Nos artigos anteriores:

  1. Expliquei o papel do powerlifting no concerto de identidades fragmentadas e escavação de um lugar social para a pessoa atleta;
  2. Elaborei sobre o papel da existência da, e fomento à alta performance, de modo geral (seja na ciência, na arte ou no esporte), e o desenvolvimento de conhecimento técnico, científico e tecnológico de ampla aplicação social
  3. Expliquei o lugar privilegiado do powerlifting como acervo de um repertório motor pronto para emprego em estratégias de recuperação de padrões motores inatos perdidos pelos efeitos lesivos do ambiente ergonômico da vida social e também como resultado da alienação corporal.

Tudo isso justifica a sua contribuição financeira para o powerlifting, de maneira geral. Se eu fosse você, teria duas perguntas:

  1. Se é tão relevante, por que é que não existem fontes de financiamento públicas e parcerias público-privadas que garantam investimento de instâncias sociais capazes de bancar tais atividades (governo e empresas)?
  2. Por que financiar um campeonato? Campeonatos amadores não deveriam ser auto-sustentáveis a partir da inscrição dos atletas participantes?

São perguntas importantes. Vamos a elas.

Primeiro, a existência de políticas públicas de fomento a qualquer coisa não é produto de uma relevância auto-evidente. Uma das coisas que mais surpreende jovens estudantes das áreas das ciências básicas, que, com toda a sua linda pureza mertoniana[i] acham que é “óbvio” que a ciência tenha que ser apoiada, é que nada é óbvio. Quando apresentamos, aos que têm sorte de ter em seus currículos uma disciplina de história e filosofia de sua ciência, a evidência de que o reconhecimento da relevância social da ciência foi construído a duras penas por atores do campo (outros cientistas) em complexas estratégias políticas, alguns ficam chocados, outros tristes e a maioria fica perplexa.

Você, leitor, não acha que, num país onde havia regiões com mais de 30% de pessoas portadoras de Doença de Chagas, seria óbvio o forte fomento a políticas de prevenção à transmissão? Não era. A vitória sobre a doença de Chagas foi resultado de décadas de luta política dos “chagólogos” – médicos e pesquisadores comprometidos com a erradicação da doença.

A adoção de políticas de prevenção à AIDS? Ao câncer de próstata? Tudo isso é objeto de uma intensa negociação social para estabelecer a “óbvia” relevância.

Ressentidos, os atletas de esportes amadores apontam o dedo para o futebol e queixam-se da “injustiça” revelada pela disparidade de investimento privado (e público!) neste esporte, em detrimento de todos os demais. Não adianta ficar ressentido: a relevância destes outros esportes não foi socialmente negociada e, portanto, no imaginário social, não existe. Se não existe, persuadir tomadores de decisão em órgãos governamentais, quase todos orientados por interesses oriundos da luta pelo poder, é quase impossível.

Em termos bem simples, não temos moeda de troca para persuadir o governo a investir no powerlifting; os projetos sociais que fizemos, viáveis e potencialmente eficientes em inclusão social, sequer são lidos pelos tomadores de decisão e é isso – ponto final.

Quanto às empresas, temos, no Brasil, um sistema emperrado na rede de comunicação e negociação entre o investidor (shareholder), aquilo em que se busca investimento (o evento, o atleta, a equipe, o projeto, ou seja, a “propriedade”), o detentor de direitos e o negociador de patrocínio/parceria/investimento. Nós, “a propriedade”, que somos também os detentores dos direitos, não aprendemos, como grupo, a falar com o investidor. O investidor não está interessado em nossos títulos, em nosso talento, em nossa competência, na beleza de nossa arte, e até mesmo na relevância social de nossos projetos. O investidor precisa escutar de nós que nós entendemos suas demandas, o que temos a oferecer a ele, como podemos resolver seus problemas, agregar valor à sua marca e, de maneira geral, alavancar seu negócio.

A culpa não é de ninguém e é de todo mundo. O formato e termos desse diálogo ainda não foi construído e estabelecido.

O resultado disso é que o investimento privado quase nunca é resultado de prospecção ativa, avaliação de risco e potencial de retorno e valor agregado. Quase sempre é produto de contatos pessoais e acaba aparecendo, para o mundo, como filantropia.

Não existe nada pior para a evolução do patrocínio esportivo do que a mentalidade da filantropia, do “atleta-vítima” ou do “atleta prostituta”.

Esse é o nosso quadro e é essa a explicação para a pergunta que, se você não fez, eventualmente faria.

A segunda pergunta é por que precisamos de dinheiro para um campeonato amador. Supõe-se que campeonatos amadores são auto-sustentáveis. Seriam, desde que toda a infra-estrutura já existisse, que as premiações não representassem o custo alto que representam e que existisse um espírito de trabalho voluntário que garantisse as cerca de 20 pessoas necessárias para o staff de um campeonato. Nada disso está acontecendo.

Nossa entidade paga um preço por ter adotado procedimentos que fazem sentido para o nosso segmento social. Sem fricote e hipocrisia, não é segredo que muito do esporte na America do Sul e Europa Oriental são financiados por dinheiro sujo, da “economia paralela”. Também não é segredo que campeonatos nas cidades do interior do Brasil contam com bom apoio das prefeituras na base das trocas de favores. Finalmente, mesmo no esporte não-olímpico, pelo menos uma federação por modalidade recebe um belo repasse governamental. Nos esportes olímpicos os valores são gigantescos.

Nós não temos nada disso. Um campeonato sul-americano tem custos altos. A vinda de dois árbitros norte-americanos para compor o elenco de três árbitros internacionais foi financiada pela Progenex Brasil. A estadia e alimentação deles é problema nosso.

O equipamento oficial, caro, utilizado em campeonatos, “sumiu” por conta de interesses políticos. Ficamos desfalcados de uma infra-estrutura já prometida e que se tomava como garantida: o parceiro se tornou ex-parceiro no momento crucial da organização do evento. Sim, fomos ingênuos, deixamos todo o pouco dinheiro que arrecadamos se esvair nestas parcerias improdutivas e levamos o prejuízo.

Assim, tivemos que adquirir pelo menos um suporte reversível de agachamento e supino e diversos outros materiais.

O número de atletas do campeonato Sul-americano será reduzido. Somos duros com regras e procedimentos e apenas aqueles que se qualificaram pelos campeonatos seletivos podem participar do campeonato sul-americano. Por essa “dureza com regras”, os atletas do “velho powerlifting” brasileiro não cabem no nosso modelo e nem nós nos interesses deles. Estamos construindo nossa comunidade de praticantes do zero. Não é difícil concluir que o belo modelo cooperativo, que adotamos, vai levar alguns anos para garantir sustentabilidade “folgada” aos eventos.

Finalmente, exceto por uma ou duas pessoas, o resto dos organizadores está aprendendo apanhando, fazendo. Tudo que é feito pela primeira vez perde em eficiência.

Deu para entender?

 

 

 

 

[i] Mertoniana se refere ao sociólogo Robert K. Merton que, entre outras obras, publicou um clássico artigo sobre o “ethos” da ciência que descrevia a natural partilha do saber, o reconhecimento por mérito e vários outros elementos que, hoje sabemos, melhor prescrevem do que descrevem.