João me mandou a entrevista do Guga sobre suas lesões, onde declara nem conseguir andar direito.

Minha opinião é que esse é mais um dos textos sobre o “preço do pódio”. Uns anos atrás foi publicado um artigo muito mais dramático sobre o powerlifting, cujo autor era um bom jornalista. Todos os nomes foram trocados. Começa com a história de um ex-atleta que só consegue levantar da cama tomando Vicodin.

Neste exato momento, escrevo com duas lesões de moderadas a sérias: duas distensões nível 3 no bíceps e antebraço e uma no vasto medial. Perna direita e braço esquerdo relativamente comprometidos. Parei de treinar? Não: nem com a discite eu parei. Eu diria que eu compenso um comportamento de “risk taker” extremo na performance, com uma determinação e cuidado igualmente extremos na recuperação.

O que eu quero dizer é que a imprensa foca no atleta de alto rendimento que dramaticamente se estourou nas pistas, nas quadras e nos tablados, ignorando a vasta maioria que sai numa boa e até continua exercendo o esporte na categoria master.

Isso, pra mim, serve a dois propósitos: o primeiro é vender jornal, site, etc. Todo mundo curte um drama – drama vende. Os motivos para isso fogem ao escopo deste texto. O segundo é que ressona com o discurso da moderação: “é bom viver com moderação”. Afinal, veja o preço de quem excede, de quem “EXCEL”.

Mentira. A vida tem o valor do legado que se deixa. Enquanto isso não for entendido, haverá sempre preconceito contra os “grandes projetos”, sejam eles esportivos, científicos ou artísticos. Sempre haverá mais e mais reportagem sobre as famílias dilaceradas pela obsessão do gênio (esportivo, científico e artístico).

Mas a família não foi dilacerada por ele! Foi dilacerada por um modelo de relação conjugal assassino, que destrói identidades, que promove a “bom” um horror que é a vida simbiótica e que pune quem persegue um sonho.

Isso é o que eu penso dessa entrevista e de outras matérias cujo foco é o “preço de um sonho”. O Guga é uma vítima de uma condição rara – a maioria dos tenistas não tem artrose de quadril. E se tivesse, ainda assim o sonho vale qualquer preço.

Eu não tenho uma única parte do meu corpo não lesionada, consertada, cheia de cicatrizes. E espero morrer em cima do tablado fazendo um levantamento terra porque é o que dá sentido para a minha vida.

Se a vida só valeu por esse projeto, por que cargas d´água eu sairia de dentro dele em nome de uma coisa tão abstrata quanto longevidade, que é o prolongamento temporal apenas biológico de uma vida, sem nenhuma garantia quanto a sentido? De que vale um corpo com sangue bombeado sem um sentido que o anime?

Não é assustador pensar que a imensa maioria da população vive nessa condição? Walking Dead seria mesmo, só ficção?

A pensar.