Começo a série “Perguntas e respostas” por uma das que achei mais difíceis, feita por Guilherme Pinto, dia 4 de dezembro de 2013.

Guilherme detalha:

“Eu faço PL a um bom tempo, e, cada vez mais, me sinto atraído e imerso neste esporte. Mas não sei explicar o motivo da minha ou da atração das outras pessoas.

Esse esporte já modificou minha vida de muitas formas. Dessa forma, acho importante realizar esta pergunta”.

A pergunta é muito bem formulada. Guilherme não quer saber por que algumas pessoas praticam powerlifting, mas por que sentem essa atração irresistível por ele. Essa formulação sugere um procedimento para investigação: será que todas as pessoas que praticam powerlifting são irresistivelmente atraídas por ele?

Para esta pergunta eu sei a resposta, o que pode nos ajudar a entender a primeira: a resposta é não. Nem todas as pessoas que praticam powerlifting são irresistivelmente atraídas por ele. E agora temos que definir praticante de powerlifting. Não existe uma definição certa. Vamos adotar uma de bom senso. Praticante é aquele que:

1)      Treine agachamento, supino e levantamento terra de forma autotélica, ou seja, com o objetivo de melhorar seu agachamento, seu supino e seu levantamento terra, e não como um exercício auxiliar para outra modalidade ou como exercício com finalidade não esportiva (condicionamento geral, hipertrofia, etc). Outra maneira de dizer isso é que elas treinam os “levantamentos” e não praticam os exercícios com o mesmo nome.

 

e/ou (atenção ao operador lógico “ou”)

 

2)      Participe de competições de powerlifting

A pessoa que satisfaz o ítem 2 necessariamente satisfaz o ítem 1 (se bem ou mal, não vem ao caso). Mas existem pessoas que satisfazem apenas o ítem 1. Isso pode acontecer porque:

1)      Elas já participaram de competições por um período e, por motivos pessoais variados, não querem ou não podem mais competir (infra-estrutura, demandas de trabalho, lesões ou doenças degenerativas graves que permitem que elas até pratiquem os levantamentos por amor, mas não possam se submeter ao stress competitivo; ou por piração, mesmo)

2)      Elas nunca participaram de competições de powerlifting e estão (ou consideram-se estar) se preparando para sua estréia

Definido “praticante”, vamos escolher um nome para a categoria sobre a qual o Guilherme expressou sua dúvida. Acredito que o melhor nome seria “amante”, que é aquele que ama, que sente atração, ou seja, reage emocionalmente de maneira muito positiva a algo (no caso, powerlifting).

São categorias bem diferentes e não se superpõem. Todo amante é praticante. Nem todo praticante é amante. Isso vale para qualquer arte: há pessoas que até manifestam habilidade para algo, mas, em linguagem poética, não é o que seu coração escolheu. Eu tenho um irmão que tinha muita habilidade para tocar piano. Um dia minha mãe o viu socar o teclado com raiva. Ele nunca mais tocou piano, para desaponto de nossa avó.

Se não é amante, por que então alguém praticaria powerlifting? Os motivos mais importantes são: pressão de alguém significativo ou ganhos secundários.

Já vi mulheres praticarem e até competirem powerlifting por anos porque seus namorados ou maridos eram atletas ou técnicos. Assim que o relacionamento se desfez, elas abandonaram o esporte com alívio. Não era a praia delas – nunca foi. Algumas tiveram títulos e até recordes: é um esporte pequeno, a população praticante feminina é pequena, tudo é possível.

Não nos Estados Unidos, mas aqui já vi praticantes que o fazem porque conseguiram obter ajuda das prefeituras de pequenas cidades do interior. Talvez tanto fizesse tenis de mesa, luta de braço ou powerlifting, mas ficou mais fácil powerlifting. O motivo é a existência do tal do “powerlifting de fundo de quintal”, uma espécie de simulacro do esporte, só que feito com equipamentos fora das especificações oficiais e sem observação de regras de um determinado livro de regras. Baratinho. Se cessa o apoio da prefeitura, o praticante para de praticar.

De novo, isso não é específico do powerlifting e provavelmente não acontece somente no Brasil.

Por fim, tem muita gente que é praticante de qualquer coisa na base da inércia: começou, foi ficando e ficou. Não curte tanto, mas incorporou. É assim com tudo: engenheiro que pratica engenharia, mas não curte tanto. Digamos que é mais comum nas profissões, já que dão sustento, ao contrário dos esportes. Mesmo assim, existe a questão do hábito.

E os amantes?

Aqui temos uma variedade. Não existe nenhum estudo sistemático, mas a convivência com atletas de todos os países, o filme “Power Unlimited” e minha própria experiência me levam a crer que o primeiro amor é conferido pela atmosfera contagiante. Assim como raiva contagia, alegria e euforia também. Um grupo de powerlifters treinando é uma pequena festa. Imagine uma vida cheia de problemas, como toda vida normal é, só que todas as terças e quintas tem uma festa onde todo mundo brinca e sai feliz. Para muita gente, essa é a primeira atração irresistível: alegria. O tempero da vida.

Uma parte das pessoas pega uma outra rota – não excludente da primeira. Depois dos primeiros e desajeitados movimentos, quando o atleta passa pela primeira automatização, sendo capaz de executar os levantamentos sem pensar em cada troca de marcha e embreagem a usar, o sujeito começa a se dar conta de que sob a extrema simplicidade e minimalismo das formas do agachamento, do supino e do terra jaz a mais profunda complexidade. Alguns poucos sacam que é tão profunda que não tem fim.

Como tudo que é praticando com alta dose de técnica e conhecimento, aqui estamos no campo da esotericidade (“esotérico” no sentido de que é interno, faz sentido para dentro, para quem compartilha os mesmos pressupostos).

Para alguns, é nessa complexidade infinita que o minimalismo extremo do powerlifting proporciona, mais do que qualquer outra prática corporal, que está a atração irresistível. Essa atração combina o prazer físico-mental da expressão da força e o fascínio intelectual.

Para um grupo bem menor, a atração irresistível está no potencial de atingir um estado alterado de consciência que costuma se chamado “flow” ou “the zone”. Este estado consiste numa redução radical da percepção sensorial externa e afunilamento do foco, de maneira que a vivência do ato do levantamento se torna quase atemporal. A experiência é tão contundente que não se reduz a prazer, apenas. É algo que redefine o repertório de experiências do indivíduo e até mesmo sua identidade.

Finalmente, temos o inexplicável: há quem, como eu, tocou pela primeira vez uma barra olímpica e soube que era uma relação eterna. Ouvi uma história, que agora não consigo localizar, sobre uma grande bailarina que revolucionou a dança e que, quando criança, foi considerada portadora de deficiência de aprendizado. Um psicólogo a observou e então disse a sua mãe: “ela não tem deficiência nenhuma. Ela é apenas uma bailarina: a linguagem dela é a dança. É assim que ela se expressa”.

Há tempos tenho questionado a fronteira que se demarca entre esporte e arte. Se considerarmos arte toda forma de manifestação de uma percepção subjetiva do mundo, então powerlifting, ou salto com vara, ou arremesso de dardo podem ser artes. Podem não ser. No entanto, se ao tocar a barra e executar um levantamento o indivíduo expresse algo muito profundo de sua subjetividade, isso é arte. O artista tem uma atração irresistível por sua arte, não pode existir sem ela e ela faz parte dele.

É tão irresistível que o artista se entrega totalmente a ela, sem restrições, sem limites. Nenhuma lesão ou condição é capaz de separar o artista de sua arte. Somente a morte termina essa união.

Há quem diga que nem ela.