Como diz a Letícia Lanz, esses aniversários com números emblemáticos existem para que a gente faça os balanços e reflexões devidas. A pergunta mais importante, neste quesito é: quem sou eu?

Essa pergunta raramente é feita desta maneira e, portanto, quase nunca merece uma resposta direta e sóbria (ainda que seja “eu não sei”). A resposta, visível ou não, varia no tempo. Talvez a única coisa certa é que mudamos sempre: somos seres em metamorfose permanente. Uns mais, outros menos. Seguramente eu pertenço à categoria dos “uns mais”.

A identidade é uma das construções mais fascinantes. Identidade não é “quem a gente realmente é” porque isso não existe. A gente “realmente” não é nada: somos um processfolio, um projeto em construção.

Essa construção é vista pelos diversos campos do saber de maneira diferente. Em geral, também independente: a identidade cultural é estudada por certos grupos de autores da antropologia. A identidade nacional é um tema explorado pela ciência política.  A formação da identidade na esfera mais individual, pela psicologia (continuidade pessoal).

Essa independência ontológica que a separação disciplinar sugere não resiste a um olhar mais atento: a continuidade pessoal se estabelece contextualmente. Ninguém forma sua personalidade e constrói uma representação se não em interação com um universo de outros, desde suas relações afetivas imediatas até os outros abstratos que constituem as histórias pessoais e a História, a cultura e as sociedades em que nos organizamos.

Assim, todos estes processos acontecem não só ao mesmo tempo como co-ocorrem. Separá-los e observá-los através de lentes que não se combinam é chato. Dificulta o trabalho de quem estuda e de quem entende.

Cria espaço para discursos no mínimo questionáveis sobre a necessidade de pertencimento “hard” para a formação de uma identidade (identidade nacional, regional, de torcida, de grupo).

Em cada fase da nossa vida, um aspecto da identidade pode se tornar dominante. Por exemplo: eu tive uma filha em 1989. Portanto, ao conjunto de itens que define a minha identidade foi acrescentada a condição de “mãe” nesta data. Isso é irreversível, de modo que hoje eu sou tão mãe quanto dia 23 de junho de 1989. No entanto, seguramente essa condição me define muito menos hoje do que então. Se me perguntassem em julho de 1989:

– vamos, responda bem rápido: o que você é?

Eu responderia de sopetão

– mãe

E hoje? Se me fizessem a mesma pergunta?

– atleta

Essa pergunta aparece naquele quadrinho dos formulários da imigração, das fichas de hotel e dos cadastros médicos, sob o ítem “profissão”.

Anteontem eu escrevi assim:

Socióloga / empresária / atleta

Olhei e re-escrevi:

Atleta / empresária / bióloga

Não gostei e fiz uma última:

Atleta / professora / empresária

“Profissão” é diferente de “ocupação” e compõe em proporção variável o nosso pacote identitário. Para os que sempre me acusaram (ou me elogiaram?) de ser workaholic, esse componente pesou desproporcionalmente. Acho que eu concordo.

Minhas ocupações remuneradas – porque eu tenho várias – são, nesta ordem: professora, consultora, atleta e técnica (“coach”). Eu ganho para treinar e competir? Acredito que sim. Eu diria que a parceria que eu tenho com meus patrocinadores define “ganhar”, ainda que seja em espécie. Inclusive eu consigo estimar o valor dessa remuneração, e não é baixo. Então, sim, uma das minhas ocupações é “atleta”.

E profissão? Profissão é uma sanção institucional para o exercício de alguma prática codificada por um corpo de conhecimento formal. Essa definição funciona para diferentes períodos históricos até mesmo pré-modernos. Assim, desde que a sociedade tenha esse corpo codificado de saber, um sistema organizado para inculcá-lo e um mecanismo de sanção e reprodução, existe uma profissão. A medicina é uma profissão muito antiga neste sentido.

Do século XIX para cá, com a institucionalização de várias práticas sociais antes exercidas segundo outras relações sociais, apareceram os organismos de regulamentação profissional. Esse processo de institucionalização das profissões evoluiu e ainda evolui dentro dos séculos XX e XXI.

Profissão também é o que se professa, algo com o qual se contrai um compromisso e se têm um vínculo de honra e fidelidade. Daí a famosa relação entre medicina e sacerdócio.

E quais as minhas profissões? Veja a confusão acima, provocada por espaços em branco em formulários. Eu diria que são todas aquelas menos “empresária”, que, ironicamente, é a que melhor responde a pergunta do formulário. Ninguém necessita de uma formação específica e sanção por órgão de regulamentação para ser empresário. Todas as demais se enquandram, inclusive atleta: atleta só é atleta após submeter-se ao fazer competitivo, coisa que requer no mínimo conhecer as regras, além do treinamento de técnicas e habilidades.

A coisa que eu mais “professo” é a minha fidelidade ao levantamento de peso. Também é o que eu mais ensino, sobre o que eu mais escrevo e o que eu mais pratico.

Eu diria com certa confiança que “atleta” é o cerne da minha identidade.

E os outros elementos? Estão presentes, mas por um motivo ou outro não estão em negrito. Minha identidade de gênero é divertida, pensada, mas não é ela, de fato, o foco da problematização. Identidade de gênero é a praia do meu irmão e da galera que eu acompanho com tanto fascínio, da transgeneridade. Eles e elas (hoje também nomeados elxs ou [email protected]) é que têm a identidade de gênero realmente em pauta, mais do que todo mundo. Estabelecem uma agenda de discussão para todos nós através dessa intensa vivência.

Olho para outro lado e observo meu amigo Everson “Índio”, também conhecido como “Índio”, basicamente porque é o único índio do grupo. A identidade cultural dele é o foco de sua auto-representação. Ele vive conscientemente esta identidade o tempo todo.

É uma vivência identitária tão sofrida e contraditória quanto a [email protected] [email protected] transgê[email protected], por motivos bem diferentes. Pessoas indígenas nascem numa sociedade que as nega e lhes nega definição. Uma pessoa indígena é pessoa por negação: ela é não-branca, ela não vive em bairros como os nossos e seu idioma original não é o português. É complicado se construir nesse espaço negativo. Por isso ocupa tão integralmente a vida de quem precisa se construir como tal.

Talvez a regra prática para se saber o que é o foco da identidade das pessoas seja mesmo esperar que elas estejam distraídas e gritar no ouvido delas:

– RÁPIDO! RESPONDA IMEDIATAMENTE, O QUE É VOCÊ?

(Não “quem”, cuidado: se você perguntar “quem” ela assusta e responde o nome)

 

Umas leituras e links:

WHAT IS IDENTITY (AS WE NOW USE THE WORD)?

http://www.stanford.edu/~jfearon/papers/iden1v2.pdf

http://www.immi.se/intercultural/nr10/ojha.htm

http://www.mcli.dist.maricopa.edu/events/afc99/articles/heartof.pdf

http://en.wikipedia.org/wiki/Identity_formation

http://en.wikipedia.org/wiki/Identity