“Meu deus, meu deus, meu deus, que coisa perfeita”, dizia eu quando vi aquele bebê pela primeira vez. Hoje, passados 24 anos, penso, mas não digo mais. Não digo porque ela se incomoda com minha incapacidade em reconhecer suas supostas imperfeições.

Onde estão as imperfeições da matéria?

Olho para mim no espelho e às vezes vejo uma mulher belíssima, às vezes algo que não sei classificar como não belo ou o que. Entre a belíssima e o “o quê”, um gradiente de percepções, todas elas com reconhecimento de marcas e peculiaridades. Seriam estas as imperfeições?

Muitas estrias na barriga, peito e coxas. Só notei porque li algo sobre estrias, então fui buscar as minhas. Vejo nas amigas mais morenas as estrias com mais evidência. Por mais que eu tente, não consigo me colocar no lugar de quem vê nelas um problema, uma negação qualquer da beleza.

Você já deve estar pensando que sou uma dessas relativistas radicais que pontifica que nada ou tudo é imperfeito, tudo é construção e portanto nada importa. Não: eu vejo imperfeições, sim. O que seria uma negação da beleza, uma imperfeição? Espinha no nariz. Daquelas que aparece no dia em que a gente vai ter o primeiro encontro consensualmente romântico com alguém com que se viveu essa transição entre o neutro e o romântico. Não tem outro nome para uma espinha vermelha e inflamada no nariz: é feia. E é um problema, pois quanto mais se olha para ela no espelho, mais consciente se fica da sua existência. Uma hora fica insuportável, a paciência com o creminho secante se vai e a gente vai lá e aperta a espinha. Pronto: agora não temos só uma espinha, temos uma área de 1,5cm de pele vermelha inflamada. Inferno da imperfeição.

No entanto, o mesmo nariz que me enlouquece se tiver uma espinha é totalmente aceitável por ser torto. Em 2007 caiu uma barra com 110kg no meu nariz, por sorte só quebrou o dito cujo, que ficou torto. O cirurgião plástico me perguntou se eu queria operá-lo. Perguntei duas coisas: a primeira era sobre o tempo de recuperação. A segunda era sobre se eu respiraria melhor. Ele me disse que o tempo era grande, superior a um mês. Um mês sem treinar? Impensável. Meu cérebro não suportaria. A segunda resposta definiu minha decisão: não, eu não respiraria melhor porque eu já tinha um grande desvio de septo antes da fratura.

Fiquei essa mulher de nariz torto, estrias e nem por isso menos belíssima às vezes, às vezes “o que”.

Os homens que mais me enlouqueceram de desejo são perfeitos. Eles mesmos se acham gordos – eu os acho perfeitos. Eles mesmos já tiveram seus momentos de se importar com a falta de cabelo – eu acho suas cabeças carecas perfeitas. Eu poderia prosseguir na lista do que eles mesmos e outros desqualificam, vêem imperfeição onde eu vejo apelo e beleza. Seria isso expressão da famosa máxima de que o amor é cego? Não, pois o amor que já tive por dois deles não existe mais e os demais não são sujeitos deste tipo de afeto meu.

Então penso na construção social do belo. Embora a construção do belo seja universal, ela é tão cultural quanto qualquer outro universal cultural. Foi essa constatação que me deu um pouco mais de paz quanto à minha angustiante neutralidade. Alguém que foi desenraizado demais, vezes demais e por tempo demais nunca mais consegue pertencer plenamente a nada. Vira um outsider quase que absoluto. Busca no olhar do outro algum reconhecimento, em geral sem sucesso.

A perfeição do outro vira um discurso ideológico e normativo e a imperfeição, sua humanidade.

Continuo não gostando de espinha no nariz. O meu belo, no entanto, é o imperfeito.