Terminei o artigo sobre decisão dizendo que tomar consciência de que a decisão, ainda que não seu processo, é irredutivelmente sua é um momento empoderador. Saber que a decisão é sua não implica que o exercício deste poder será sempre feito de maneira a maximizar a saúde, o bem estar e a harmonia.

A vida não é assim. Qualquer vida que mereça o selo de densidade e intensidade contém uma dose variável de riscos. Entre o extremo de aversão a risco e o extremo de bancar o risco há um gradiente. Cada um se coloca neste gradiente onde pode – não necessariamente onde quer. Esse lugar é determinado por uma combinação entre elementos intríncecos (personalidade, história de vida, humor) e extríncecos (fases mais ou menos hospitaleiras a risco).

Há aqueles que tocam um foda-se e assumem riscos que fascinam e assustam a imensa maioria.

Isso vale para qualquer aspecto do comportamento humano. Não seria diferente no comportamento alimentar.

Neste tópico, por diversos motivos, incluo o comportamento adictivo.

Todo mundo faz avaliação e análise de risco. Ela é um campo de investigação acadêmica e de saber aplicado, com modelagem matemática sofisticada. No entanto todos somos dotados de uma das ferramentas mais eficientes para a avaliação e análise de risco: o medo.

O risco é o produto da probabilidade da consequência negativa de algo ocorrer e da perda esperada no caso que ocorra.

Por exemplo: a reação de moradores de uma região onde será construída uma usina nuclear reagem muito mais fortemente a esta decisão da esfera pública do que em entrar em seu veículo para dirigir até a cidade vizinha, embora a perda esperada possa ser semelhante (morte) e a probabilidade do segundo ser muitíssimo maior do que do primeiro caso. No entanto, a perda esperada no caso de um acidente nuclear é muito mais dramática e definitiva. Ela é um risco catastrófico, ao qual as pessoas tendem a reagir com muita prontidão.

As consequências negativas de se fumar um cigarro, um maço de cigarro, “x” cigarros por dia durante “x” anos podem ser determinadas e sua probabilidade medida. O risco de uma consequência fatal é muitíssimo maior do que aquele associado à usina nuclear, mas a maioria dos fumantes nem prestaria atenção a uma comparação como esta.

A ingestão sistemática de álcool, açúcar de alto índice glicêmico, alimentos densos em caloria e pobres em vários nutrientes resultando em superávit calórico persistente têm consequências negativas de probabilidade conhecida, de magnitude conhecida e podem ser estimadas.

Uma parte das pessoas com este comportamento não tem consciência de nada disso: são as vítimas da sobre-alimentação involuntária, em geral pobres. Existe uma relação inversa entre a densidade energética do alimento e o custo energético do mesmo. Em outras palavras, quanto mais açúcar e gordura, mais barato será o alimento.

Outra parte das pessoas têm as ferramentas intelectuais para conhecer este risco, têm recursos financeiros para não correr o risco e mesmo assim corre o risco sem consciência. São vítimas do comportamento de negação e ilusão.

Finalmente, há o grupo que tem as ferramentas intelectuais para conhecer o risco, conhece, pode evitá-lo e conscientemenete não evita. Este é o grupo que banca o risco.

Entre eles você encontrará os que alegarão que:

– o prazer gastronômico compensa as perdas associadas ao risco;

– considerados os fatores genéticos que determinam alta propensão à obesidade e o sofrimento associado a dietas muito restritivas, optam por não se submeter a elas;

– é a única forma eficaz de administrar seu sofrimento psíquico e não estão dispostas a subsituí-la por outra;

– não se importam nem com a erosão inevitável de sua qualidade de vida, com a incidência de doenças crônicas e nem tampouco com sua forma.

Todas estas pessoas existem, embora não sejam a maioria dos obesos. Todas estas pessoas também incorrerão em outro risco: o da rejeição social caso o risco de ganho de gordura ao limite da obesidade se concretize.

É inevitável. Há um estigma sobre o indivíduo com sobrepeso acentuado que associa sua forma com inúmeros qualificativos negativos: fraqueza, preguiça, hedonismo, glutonice, egoismo e até mesmo mau caratismo.

Além disso, existe o risco permanente das interações sociais negativas em locais públicos, em função do espaço ocupado, e do desenvolvimento de relações de dependência com cuidadores.

A avaliação e análise do risco são uma ferramenta para tomada de decisão, seja na esfera individual, seja na pública. Não existe outra maneira sensata de se lidar com o risco que não conhecê-lo.

É função do Estado, através de seus sistemas de medicina preventiva, dar a conhecer o risco real de cada comportamento aos indivíduos.

A política em relação a comida não precisa ser diferente do que aquela adotada e já demonstrada eficiente com relação a drogas, álcool e outros comportamentos de risco. Todos sabemos que a guerra às drogas já foi perdida: a repressão não funciona. Apenas fortalece e estrutura o mercado negro e toda a economia paralela associada a ele.

Enquanto a sociedade não conseguir abrir mão do conforto proporcionado pelo moralismo, que economiza reflexão crítica, será impossível entender os comportamentos de risco: sim, é verdade que o comportamento de risco é auto-destrutivo; sim, existe correlação entre ele e episódios traumáticos na vida da pessoa; sim, a pressão do grupo induz comportamento de risco. O que ninguém quer encarar é que o comportamento de risco quase sempre está associado a prazer e recompensa imediata.

As pessoas usam heroína porque é extremamente prazeroso. Para os que reagem assim, voar de asa delta é não somente uma arte como uma fonte de prazer. Sexo é mais gostoso sem camisinha. Boas bebidas alcoólicas são saborosas e a sensação de euforia e relaxamento que provocam dá prazer. Comer um quindim, fios de ovos, mousse de chocolate, pizza ou uma macarronada com frutos do mar é muito bom.

Existe uma equação difícil de resolver em que entram o prazer proporcionado pelo comportamento de risco, o risco e o peso da consequência negativa na vida da pessoa. A capacidade ou habilidade em enxergar um problema disposto em toda a sua extensão temporal não é muito comum. Requer treinamento e, segundo alguns estudiosos, também fatores genéticos.

E a anoréxica? E o masoquista? E o submisso numa relação de BDSM (bondage, discipline, sadism and masochism)? Sim, existe recompensa satisfatória. Não é fácil compreender, mas o fato é que não há nenhum comportamento voluntário onde não haja recompensa, por mais intrincado que seja seu mecanismo.

Assim, em relação ao comportamento de risco, ao contrário do risco ambiental ou social, podemos dizer que ele é o produto da probabilidade da consequência negativa e da perda esperada caso ocorra, ponderado pela satisfação obtida a despeito da perda segundo uma magnitude desconhecida.

Não é simples. Você e eu fazemos isso o tempo todo, com tudo.

O profissional da área da saúde que lida com comportamento alimentar deve ter isso em mente. Sem isso, ele corre o risco de não encontrar o canal de comunicação que possa fornecer ao portador do comportamento de risco uma ferramenta a mais para tomar uma decisão mais favorável.