Cerca de um ano atrás escrevi um artigo que foi bastante discutido e apoiado, “Making powerlifting more popular: do we want or need it?”. A discussão que o artigo propunha era o processo de popularização de um esporte e o que ele representa em relação às práticas tradicionais anteriores. A conclusão não é complicada: todo o esporte que se “populariza”, como alguns de quadra e lutas, perde quase tudo de sua “marcialidade” ou ethos de sua cultura específica. É o preço a pagar por ter um grande público interessado e atrair, consequentemente, investimento privado e governamental. A pergunta que se fazia era: queremos isso? Nós, atletas? O que temos a ganhar com isso? E a resposta foi: não queremos. A popularização de um esporte necessariamente transforma sua elite em “entertainer” e sua estrutura em indústria de entretenimento. O dinheiro que tal processo atrai beneficia apenas os investidores e um segmento pequeno da elite que se profissionaliza na arte do entretenimento. O patrocínio individual, já escasso, se torna mais concentrado neste pequeno grupo. Os valores caros à comunidade de praticantes, a cultura do esporte e as relações sociais benéficas do mesmo são perdidas.

Alguns esportes se prestam a isso quase que naturalmente: eles são “interessantes” e atrativos ao público pelo que representam. Lutas como o MMA, o crossfit e esportes de força como o strongman são facilmente apreensíveis pelo público espectador. Esportes como a esgrima, o montanhismo, a equitação e os levantamentos de peso jamais serão populares: sua estrutura meritocrática (de recompensa pela performance e desempenho) depende de uma “educação” do olhar inacessível ao grande público. Em outras palavras, são esportes “muito chatos” para quem não está muito familiarizado com eles.

Então, não, não queremos a popularização do powerlifting. Não queremos torná-lo fácil de entender, agregar elementos performáticos para agradar o público ou simplificar suas regras e procedimentos, como tristemente foi feito com alguns belos esportes de quadra.

No entanto, é inegável que o levantamento de peso olímpico, que conseguia ser ainda menos popular do que o powerlifting, ascendeu a uma enorme visibilidade através do movimento Crossfit. Ele foi divulgado e expandido porque o treinamento nas crossfits incorpora seus levantamentos. Critique-se o quanto se quiser os altos volumes de arrancos feitos com pouca técnica, o fato é que hoje o levantamento de peso olímpico é conhecido por um público duas ordens de grandeza maior do que antes dos anos 1990. Aparentemente, o fenômeno crossfit acabou por alavancar o LPO sem prejuízo de suas regras e procedimentos tradicionais. O motivo é simples: os campeonatos de LPO não foram tocados. Permanecem com a mesma estrutura que sempre tiveram.

Ontem, dia 31 de maio, um grupo de nós esteve presente num campeonato de supino numa academia de rede. Foi o “primeiro desafio de supino da Runner Sorocaba”. Representando a ANF, nós fomos até lá aplicar o nosso programa de “campeonatos simplificados não-sancionados”. Todos os atletas sabiam que os resultados do campeonato não têm reconhecimento internacional e que as regras foram simplificadas para tornar o evento possível naquele ambiente: o banco não precisa ser oficial, a exigência de traje (macaquinho) é suspensa e a premiação é apenas através da classificação pelo coeficiente de força relativa (Wilks). O custo de um campeonato como este é baixíssimo ou nenhum. Os participantes se divertem, exercem o desejo competitivo, recebem premiações simbólicas e entram em contato com o esporte, pois as regras de execução são preservadas. A partir dali, quem tem talento ou se apaixona pelo powerlifting pode procurar os campeonatos sancionados e se tornar um atleta de fato.

A realização de pequenos campeonatos sem custo, não-sancionados, expande e divulga o esporte. Ao fazê-lo, também educa a população quanto aos benefícios do powerlifting como ferramenta de resgate de padrões de movimento perdidos. É a tão conhecida situação “ganha-ganha”: não há como perder.

Isso é popularizar o esporte? Não: a ANF deu a supervisão, educou o público, ajudou na “festa”, mas seus eventos sancionados continuam duros, regrados e “chatos”.

Nestes campeonatos não sancionados é possível identificar talentos para o powerlifting. São pessoas que não têm conhecimento sobre o esporte, mas mostram, ali, na brincadeira, que são naturalmente bem dotados (seja por características genéticas, mentais ou ambas) para o mesmo. Isso se chama “identificação de talentos” (talent screening).

Parte do grupo que coordena a ANF, que é uma organização sem fins lucrativos, também pertence a uma equipe de ensino, uma organização privada, que oferece cursos sobre treinamento de força com foco no powerlifting: a MAD Powerlifting. Os treinadores da MAD têm muito orgulho de terem sido responsáveis pelo estímulo inicial para que algumas crossfits implantassem programas de treinamento em powerlifting. Ao longo de um ano, ensinamos powerlifting para mais de uma centena de pessoas. Várias delas se tornaram atletas e outros incorporaram o powerlifting como fundamento do treinamento de seus alunos e atletas.

Isso é a EXPANSÃO do powerlifting. É popularização? Não, não é. A estrutura das competições continua exatamente como era: dura, rigorosa e “chata” para o olhar não educado para suas complexidades.

Anos atrás, eu escrevi um projeto baseado no powerlifting com foco na inclusão social em comunidades muito carentes. O alvo era o que chamei de “juventude vulnerável”. Tratava-se de um programa de seleção de talentos e treinamento de equipes competitivas nestes ambientes. O programa jamais foi aplicado. Ele depende da vontade política de administradores públicos. É caro e complexo. Isso é popularização do powerlifting? Não, também não. É um programa social que visa inclusão social usando o powerlifting como ferramenta. Porém, quaisquer talentos que porventura sejam selecionados através do mesmo cairão no sistema duro, rigoroso e “chato” do powerlifting de alto rendimento, que de popular não tem e não terá nada.

Há alguns anos, venho insistindo (e cada vez menos sozinha, pois um grupo cada vez maior verificou a procedência dos argumentos) que há uma relação entre capacidades cognitivas, desenvolvidas e amplificadas pela educação formal, e desempenho esportivo. É o que tenho chamado de “novo esporte”, diferente daquele que imperou nos anos de guerra fria e guerra olímpica onde crianças eram selecionadas sem o menor respeito por suas vontades individuais para participar do jogo de poder e destruição das grandes potências. Os atletas eram peões desta guerra. Serem inteligentes, intelectualmente auto-suficientes e donos de suas vontades conflitava com o sistema. A guerra fria acabou e com ela abriu-se um espaço para o “novo atleta”. Este novo atleta é um empresário de si mesmo. Ficou evidente que aqueles com maiores habilidades cognitivas levam vantagem. Nos países desenvolvidos, esta vantagem sempre foi evidente no powerlifting, um esporte completamente amador que depende de investimento pessoal.

O atleta que busca o esporte como escada para ascensão social ou como ferramenta de auto-afirmação em um ambiente onde é essencialmente desvalorizado como pessoa ainda existe, mas infelizmente é um risco para qualquer esporte: é este atleta, vitimado por exclusão e rejeição, que alimenta o pior cancro dos esportes, que são os dirigentes oportunistas. São atletas capazes de sacrificar qualquer coisa, começando pela ética, para ter um lugar ao sol num sistema que vai se tornando mais e mais corrupto.

Quando eu criei a ANF, tinha uma noção vaga de que o sucesso de seu projeto dependia de criar, do zero, um novo plantel de atletas que desviasse fortemente deste padrão. Necessitávamos de atletas de alto rendimento suficientemente auto-suficientes e capazes de suprir suas necessidades de construção de identidade para que não escorregassem na ética, alimentando as quadrilhas. Conseguimos isso. Hoje temos uma elite de atletas de alto nível educacional e satisfação profissional suficiente para que tenham uma relação saudável com o powerlifting. Temos uma franja substancial de atletas cuja performance cresce a cada ano e ascende rapidamente em direção às faixas de índices de elite.

A verdade é que, por definição, o esporte de alto rendimento é elitista. Assim como a ciência e a arte. Os três – esporte, ciência e arte – têm uma função social independente da performance de sua elite. A elite, nestes três elementos que constituem o tripé cultural da civilização, continuará focada em sua empreitada meritocrática. Mas isso nunca impediu que seus melhores membros compartilhassem benefícios com o grande público. O principal deles é a educação. A produção de artigos e livros de “popularização” científica, artística e do esporte é uma ação tradicional dos grandes cientistas, artistas e atletas. Isso não vai mudar, pois depende da ética e consciência de cada um.

Chegamos então no último item: educação. O powerlifting desempenhará um papel imensamente relevante para a sociedade se, devidamente divulgado, produzir educação para o movimento, estratégias de resgate de padrões motores perdidos pela deseducação social dos mesmos, bem como alternativas para o lazer e condicionamento.

É isso que temos feito. Por um lado, educamos a população. Por outro, elevamos o nível da alta performance no esporte que é nossa paixão e arte.

E é assim que tem que ser.