra posição. Inclina-se e recupera a posição ereta. Pega objetos com pegada de pinçamento (oposição polegar-dedos).
1 year Fica em pé segurado alguma mobília. Fica em pé sozinho por um ou dois segundos e então cai com um solavanco. (Em alguns modelos): anda sozinho
18 meses Anda sozinho. Pega brinquedos sem cair. Sobe e desce escadas segurando corrimão. Começa a pular com os dois pés. Consegue construir uma torre de 3 ou 4 cubos e joga uma bola.
2 years Consegue correr. Sobe e desce escadas dois pés por degrau. Constrói torres de 6 cubos.
3 years Sobe degraus um pé por degrau e desce com dois pés por degrau. Copia círculos, imita cruzes e desenha pessoa se solicitado. Construi torres de 9 cubos.
4 years Desce escadas um pé por degrau. Pula em um pé só. Imita portões com cubos, copia cruzes.
5 years Salta e pula com dois pés. Desenha pessoa e copia um triângulo. Diz sua própria idade.

 

Tabela de desenvolvimento motor segundo Berk (2012), Gowers (2005) e Developmental Milestones Chart (2007)

Não há muita discrepância entre os autores quanto a tais marcos. Segundo um trabalho recente, no entanto (Atun-Einy et al 2013), o desenvolvimento motor está fortemente associado à motivação. Observando 27 bebês de 7 a 12 meses, os autores catalogaram o grupo segundo quatro marcos de desenvolvimento motor e os correlacionaram a indicadores de motivação. Crianças fortemente motivadas foram mais precoces.

O que isso quer dizer? Para os autores, estes dados permitem o desenvolvimento de terapias para ajudar crianças com atraso no desenvolvimento.