Para uma meritocrata radical como eu, que defende a rígida aplicação de critérios equânimes de julgamento tanto no esporte, como na ciência, como na arte, esse título pode parecer contraditório. “Com seus amigos”? Como assim? Por que motivo? Para facilitar a discussão, vou dividir a resposta em itens:

  1. Uma das piores coisas que existe é ter que fazer algo em que se é bom junto com gente que a gente reprova, seja por motivos morais, de índole, de comportamento, de ética ou simplesmente porque nosso santo não bate com o do outro. Qualquer um já passou ou sabe de um caso de alguém que mudou de emprego sem um aumento significativo de salário porque o “astral” era melhor. Isso ocorre mais frequentemente com as profissões mais qualificadas, onde isso é uma opção. O fato é que fazemos algo bem feito quando nos sentimos bem e cercados por semelhantes. “Semelhantes”, na cultura humana, significa muitas coisas diferentes. No entanto, o mais importante é que sentimos essas muitas coisas como uma sensação de conforto e confiança. O oposto é estarmos num ambiente tenso, onde, no fundo, nos sentimos em perigo e hostilizados.
  2. Powerlifting é um esporte não-olímpico, não-profissional e não-popular. A imensa maioria dos bons praticantes quer que continue assim. Para se tornar popular, como já argumentei tantas vezes, seria necessário mudar coisas que não queremos mudar. Dessa forma, nenhum de nós ganha dinheiro com o esporte. Nem mesmo as grandes estrelas, que são estrelas somente para a microscópica comunidade internacional do esporte. No espírito do item anterior, às vezes somos compelidos a aceitar trabalhar ou fazer algo num ambiente que nos é desagradável pela grana. Afinal, todos pagamos contas. Mas se não existe dinheiro envolvido, se o patrocínio, na melhor das hipóteses, minimiza o prejuízo, qual é o sentido de se subir num tablado hostil?
  3. Embora levemos em consideração os recordes históricos por razões heurísticas (é uma ferramenta para a compreensão do fenômeno, mas não necessariamente expressa o fenômeno), eles não expressam muita coisa em termos de comparabilidade. Um agachamento até a paralela não pode ser comparado com um agachamento profundo, uma vez que a carga passível de se vencer na primeira amplitude, pelo mesmo levantador, no mesmo dia, é bem maior. No entanto estão lá, lado a lado com agachamentos profundos. Isso importa? Não muito, para quem entende a matemática da coisa. Para quem busca ser estrela numa seita secreta, aí importa e aí vale buscar as condições mais favoráveis para fazer os tais números, seja em organizações “flexíveis” quanto a altura do agachamento, quanto à parada no peito no supino ou mesmo utilizando anilhas não-calibradas, que podem ser até 10% mais leves do que as certificadas.
  4. Isso vale também para a reputação da organização. Há federações que são conhecidas por seus julgamentos rigorosos e procedimentos éticos e outras não. Mas será que isso importa para além da escolha individual? Não, não importa. Importa só para o indivíduo e sua consciência.

Dadas todas estas considerações, o melhor é escolher um tablado onde você se sinta bem e em casa. Onde você se sinta entre iguais e amigos. Vale a recíproca: não imponha sua presença onde você não é bem vindo. Isso é cruel e errado. Você está atrapalhando a performance de pessoas que lá estão unidas pelo sentido de irmandade. Você não ganha absolutamente nada com isso exceto a certeza de que prejudicou várias pessoas.

O resumo da ópera continua sendo “viva e deixe viver”. Vá com os seus e deixe os que são diferentes curtirem sua arte entre eles.