Desta vez eu respondo uma pergunta de Tiago Duarte, do dia 28 de novembro, sobre a relação entre o levantador e a barra. Tiago detalhou:

“Olá Marilia, esta semana estava contando e ensinando minha aluna de personal, sobre a importância da relação homem e barra, antes de um levantamento ou agachamento. Todo o clima, concentração e como este momento – VOCÊ X BARRA – pode determinar se vencerá a carga ou não. Acredito que isso não seja ensinado em academias de musculação, ou treinamento tradicional.Gostaria de ver você escrevendo sobre isso, abraço!”

Então vamos lá.

Uns anos atrás um amigo me procurou porque estava insatisfeito com seu levantamento terra. Na verdade estava insatisfeito com os três levantamentos, mas o terra incomodava: por algum motivo, ele era capaz de levantar 180kg sem um esforço absurdo, mas 200kg não saiam do chão.

Trabalhamos bastante a técnica e exercícios auxiliares, melhoramos o agachamento e o supino, até melhoramos o terra, mas os 200kg não saiam do chão. A frustração dele era visível. Em cargas sub-máximas, ele se aproximava da barra com um ar de angústia e contrariedade. Uma noite calma, três de nós sozinhos no local de treino, eu disse a ele, depois de prepará-lo com cinto e magnésio:

“Agora acabou o tempo e começou a eternidade. Olhe a barra e espere o quanto for necessário. Quando ela disser a você que quer ser levantada, vá lá e levante”.

Silêncio.

Ele olhou bem a barra, com muita concentração, por muitos segundos. Então olhou para mim, começou a rir e disse: “não consigo, é bonitinho, mas não funciona”.

É, não deu. Ele não escutou a barra.

Não, eu não tomei nenhum alucinógeno para escrever este artigo. O que quero dizer é que a barra olímpica para o levantamento de peso não é um simples (ou complexo) cilindro de aço. Se não houver essa transição da relação mecânica entre o uso de um aparelho ou peça de equipamento para uma de simbiose com a barra e as anilhas, a “mágica” do levantamento perfeito não acontece. Ninguém incorpora a si mesmo, numa ação emocional e simbólica de profunda intensidade, um leg press. Um leg press é uma “coisa ali”.

Uma barra olímpica carregada é um pedaço de você temporariamente separado de você. No momento do levantamento – Shazan! – atleta e aço se unem para realizar o ritual da Força. O atleta cria uma nova representação de si mesmo – tanto no mapeamento cerebral do corpo-mais-peso como simbolicamente.

Quando eu fui para o meu primeiro campeonato internacional, um amigo me escreveu:

“Go, Marilia, and give that bar the ride of its life”.

Traduzindo: “Vá, Marilia, e dê àquela barra o passeio da vida dela”.

Veja quanta coisa há nesta frase: primeiro, a barra é pessoalizada. Segundo, ela, a barra, é claramente alguém querido, que merece ser levado a um passeio. Só alguém com muita intimidade e amor por ela pode levá-la a um grande passeio.

Então sim, aqueles segundos em que os grandes levantadores olham para a barra, seguram, às vezes giram (no caso do supino), acertam a pegada mas sem fazer ainda menção de executar o movimento são momentos de profundo foco, mas também do diálogo com a barra. Outra maneira de enxergar esse momento é o de que ele é o momento do amálgama levantador-barra, o momento em que as duas partes separadas voltam a ser uma só.

De qualquer maneira, é uma relação de amor. Prova disso é a imensa dose de respeito e tratamento reverencial que o levantador tem com a barra.

Levantadores de peso não admitem que sua barra seja tocada ou alterada sem sua permissão. Existe um ato de desrespeito que supera todos: dar um passo por cima de uma barra. Nunca, mas NUNCA, em hipótese alguma, passe por cima de uma barra carregada.

Isso parece ser uma reação instintiva de verdadeiros levantadores. Uns meses atrás, o grande levantador de peso olímpico Maxim Agapirov esteve no Brasil oferecendo um curso introdutório sob patrocínio da Eleiko. Agapirov reservou preciosos minutos para explicar este ítem de “ética de tablado”. Passar por cima de uma barra carregada é um ato de desrespeito com o levantador que a está levantando. Colocar o pé numa barra é ainda mais desrespeitoso. Os motivos relacionados a higiene não são os mais relevantes: os simbólicos, sim.

Agapitov relatou um caso presenciado por ele, no aquecimento de um campeonato mundial ou jogos olímpicos, em que um levantador passou por cima da barra de outro. O ofendido, que não falava o idioma do agressor, seguiu-o, agarrou- pelo braço e obrigou-o a passar novamente sobre a barra em sentido contrário. Só posso concluir que, transtornado pelo ato inadmissível, o atleta obrigou o transgressor a “desfazer” o mal feito.

Um tempo atrás eu treinava num outro local, além da minha Powerhouse. Este local era frequentado por praticantes recreacionais de atividade física. Um amigo me perguntou como iam as coisas. Respondi: “vão bem, treino em horário em que não há gente, mas a semana passada uma Patricinha passou por cima da minha barra. Não bati nela, juro. Só que não há condições assim”. Ele respondeu “é, você sempre foi desse jeito”.

Até Agapirov discutir este ítem num curso e eu mesma vivenciar a relação com equipamento fora do Brasil, eu achava que era mais uma esquisitisse minha: não é.

Finalmente, a barra carregada incorpora toda a carga de representações que o atleta tem de sua prática, arte ou esporte. Nela estão investidas grandes quantidades de emoção, símbolos, conhecimento e história.

Costumo começar meu curso sobre História da Força (que não por acaso tem como sub-título “a história de amor do Homem com sua Força”) com uma barra carregada com 70kg no chão. Faço um levantamento terra com ela e proponho aos alunos: “quero que vocês observem este ato e pensem no que viram. O que eu fiz? O que foi levantado do chão?”

No fim da aula, eu repito o ato e pergunto o que eles viram. As respostas são variadas e interessantes. No entanto, faço questão de amarrar o curso dizendo: “o que eu levantei do chão foram 150 mil anos de uma relação de amor do Homem com sua força – foi isso que aconteceu aqui”.

Com o tempo, portanto, aprendemos a ver em todas as barras olímpicas do mundo a “nossa” barra. Todas incorporam os mesmos elementos simbólicos e são, portanto, sagradas.

Termino este artigo com um vídeo de um de meus levantamentos mal sucedidos: uma tentativa de quebra de recorde mundial de levantamento terra que eu perdi. Venci o campeonato, quebrei outro recorde, e nesse momento, em meu último levantamento, me despedi da barra com um gesto de amor: um beijo.