“O inferno são os outros”, disse Sartre (L’enfer, c’est les autres).

De um ponto de vista mais antropológico, o inferno é o outro constituído como tal, prenhe daquela alteridade que nos incomoda, que rejeitamos e que possivelmente odiamos.

Hoje li o relato publicado do caso que já conhecia. Minha amiga, ciclista e ativista ambiental, pela via do ciclismo, sofreu uma agressão brutal nas ruas. Leia o post  e as reflexões dela sobre os segundos em que sua vida poderia ter sido interrompida por um capricho de um “outro”. O outro que se irritou (ou se enfureceu?) sabe-se lá com que fantasmas internos dele, além da alegação boba de que “ciclistas não devem andar na faixa dos ônibus”.

Resolvi compartilhar a minha experiência com um ciclista, um rapaz cuja idade não pude estimar sob a chuva torrencial, umas semanas atrás.

No meio do congestionamento, senti e ouvi uma pequena batida no meu lado direito. Vi um ciclista se desequilibrando uns metros depois do meu carro. Consegui ver a expressão dele: um misto de muita dor e medo. Eu abri a janela e ele se aproximou, abaixou e pegou uma peça de plástico besta que caiu do meu espelho direito. O medo dele, claro nos olhos e contração dos músculos da face, aumentou quando eu fiz isso. Ele me entregou a pecinha e começou a se desculpar, defensivo e sério, dizendo que não tinha danificado nada.

Eu o interrompi e perguntei:

– como você está? Como está sua mão? Quer que eu leve você ao hospital? Podemos colocar a bike no meu porta-malas

Ele me olhou meio perplexo, disse que estava bem e agradecia. Eu insisti. Insisti porque trabalho com saúde e corpo, e se tem uma coisa da qual eu entendo é a fragilidade das estruturas ósseas, ligamentares e tendinosas.

Ele disse que não, que já estava bem, subiu na bike, sem capacete e se mandou.

Fiquei olhando o carinha sob a chuva pesada num começo de noite de trânsito infernal paulistano. Pensei na falta de capacete, no asfalto escorregadio, na dificuldade de visão naquela chuva, e, agora, nos milhões de espelhos de carro que se transformaram, na minha cabeça, em ganchos e armadilhas para frágeis criaturas sobre rodas mais frágeis ainda. E se ele enganchasse em mais um e batesse a cabeça no carro ao lado?

O rapaz foi embora, provavelmente com alguns ossos da mão quebrados, talvez com um ligamento rompido, sem entender que eu não era o “outro”.

Só que os demais milhões eram.

  • odir

    É. Infelizmente, com ou sem capacete, com ou sem chuva, nós ciclistas nos acostumamos a ser tratados como cães sarnentos de modo que esse rapaz tenha evitado o afago da mão que se estende por sempre temer o tapa que habitualmente recebe. Eu já tomei pedradas, socos, gritos na orelha, apenas por estar numa bike, e a Vevê já me socorreu num atropelamento em que o motorista me xingou enquanto eu me arrastava no chão. Não sei se minha atitude seria diferente da desse rapaz, pois quando o motorista desce do carro, não raro vem um chute.

  • riccardo

    Muito bonito esse post… Marília, você está virando uma poetisa de primeira!