Esses termos são engraçados porque todos se referem a uma mesma “questão”, mas o emprego de uma terminologia ou outra imediatamente denuncia a perspectiva moral do “analista”. Quanto um amigo chega para você e diz: “ela transou com outro cara…”, você não sabe muito bem se ele está desapontado, confuso, indiferente, triste, deprimido ou ressentido. Já se ele disser: “ela me traiu”, não há dúvidas quanto à interpretação.
Dizer que um homem é polígamo com parceira preferencial é diferente ou igual a acusá-lo de ser um galinha que gosta de putaria?
Eu acho que é diferente. Mais que isso: diferente, e o primeiro é muito melhor que o segundo. Se todos pudéssemos caracterizar essas situações sem a carga moral conservadora do segundo grupo de qualificativos, tudo seria mais fácil (embora de modo nenhum acredito que seria antídoto para dor, perda e sofrimento) e seríamos obrigados a conviver com menos mentiras.
Hoje saiu na Revista da Folha uma reportagem, no nível possível para uma revista dominical de grande circulação, sobre esse assunto. Os termos não foram bem diferenciados por entrevistados e analistas, de modo que, dependendo do leitor, pode gerar uma leitura ambígua.
Foi recorrente, entre os analistas mais educados, diferenciar aquilo que seria “natural” (ou relativo à nossa “natureza” biológica) e aquilo que é “desejável”. Em princípio, estão todos certos, uma vez que a sociedade humana se caracteriza justamente por essa oposição voluntária e arbitrária à natureza. Natureza se opõe a Cultura, da mesma forma que a necessidade se opõe ao arbítrio e é isso que constroi nossa civilização. No entanto, até para se opor à natureza, acredito que a razão deve ser chamada. Acho importante se opor à natureza no que diz respeito a combater a degeneração por envelhecimento, a doença, a depressão, e tantas outras coisas que venho comentando por aqui. Mas negar expressões da mesma que emergem nos comportamentos, eu acho que só atrapalha.
No que diz respeito ao número, frequência e sequência de parceiros sexuais/amorosos na vida dos humanos civilizados, acho que faria bem reconhecer que a monogamia estrita e permanente não tem nada de natural nem, que eu consiga ver, desejável. E pensando bem biologicamente, tendo a acreditar que: 1. nossa espécie não tem indícios de ter tido períodos de estrutura de harém, com um alfa-male dominando a hierarquia sexual; 2. nós, fêmeas sem cio, provavelmente o perdemos pelas vantagens de ter um macho constantemente interessado por perto num tipo de contrato sexual; 3. esse macho tem interesse genético na exclusividade da fêmea pelo período que lhe produz progênie; 4. essa fêmea pode ter interesse em SUA própria exclusividade com o macho escolhido pela raridade e importância biológica de seu único óvulo fencundável no mês (a escolha do macho se torna fundamental, de modo que a promiscuidade pode não ser tão adaptativa para as fêmeas); 5. ao macho, obviamente interessa fecundar o maior número de fêmeas possível, por uma questão de expansão de seu genoma. Tudo isso é pura e volátil especulação, não muito diferente do resto que leio por aí.
Mas as minhas especulações têm uma vantagem para mim: me ajudam a tomar decisões para mim mesma. Eu acho que faz sentido que as fêmeas sejam polígamas sequenciais, enquanto os machos são polígamos sincrônicos com uma fêmea preferencial. Por isso, a estrutura de relacionamento que mais faz sentido para mim, é a de casamentos consecutivos com duração média, e machos relativamente promíscuos. Auto-justificativa? Mais ou menos. Eu tive vários relacionamentos de médio-prazo. Dentro deles, fui monogâmica. O fim da monogamia da minha parte anunciou o fim dos relacionamentos (os quais, infelizmente, muitas vezes se estenderam por meses ou anos antes de serem finalmente terminados): já era a fase promíscua de busca de novos parceiros.
Meus parceiros não foram promíscuos, por motivos complicados e de escolha deles.
Tendo a achar que entender ou acreditar nisso economiza algum sofrimento. Pelo menos, futuros parceiros meus não vão precisar mentir para mim sobre o que, em outro sistema de valores, poderia ser chamado de “escapadelas”, “escorregadas”, “pulações de cerca” ou “putaria”. E nunca terão que temer que eu os “traia” pois isso não faz parte do meu sistema de valores: no dia em que aparece outro homem, é porque aquele relacionamento chegou ao fim. Por outro lado, jamais prometerei amor eterno a alguém, porque também não faz parte do que eu acredito possível.
A não ser que exista algo além da minha razão, além do meu cinismo, além da minha experiência, algo que pertence ao imaginário dos poetas e mentes mais livres que a minha.

Marilia


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