Entrei na Wikipédia para saber o que é “mansplaining”. Acho que depois que me cassaram a carteirinha de feminista eu fiquei meio por fora. Por que eu perdi a carteirinha? Uma das coisas que levou a isso foi minha defesa de formas conscientes de comportamento alimentar e minha oposição ao perigoso e mal-embasado conceito de que é saudável ser gordo. Sectarismo e cegueira ideológica têm limites: eu sou uma profissional da área da saúde e sequer tenho o direito de me calar diante de um absurdo desses. Eu, a autora da série “o açougue” e do conceito de formolatria virei “gordofóbica”. Só rindo.

Teve outras ocorrências, chatas, uma envolvendo a defesa, por parte de uma militante feminista negra, da repressão a uma festividade de amigos meus sobre herança viking, que eu compartilho. Eu defendo igualdade e me oponho a todas as formas de opressão de raça, mas não defendo sua inversão.

Falando em inversão, então, esclareço aqui, no meu mural, no meu sagrado espaço de expressão, por que eu tenho acompanhado cautelosamente a campanha “eu não mereço ser estuprada”, embora emprestando meu apoio ao conceito, obviamente. Primeiro, está todo mundo perdido num falso dilema. Sim, é verdade que a pesquisa do IPEA teve sérios problemas metodológicos. Mas – sim, também – é verdade que uma parcela enorme da população é machista e de certa forma justifica as “abordagens inadequadas” (para dar precisão linguística à coisa) de homens a mulheres vestidas de maneira socialmente considerada inadequada. As duas coisas são verdade e uma não implica a outra. Minha paciência para quem não consegue compreender isso já não é mais muito grande.

A hostilidade para com os homens que tentam se aproximar da questão é assustadora. Os grupos do movimento foram, sim, atacados por hordas de adolescente estúpidos, ignorantes, certamente machistas e merecedores de punição. No entanto, muitos homens que tentam dialogar são tratados de maneira desnecessariamente hostil.

Agora tomei conhecimento deste termo: “mansplaining”. Significa a atitude condescendente de homens ao tratar mulheres como merecedoras de explicações didáticas para o mundo e a vida, detida supostamente por eles. Ora, esse paternalismo ou condescendência ideológica é sempre reprovável. Mas criar um termo para a forma específica de sua manifestação quando se trata de um homem em relação a uma mulher é no mínimo questionável. Esse recurso retórico existe entre quaisquer dois segmentos onde um deles carregue símbolos de superioridade cognitiva e quando um indivíduo do grupo dominante brande tais símbolos para afirmar sua suposta superioridade. Se for por essa linha, teremos uma miríade de XXXplaining.

Eu trabalho com homens – só com homens. Meus parceiros de trabalho são homens, 90% dos meus alunos são homens, 90% dos meus clientes são homens e eu sou atleta de um esporte em que pelo menos 70% dos praticantes é homem. Entre eles, a distribuição de atitudes é igualzinha àquela encontrada no resto da sociedade: existem os machistas caricaturais, existem os violentos, existe uma maioria que carrega aquele “machismo inconsciente”, meio default, impresso na linguagem, e existe sempre uma minoria (válido para homens e mulheres) de homens conscientes e ativamente opostos a todas as formas de opressão.

A linguagem é cheia de viés ideológico. A língua é uma coisa viva, em permanente construção e produto da ação construtiva de seus usuários-construtores-atores. Achar pelo em ovo e encrencar com cada frase de um discurso sem buscar antes a intencionalidade é meio que não querer nada de ecumênico. Para mim expressa a vontade de impor sua igrejinha e colocar todo o resto dos segmentos de quatro.

Uma dessas moças provocou um pequeno escândalo com a foto de um moço em cujas costas estava escrito: “ser feminista não me torna menos homem”. Pronto: pecado capital. Onde está o pecado? A-há, aposto que você também demorou para perceber. É que ao escrever “menos homem” o pobre e bem intencionado moço cometeu o pecado “machista” de quantificar virilidade.

Se isso não é procurar pelo em ovo, não é ignorar o viés da linguagem e suas expressões inocentes, não é ignorar o fato de que meninos querem, sim, ser “mais machos” e isso não necessariamente é uma coisa ruim, então não sei.

Depois dessa, fico longe.