Basicamente por entusiasmo e estímulo de Stevie Ramos, as idéias que circularam entre amigos, colegas e leitores a partir da crônica que fiz sobre o assalto no centro da cidade (Sobre meninos e aranhas http://mariliacoutinho.livejournal.com/15687.html, do dia 18 de fevereiro) vem se transformando num projeto de intervenção social.
Muita gente tem se envolvido e há um pequeno núcleo que se dedica a reunir contribuições e organizar os rumos das atividades. Somos generosamente alojados pela comunidade virtual IronPump (www.ironpump.org), onde dispomos de uma sala para encaminhar as discussões.
Outros setores vêm aos poucos se aproximando e dando, cada um de sua maneira, apoio e forma ao projeto.
Duas pessoas que se interessaram por ele e tomaram iniciativa de pensá-lo como atividade foram a Dra. Yara Carvalho e Marcos Warschauer, ambos da Escola de Educação Física da USP.
Nesse momento não vem ao caso expor à discussão pública as ações em vias de discussão, pelo seu caráter incipiente.
Mas as considerações que as motivam, sim:

1) Sem a adesão ou no mínimo aval de determinados atores sociais relevantes, não existe a menor chance de se desenvolver um projeto com algum alcance e capacidade de atrair suporte e financiamento; estes atores incluem membros da comunidade científica, da comunidade médica, dirigentes esportivos, ativistas (terceiro setor) e eu incluiria fortemente a indústria (de suplementação, pelo menos).

2) Sem desenvolver alguns consensos mínimos em torno das questões envolvidas neste projeto (quais sejam: 1. a dimensão do problema social dos adolescentes de rua – essa questão é mais fácil; 2. a importância do treinamento de força do ponto de vista da saúde; 3. o papel social dos esportes de força; 4. a função simbólica da força como recuperação da auto-estima, dignidade e potência na sociedade; 5. outros) não é possível criar um ambiente de entendimento político entre esses atores para desenvolver AÇÃO;

3) a discussão sobre as dimensões do treinamento de força, hipertrofia muscular e esportes de força do ponto de vista da saúde pública é:

a) imatura e incipiente – os argumentos que existem ainda estão pouco desenvolvidos, pouco publicados e não constituem um corpo sólido seja de controvérsia, seja da constituição de uma “questão”. Isso é verdade não apenas no plano científico, como em todos os demais âmbitos de discussão na sociedade;

b) marcada por preconceitos de todos os lados – “pre-conceitos” no sentido mais estrito da expressão: idéias pre-concebidas que não são questionadas pelos participantes da discussão. Essas idéias se transformam em presupostos e simplesmente neutralizam qualquer possibilidade de diálogo, já que as partes não conseguem se remeter às “questões de fato”.

Se vamos conseguir, através de alguma estratégia, superar estas dificuldades e a imobilidade resultante, não sei, mas acho que vale a pena tentar.

Marilia


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