Mais uma manifestação triste de mau jornalismo: cortar o discurso da fonte primária, seja ela texto ou fala, e construir, com fragmentos da mesma, um discurso seu. Isso não tem outro nome: trata-se de manipulação e fraude.

Vou dar um exemplo:

Fala do entrevistado: “Realmente, hoje não se pode mesmo confiar nos órgãos de fiscalização. Este documento que estou lhe mostrando é a prova de que houve superfaturamento. No entanto, a fiscalização, que esteve presente, não notificou o estabelecimento”

Fala reconstruida: “Realmente, hoje não se pode mesmo confiar nos órgãos de fiscalização. Este documento que estou lhe mostrando é a prova de que houve superfaturamento. No entanto, a fiscalização, que esteve presente, não notificou o estabelecimento” = “Realmente, hoje se pode mesmo confiar nos órgãos de fiscalização. Este documento é a prova de que houve fiscalização”.

Que tal? Não é o oposto do que o entrevistado falou?

Isso já aconteceu comigo mais de uma vez. Dessa vez foi uma entrevista concedida à TV Gazeta dia 12 de setembro a respeito de suicídio. Me perguntaram se eu concordaria em dar meu depoimento. Eu disse que sim, condicionado, claro, ao fato de ser o meu depoimento. Veio o repórter aqui e, no final, ele ainda me perguntou se eu teria alguma mensagem importante para deixar. Eu disse que sim:  acredito que nesse tema milenarmente tabu, a grande luta é dar voz àqueles que sempre foram usurpados do direito à expressão. Estamos falando dos portadores de desordens mentais, em geral tão chapados pela psiquiatria mainstream que perderam a dignidade e condição humana. Só o que eu reivindiquei é que meu discurso e evidências em contradição à agenda da indústria farmacêutica e da psiquiatria mainstream fosse exibido, discurso este publicado por mim dezenas de vezes em meus blogs e agora em processo de produção de meu livro, “A Força e a Morte”.

 

 

Bem, fizeram exatamente o que ilustrei acima. Me mostraram bela e formosa treinando, declarando que minha vida era “antes” um lixo, depois várias entrevistas com um psiquiatra mainstream sobre a necessidade do tratamento com lítio e, finalmente, eu dizendo “hoje posso me considerar uma pessoa feliz”.

Ora, o telespectador conclui, com muita propriedade, que eu estou feliz e sou campeã e recordista mundial porque tomo lítio! Quando minha luta é precisamente a de expor os interesses da indústria farmacêutica na pandemia de desordem mental iatrogênica por medicação e o fato de que, depois de décadas super medicada sem sucesso, controlei uma desordem gravíssima do meu jeito, sem a medicação psiquiatrica convencional.

Eu me senti no mínimo traída, na pior das hipóteses usada e manipulada para confirmar o oposto do que declarei.

E aí, Gazeta, como fica isso?