Resposta ao texto “Esporte e Psicologia: a relação dos pais com a identidade profissional dos filhos” de João Ricardo Lebert Cozac

Bom. Esse é um assunto para muita manga. Uma coisa é discutir a prática do esporte de alto rendimento, a existência ou possibilidade do nível “elite” nas diversas modalidades no país, e uma outra completamente diferente é profissionalização.

Profissionalização não é algo disponível para muitas modalidades. Aliás, pouquíssimas.

Essa realidade não é só brasileira. Há algumas semanas aconteceu um dos acidentes mais dramáticos da história do meu esporte, o powerlifting. A vítima – um atleta masculino da categoria até 125kg – rompeu os dois tendões do quadríceps, os dois patelares, todos os ligamentos mediais e, na perna esquerda, o cruzado anterior. Além disso, a patela esquerda rachou no meio. Isso aconteceu sob cerca de 350kg de peso num campeonato, realizando um agachamento.

A primeira reação da seguradora foi questionar o pagamento da cirurgia e cuidados emergenciais pois tratava-se de um “atleta profissional”. A primeira coisa que eu pensei foi: “isso é ilegal: não existe powerlifter profissional”.

Este atleta vive de consultorias que dá (sobre o esporte), seminários e workshops (sobre o esporte), coaching online (no esporte) e tem alguns patrocínios (como atleta). Mas não é profissional “stricto sensu”.

O seguro de saúde para o atleta profissional é muito mais caro, embora sejamos (os atletas – imagine se eu sou profissional, eu, hein) mais baratos probabilísticamente para as companhias. É difícil calcular aposentadoria. Como a maioria dos esportes não é profissão, não temos ligas e sindicatos, muito menos conselhos.

Como vivem, então, os atletas de elite destes esportes que não podem ser profissionais? Vivem de uma série de atividades empresariais relacionadas ao esporte. São profissionais do esporte, mas não atletas profissionais no sentido de que não são pagos para treinar, comer e vencer competições.

Essa alternativa de atividades profissionais no esporte não é muito possível no Brasil. O espaço para elas não foi devidamente “socialmente cavado” ou esculpido.

Assim, ser atleta como pedra fundamental da definição identitária, no Brasil, é coisa de pobre. Era nessa frase que eu queria chegar. A frase que gera o “ohhh!!” de espanto, vergonha, indignação e negação. Mas é a mais pura verdade. A elite não quer seus filhos “sem identidade de verdade”. Queremos nossos filhos oftalmologistas, arquitetos, químicos industriais, professores universitários em microbiologia e, por que não?, psicólogos clínicos. Eles, que jogavam “tão bem” tênis quando eram jovens.

Pobre não. Pobre não vai disputar vaga na FUVEST com nossos filhos. Nossos filhos, cujos treinos em polo aquático nós cortamos para que pairem acima da nota de corte da medicina e no ano seguinte possam ir todos os dias para a Dr. Arnaldo, e não para as piscinas do Clube Pinheiros.

Nossos filhos que colocamos na natação porque “é importante”, mas se se encontrarem demais naquelas águas, os tiramos delas antes que a coisa fique inaceitavelmente séria.

Dois anos atrás encontrei um colega de ginásio na EFEE-USP. Professor lá. Eu fui dar uma aula como professora convidada. Ambos com os respectivos doutorados e pós-docs. A diferença é que ele ficou por lá e eu saí para ser – ups! Não profissional, hein! – atleta. Ele me contou que o treinador propôs que a filha dele ficasse na equipe competitiva do Clube Pinheiros. Ele “obviamente” não deixou. Meio perplexa, perguntei por que. “Ora, ela tem que estudar, tem a vida dela para levar”.

Me calei e fiquei sem resposta. Eu também tinha uma vida para levar. No entanto, eu fui e continuei atleta. Mas não profissional, hein!

A verdade é que meu colega tem fundamento para seu medo. Não existe uma identidade de fato reservada para nossos filhos atletas. Só quem não tem nada a perder, quem já nasceu sem identidade, é que pode apostar na identidade de atleta como alternativa “profissional”, já que alternativa por alternativa, a economia paralela é totalmente alternativa.

A verdade, colegas, é que a única mãe que sonha com um filho profissionalmente atleta é a mãe favelada que não pode sonhá-lo médico, arquiteto, bioquimico ou psicólogo. A mãe cujos filhos não disputam vaga na FUVEST com os nossos.

Até que isso deixe de ser verdade, até que um atleta não tenha que pedir desculpas por sê-lo, escrever que é professor, escritor, sociólogo ou bioquímico (e não atleta, pelo amor de deus) nos formulários da emergência hospitalar, até que exista um espaço social para o atleta e que as funções paralelas que ele exerce sejam parte de seu fazer esportivo, até esse dia, ninguém quer ver o filho profissionalmente atleta.

A mãe favelada que identidade nenhuma pode sonhar para os filhos, essa espera por um outro dia. Um em que mais justiça seja feita nos alicerces da vida social. E então ela não precise sonhá-lo, sem o menor realismo, atleta, para “sair daquele inferno”.