Essa é minha pequena contribuição ao que eu considero uma das manifestações mais eloqüentes e contundentes contra a opressão corporal de gênero. Poderiam argumentar que qualquer opressão de gênero e sexo é corporal – e é. Só que umas são mais que outras.

Enquanto as diferenças salariais entre homens e mulheres, o tratamento desigual perante a lei, entre outras formas de discriminação são experiências de opressão de gênero, a violenta imposição de códigos de vestimenta é plenamente corporal.

Por que digo violenta? Porque sua transgressão é punida com insultos, rejeição e, finalmente, estupro, espancamento e morte.

É isso que precisa ficar claro: o patriarcado criou um código de vestimenta ideológico para as mulheres. Esse código nunca escrito é detalhado. Prescreve tipo de indumentária, cor, comprimento da saia ou vestido, tipo de calçado, decote, entre outros itens.Toda mulher passa por um corredor polonês em que estes itens são checados, todos os dias. A presença ou ausência de algo gera advertência. Transgressões mais graves vão na linha que já apontei.

Esse código exibe com clareza que existe uma ordem imposta por uma instância superior cujo objetivo é manter e aprofundar um estado violento de dominação e subordinação. De alienação de nossos corpos, pois quem legisla sobre eles é o outro, e não nós mesmas.

Se eu pudesse, eu sugeriria que fôssemos todas às ruas nuas, peladas, talvez com adereços como colares e brincos que gostássemos, que achássemos belos e ornamentais, com tintas coloridas que NOS agradassem.

Mas eu não posso, porque eu não vou. Eu não vou porque, como uma mulher estuprada e abusada no passado, eu tenho terror de multidão. Tenho terror que se aproximem de mim e me toquem. Tenho medo de estranhos.

Para que outras mulheres não sejam tratadas como carne de açougue como eu fui, por favor marchem. De mini-saia, sem top, peladas, lindas. Mas marchem.