Aproveitei a carta do meu erudito amigo Denilson Costa para socializar as respostas com todo mundo. Eu não sou proprietária de nenhuma crossfit, não fiz um levantamento quantitativo, mas acredito que sou suficientemente próxima para emitir algumas opiniões bem embasadas. Se eu pisar muito no tomate, espero que meus amigos professores e proprietários de unidades Crossfit me corrijam. Vamos lá.

Denilson: boa noite Marilia…. completamente off topic, rs… Como anda o movimento crossfit em sp? Qual o perfil do aluno?

Marília: Vamos considerar que estamos no início da implantação do “movimento crossfit” no Brasil, sendo São Paulo sua vanguarda. O perfil do aluno é o profissional liberal, executivo, estudante, alto funcionário público ou da iniciativa privada. Isso ocorre não apenas pelo preço ser mais elevado, mas porque a proposta é digerível para uma parcela que tenha as ferramentas intelectuais para isso. As pessoas que se vêem diante da necessidade de “fazer academia” (não sei de onde veio essa expressão cheia de erros de português) não vai para a Crossfit. Eles não têm como entender a proposta.

Pattys e Mauricinhos também não se viram atraídos. Minha análise é que em sua maioria, são realmente deficientes em instrumentos intelectuais (Patty têm baixo nível educacional e cultural em geral, mesmo sendo burguesinhas, são conservadoras e não têm reflexão crítica sobre nada, muito menos sobre corporalidade e movimento). Além disso, não rola o famoso desfile de moda nas Crossfits: o treino é duro, suado e as pessoas ficam com caras engraçadas.

Denilson: Quantas academias aderiram e de quais regioes?

Marília: Nenhuma. Todas as Crossfits de São Paulo são ginásios novos, nenhuma implantada dentro de outra academia, como nos Estados Unidos, ou mesmo como “nova versão” de alguma academia pré-existente, usando o mesmo CNPJ. Acho que você está se referindo ao namoro com a Reebok, certo? Ainda não rolou nada efetivamente. Nos Estados Unidos, sim.

Denilson: Quantos metros quadrados sao tipicamente necessarios?

Marília – Isso não existe na Crossfit. Nas edições antigas do Crossfit Journal, existem artigos ensinando como fazer uma “garage gym”. Isso é a origem de uma crossfit, tipicamente. Existem ainda hoje, pois a anuidade não é muito alta e se um grupo de amigos prefere treinar numa garage gym e participar dos jogos regionais, nacionais e mundial, então quotizam e pagam a anuidade.

Crossfits existem de todos os tamanhos e formatos, com todas as “personalidades esportivas”. A CF Brasil foi fundada por um atleta de Levantamento Olímpico, várias vezes campeão brasileiro e excelente técnico, o Joel Fridman. Mas conheço crossfits americanas fundadas por powerlifters. Elas naturalmente atraem a turma do Power. Tem uma, dentro da Iron Sport, dirigida por um Strongman. Quem você imagina que ela atraia?

Aqui, eu diria que elas têm entre 180 a 400 m2 de área útil. Mas posso estar enganada, é bom perguntar direitinho ao Joel, Tiago, César, Danilo – a galera.

Denilson – Quantos alunos tipicamente realizam a aula simultaneamente?

Marilia – Acho que até uns 20, 25. Eu fiz uma aula na CF de Alexandria, perto de Washington DC, com umas 30 pessoas.

Denilson – Qual o valor pago por aula, ou mensalidade, comparado a mensalidade tipica de musculação?

Marilia – Não sei, viu… Eu acho que fica em torno do valor das academias “B” de São Paulo (Bioritmo, Runner, etc). As academias “A” aqui são bem caras, em torno de R$400 a mensalidade. As CFs, em termos de valores, estariam junto com as “B”, na segmentação padronizada do mercado de fitness.

Denilson – normalmente todos fazem os mesmos movimentos simultaneamente, como numa aula de bodypump?

Marilia – Não, é bem diferente. A sessão de treino é dividida em partes. Durante a parte técnica existe uma proposta que é sempre o aprimoramento da técnica daquele gesto ou exercício. Digamos: hoje vamos trabalhar push-jerk. Então as pessoas se organizam em grupos por carga semelhante (ou altura do suporte), para revezar. Aquele movimento será feito, com supervisão do professor, com calma, para correção das deficiências técnicas e melhoria da forma. Depois tem os WODs: workout of the day. O WOD é uma proposta diferente, em que se realiza uma sequência de exercícios ou contra o tempo, ou, num tempo definido, um maior número de repetições. São sempre “mini-torneios”, propostas de auto-superação. Às vezes são realizados em times, uns competindo contra os outros. Veja alguns exemplos dos WODs da Crossfit Brasil aqui: http://www.crossfitbrasil.com.br/blog/ No site da Crossfit, o blog é constituído de WODs: http://crossfit.com/ .

Denilson – existem jogos crossfit acontecendo no Brasil?

Marilia – sim, existem. Eu ajudei a arbitrar um. São muito concorridos. Acho que o último tinha uns 130 atletas inscritos ou mais.

Denilson –  eu posso treinar um atleta por fora e jogá-lo numa competição ou ele tem que obrigatoriamente ser atleta de uma academia franquiada?

Marilia – isso eu não sei, mas alguém vai responder esse post com a resposta correta. Eu acho que o atleta tem que ser filiado a uma Crossfit local, que necessariamente é filiada à Crossfit mundial. O modelo não está muito distante de outros esportes institucionalizados, só é menos burocrático.

Denilson – a franquia local segue um programa padronizado, importado dos Estados Unidos?

Marilia – essa é uma pergunta muito boa. A resposta é NÃO. A formação de instrutores serve justamente para que eles tenham capacidade de gerar seus próprios WODs e gerenciar o treinamento de SUA comunidade de atletas (os alunos são considerados e chamados de atletas, essa é uma outra discussão sobre os padrões fisiológicos que podemos ter outra hora). Os atletas da crossfit “A” são totalmente diferentes dos atletas da crossfit “B”. Os instrutores têm que ser capazes de responder às demandas de sua comunidade. Quanto mais competente e experiente for o instrutor, melhor ele desenvolve essa habilidade, que envolve desde capacidades técnicas, mesmo, de avaliação do desempenho físico de um grupo de atletas (ou um pelotão?…), até características psicológicas como espírito de liderança, autoridade (para dar segurança aos atletas), etc.