Estes dias de internação e isolamento têm sido curiosos. Não só não vejo ninguém exceto o staff do hospital, como meu acesso à internet era precário. É como ser transportada para um outro planeta através de um daqueles sistemas de teletransporte instantâneo.

Todas as coisas deste planeta são diferentes – algumas boas, algums ruins e a maioria só “outra”.

O grupo da Dor é uma das coisas boas. Foi a primeira equipe que assumiu meu caso depois de vários exames ainda no pronto atendimento.

Eu não saberia relatar nem aproximadamente a abordagem deles. Nunca foi objeto de estudos meus, com o característico afastamento de olhar dos estudos. Não, não: agora é a observação mais participante da galáxia.

No pronto atendimento, minha dor não cedia com as medidas adotadas pelos responsáveis por mim. Havia um ortopedista que obviamente não foi com a minha cara (boa parte dos ortopedistas não gosta de atletas – creio que acham que merecemos o que passamos). Em uma das vezes em que meu irmão procurou-o dizendo “minha irmã ainda está com muita dor”, ele respondeu “ela já está bastante medicada, não tem nada que querer mais medicamento”.

Foi então que decidiram (e eu aprovei) pela minha internação e veio o Dr. Maurício, até hoje, para mim, uma espécie de anjo vingador. Ele me avaliou e disse: “vamos combater essa dor por todos os lados”. Em pouco tempo eu havia tomado uma série de medicamentos de ação variada e também sido acoplada a uma bomba de morfina. A bomba fornece uma quantidade fixa e constante de morfina. Há um botão que o paciente pode acionar caso a dor aumente, que despeja imediatamente uma dose bem maior adicional, intravenosa. Além de tudo isso, havia medicamentos de resgate, caso a dor ainda assim extrapolasse o suportável.

Em algumas horas a dor caiu de 8 ou 9 para 3 ou 4. A sensação de, pela primeira vez em muitas semanas, estar quase sem dor, dá até euforia.

Dr. Mauricio saiu agora do meu quarto, deixando algumas sabedorias no ar: “algumas coisas a gente aprende com o dia a dia com a dor: não se pode alisar a dor, é preciso ser agressivo com ela. Quando um paciente chega aqui com uma dor 8 ou 9, não adianta dar um tilex, uma novalgina e assim por diante. É preciso atacar com toda a agressividade. Só depois vamos modulando a relação com a dor”.

É no mínimo uma revolução na maneira de encarar tudo que eu assimilei ao long de toda uma vida, até mesmo nos hospitais. Em geral, podemos chegar urrando de dor. O hospital vai seguir o protocolo lisador => tramal => morfina => um pouco mais de morfina. Dane-se o seu sofrimento.

Nós atletas aprendemos que dor é para aguentar e fim de papo. Com isso, muitos de nós atrasamos o tratamento de doenças e condições até que se tornem tão complicadas que requeram intervenções muito mais longas e trabalhosas, além de sequelas.

O grupo da Dor mudou a minha relação com a dor, com a água, com a comida, com a excreção e com tudo isso, mudou minha relação com meu corpo para uma muito mais benigna e generosa.

 

  • Roaldo Antonio

    Um ave ao Dr. Maurício que enxergou uma pessoa além dos gráficos e indicadores clínicos em um prontuário.