{"id":4898,"date":"2012-11-19T18:48:22","date_gmt":"2012-11-19T18:48:22","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/the-road-to-the-gold-parte-1-finalmente-para-brasileiros\/"},"modified":"2012-11-19T18:48:22","modified_gmt":"2012-11-19T18:48:22","slug":"the-road-to-the-gold-parte-1-finalmente-para-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/the-road-to-the-gold-parte-1-finalmente-para-brasileiros\/","title":{"rendered":"The Road to the Gold \u2013 parte 1 (finalmente) \u2013 para brasileiros"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18521.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-958\" title=\"IMG_1852\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18521-150x150.jpg\" width=\"150\" height=\"150\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p><em><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<\/div>\n<p>Todo relato passado \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Todo fato passado \u00e9 fruto de uma escava\u00e7\u00e3o seletiva. O passado \u00e9 um recurso heur\u00edstico: ele n\u00e3o \u00e9 um lugar que est\u00e1 l\u00e1 para visitas a viv\u00eancias.<\/p>\n<p>O passado est\u00e1 em movimento.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria desta aventura, contada hoje, n\u00e3o \u00e9 a mesma se relatada ao longo do caminho. Ao longo do caminho \u00e9 imposs\u00edvel ter uma no\u00e7\u00e3o precisa da import\u00e2ncia de qualquer coisa. Ocorr\u00eancias que parecem dram\u00e1ticas perdem import\u00e2ncia, enquanto um giro sutil de rota pode mudar o nosso destino.<\/p>\n<p>Estou em DC e Diego em Miami. Nossa aventura pode ser contata a partir de diferentes pontos de partida. Se contada a partir do momento da minha decis\u00e3o quanto a Las Vegas, envolveria outros sonhos, outras perspectivas quanto ao esporte \u2013 outro powerlifting, um que nem existe mais no meu imagin\u00e1rio. Se assim \u00e9 para mim, imaginem para o Diego, que entrava em contato naquele momento com a id\u00e9ia do powerlifting competitivo.<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Apoio e patroc\u00ednio: nunca contar com o ovo na cloaca da galinha<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Na minha reconstru\u00e7\u00e3o seletiva, eu parto do momento em que n\u00f3s dois decidimos ir juntos. Eu tinha um patroc\u00ednio\/parceria garantidos cobrindo tudo: tratava-se de completar a verba da equipe. Ao longo da busca, promessas de v\u00e1rios lados se acumularam. Num determinado momento, achamos at\u00e9 mesmo que realizar\u00edamos um sonho muito maior, de fazer um document\u00e1rio, tamanha a resposta de potenciais investidores.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o n\u00famero um: empres\u00e1rio brasileiro com credibilidade se conta nos dedos. No nosso caso, nos dedos de uma m\u00e3o. Um a um, os parceiros foram dando para tr\u00e1s, desaparecendo ou deslavadamente sendo inadimplentes, descumprindo contrapartidas em permutas acordadas. Lembro do dia, n\u00e3o da data, em que dissemos: \u201cfoda-se, vamos assim mesmo\u201d. Acho que foi nesse dia ou pouco depois que Adriano Faccio, da Fast Nutrition, me escreveu se propondo a cobrir a minha participa\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o pedi: ele se adiantou. A Fast j\u00e1 tinha cumprido a parte dela, que foi me manter bem suplementada o tempo todo.<\/p>\n<p>Li\u00e7\u00e3o n\u00famero dois: para cada 10 ou 100 inadimplentes e oportunistas em graus diversos , haver\u00e1 um de confiabilidade absoluta que nos surpreender\u00e1. A Fast \u00e9 uma empresa pequena. Em verdade, perto das mega corpora\u00e7\u00f5es da \u00e1rea, min\u00fascula. Eu vi a Fast nascer. Enquanto o apoio integral a um atleta de n\u00edvel internacional \u00e9 bico para uma dessas mega corpora\u00e7\u00f5es, \u00e9 uma decis\u00e3o dif\u00edcil para uma empresa que est\u00e1 crescendo num meio bastante complicado. Engra\u00e7ado que tenha sido justamente com uma pequena empresa em crescimento que eu tenha contado sempre. Eu gostaria de acreditar na justi\u00e7a, que a \u00e9tica empresarial traz vantagens e m\u00e9dio e longo prazo e que a qualidade do produto e servi\u00e7o rendem vantagem competitiva no Brasil. Queria muito. Porque queria muito que a Fast crescesse e desse um pau nas concorrentes.<\/p>\n<p>Tivemos o apoio de sempre da Jorge Reis Manipula\u00e7\u00e3oFarmac\u00eautica, de nossos m\u00e9dicos, Paulo Muzy e Rafael Knack, da academia Esporte Concentra\u00e7\u00e3o e da Crossfit Brasil. Fora isso, tivemos o apoio real e presen\u00e7a permanente de nossos amigos e fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Eu vou pular toda a parte do \u201cdesapoio\u201d, do massacre de Veran\u00f3polis, de ter ido ao encontro da delinqu\u00eancia com uma distens\u00e3o, voltado com dois tend\u00f5es rompidos e uma performance arruinada, pular para sempre os horrores dos joguinhos do Fundo de Quintal, infelizmente ainda imprevis\u00edveis para uma ing\u00eanua intelectual como eu. Isso tudo eu comento segundo a minha reconstru\u00e7\u00e3o, depois, sob o t\u00edtulo de \u201cO que aconteceu l\u00e1? Aconteceu algo chamado justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Vou direto para a parte em que tanto Diego como eu est\u00e1vamos com nossos n\u00fameros em ordem. Os \u00faltimos acertos foram feitos e chegou a \u00faltima semana de pr\u00e9-contest. De fazer nada ou quase nada e deixar a casa em ordem para sair.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><iframe src=\"http:\/\/www.youtube.com\/embed\/CdGcDh6Tcfs?list=UUno7gH1j9lJ91w7iQGGA78w&amp;hl=pt_BR\" height=\"315\" width=\"560\" allowfullscreen=\"\" frameborder=\"0\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Polimento (tapering)<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>O polimento, ou tapering, no powerlifting, \u00e9 diferente de outros esportes. Por que o est\u00edmulo neural \u00e9 extremo e o tempo de supercompensa\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o t\u00e3o lentos, ou voc\u00ea est\u00e1 pronto, ou n\u00e3o est\u00e1 um m\u00eas antes do campeonato. A semana anterior \u00e9 de descanso e recupera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para quem sai do pa\u00eds, a semana anterior \u00e9 a de fazer arranjos. No nosso caso, passar\u00edamos um bom tempo fora do pa\u00eds: depois da competi\u00e7\u00e3o, os planos inclu\u00edam uma visita a Columbus, Ohio e depois a nossos parentes que vivem aqui.<\/p>\n<p>Eu acho que tanto para mim quanto para o Diego, a \u00faltima semana foi de despedida de um mundo que deixamos para sempre para tr\u00e1s. De um jeito ou de outro, todo mundo sabe quando vai de encontro a algo que vai transformar seu destino.<\/p>\n<p>Cena na mem\u00f3ria: Andr\u00e9, Diego e eu fazendo arrancos e arremessos na powerhouse na sexta-feira, dois dias antes do meu embarque, tr\u00eas antes do embarque do Diego. Do nosso c\u00edrculo interno, ele foi a \u00faltima pessoa a nos ver e \u00e9 a primeira que vou re-ver ao chegar. O Andr\u00e9 \u00e9 o elo de um mundo em transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>A viagem e cutting weight<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Engra\u00e7ado que v\u00e1rios amigos acharam tranq\u00fcilo que a gente cortasse peso na viagem (cortar peso \u00e9 a desidrata\u00e7\u00e3o que \u00e9 pr\u00e1tica comum em v\u00e1rios esportes de luta e for\u00e7a, organizados por categoria de peso corporal). Isso \u00e9 porque essas pessoas n\u00e3o lembram, nesse momento do conselho, do tempo que levam as filas de entrar e sair do avi\u00e3o, de imigra\u00e7\u00e3o, de alf\u00e2ndega, de seguran\u00e7a, das imensas extens\u00f5es que t\u00eam que ser percorridas em geral correndo entre um terminal e outro para n\u00e3o se perder a conex\u00e3o nos aeroportos internacionais e de outras coisas que impedem o acesso imediato \u00e0 privada para um xixi de emerg\u00eancia. Falando s\u00e9rio: NEM PENSAR cortar peso em viagem internacional. Acho bem poss\u00edvel alguma les\u00e3o \u00e0 bexiga, como eu j\u00e1 tive tendo que segurar xixi.<\/p>\n<p>Cortar peso envolve ingerir enormes quantidades de \u00e1gua e interromper a ingest\u00e3o para que a elimina\u00e7\u00e3o \u201csupercompense\u201d o ganho. Corta-se muito peso assim. Eu cortei algo como 1,5kg apenas, mas o Diego conseguiu cortar bastante. Fizemos isso no hotel, j\u00e1 instalados e em condi\u00e7\u00f5es de basicamente morar dentro do banheiro.<\/p>\n<p>Por que fazemos isso? V\u00e1rios motivos: ou n\u00e3o estamos no peso ou para simplesmente melhorar nosso \u00edndice de for\u00e7a relativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Chegando l\u00e1: o que \u00e9 um campeonato mundial de grande porte<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Um campeonato de grande porte \u00e9 bem diferente dos familiares encontros de amigos com os quais estamos acostumados. N\u00e3o sei o qu\u00e3o bom e ruim \u00e9 isso \u2013 assunto para outro post. O fato \u00e9 que assim \u00e9. S\u00e3o centenas de atletas de dezenas de pa\u00edses. No nosso caso, eram mais de 700 atletas de cerca de 30 pa\u00edses.<\/p>\n<p>O momento mais \u201cfamiliar\u201d para mim foi a chegada, quando desci e fui encontrar os dirigentes do WPC. Depois disso, era um desfile de caras desconhecidas e idiomas incompreens\u00edveis. Eu acho que mais da metade dos atletas era da Europa Oriental \u2013 n\u00e3o sei, n\u00e3o verifiquei os n\u00fameros.<\/p>\n<p>A \u00e1rea de aquecimento tem meia d\u00fazia de cada equipamento (monolift, banco de supino, tablado e peso). O campeonato foi realizado em dois tablados simultaneamente, o que foi criticado por alguns e elogiado por outros. Sim, ocorre atraso, o que enlouquece os organizadores e aperta o andamento geral, pois tudo tem que ser controlado. Afinal, s\u00e3o seis dias de competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-959\" title=\"IMG_1838\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1838-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os organizadores precisam ser diplom\u00e1ticos e compor um quadro de \u00e1rbitros com diversidade nacional para cada round. Afinal, \u00e9 o t\u00edtulo mundial em jogo. A disponibilidade de \u00e1rbitros \u00e9 sempre uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Para alguns atletas, o ambiente \u00e9 intimidador. Eles andam grudados em suas equipes e fica dif\u00edcil interagir. Para outros, como foi para n\u00f3s, \u00e9 um parque de divers\u00e3o. No fundo, tudo depende da capacidade de cada um de administrar a rela\u00e7\u00e3o com um \u201coutro\u201d. Outras nacionalidades s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es de alteridade que muita gente nunca experimentou. N\u00e3o esquecer, no entanto, que outros marcadores culturais podem ser mais significativos do que nacionalidade, tais como classe e n\u00edvel educacional. Um russo monoglota \u00e9 t\u00e3o monoglota e isolado quanto um brasileiro monoglota. Um checo poliglota \u00e9 t\u00e3o h\u00e1bil e entrosado quanto um colombiano poliglota. Sim, refiro-me respectivamente a Dan Dvorak e Saul Salazar, duas figuras interessant\u00edssimas do powerlifting mundial.<\/p>\n<p>Talvez uma das coisas mais enriquecedoras de um campeonato de grande porte seja precisamente a chance de ter esse tipo de intera\u00e7\u00e3o e perspectiva multi-cultural. N\u00e3o conseguimos conversar sobre protocolos de treino das diferentes equipes: por incr\u00edvel que pare\u00e7a, n\u00e3o houve tempo. Mas nossa observa\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos de cada grupo n\u00e3o tem pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 \u00f3bvio que premia\u00e7\u00e3o e fila de pesagem s\u00e3o um porre em campeonatos de grande porte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>\u201cWhere are you from?\u201d \u201cShe\u2019s got an issue with that\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Eu sa\u00ed do Brasil depois de uma decis\u00e3o que levei cinco anos para tomar: a de abandonar definitivamente qualquer papel organizativo no esporte. Se eu j\u00e1 tinha uma perspectiva bastante negativa sobre o patriotismo e nacionalismo, ela se agravou. De uma reflex\u00e3o acad\u00eamica, ela afundou com a \u00e2ncora da desilus\u00e3o. \u00c9 a cultura da desonestidade deste pa\u00eds, a coniv\u00eancia dos atletas com as pr\u00e1ticas desonestas, que sustenta no Brasil tanto o terrorismo corrupto de uns como a praga do fundo de quintal. Os mais de 10 anos em que voltei a viver a\u00ed n\u00e3o me ganharam de volta e eu vim para c\u00e1 nessa condi\u00e7\u00e3o de \u201cpessoa de lugar nenhum\u201d. The lifter from Nowhere. Toda vez que nos perguntavam \u201cwhere are you from?\u201d, eu respondia \u201cI was born in Brazil\u201d (eu nasci no Brasil). A pessoa invariavelmente perguntava \u201c&#8230; so, then you are Brazilian?\u201d (ent\u00e3o voc\u00ea \u00e9 brasileira?). Ou eu respondia \u201cno, I\u2019m from nowhere and everywhere\u201d (n\u00e3o, eu sou de lugar nenhum e todos os lugares) ou o Diego se antecipava e dizia \u201cshe\u2019s got an issue with that\u201d (ela tem um problema com isso).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>A fila da pesagem e os russos<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>A fila da pesagem \u00e9 um cap\u00edtulo \u00e0 parte. No meu dia, fiquei 2h40\u2019 esperando. Motivos: primeiro, os grupos de russos mais ou menos invadiam a sala criando uma confus\u00e3o com seu n\u00famero e \u201cI don\u2019t speak English\u201d. Sem tempo para ir atr\u00e1s de um int\u00e9rprete, os oficiais ficavam \u00e0 merc\u00ea da \u201cblitz\u201d de caos criada. Eles tiravam seus passaportes, cujos nomes freq\u00fcentemente n\u00e3o batiam muito com as listas e criavam mais problemas. A partir do terceiro dia, as filas foram separadas em tempos menores.<\/p>\n<p>Pessoalmente, n\u00e3o tive problema algum com os russos. Pelo contr\u00e1rio: no meu exame de arbitragem, num dos rounds o \u00e1rbitro central era um russo. Embora s\u00e9rio e pouco interativo, foi muito correto comigo e aprendi bastante com ele (Vladimir Omelkov). N\u00e3o sei o quanto nossa rela\u00e7\u00e3o foi influenciada por eu ter compartilhado meu saco de chips de banana com ele. Acho que \u00e9 intuitivo imaginar o valor afetivo de comida numa circunst\u00e2ncia em que se est\u00e1 preso a uma tarefa por seis horas seguidas.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que a cultura esportiva da equipe russa e outras da Europa Oriental me pareceu diferente das equipes americanas, canadense, australiana e da Europa Ocidental. Primeiro, eles eram menos interativos. Evidente que a barreira ling\u00fc\u00edstica \u00e9 determinante nesse caso. Segundo, eles andavam em grupos grandes e a a\u00e7\u00e3o deles era freq\u00fcentemente interpretada como ligeiramente hostil, como \u201ctomar\u201d monolifts e bancos de supino na \u00e1rea de aquecimento. Ser\u00e1 que \u201ctomavam\u201d mesmo ou nem se davam conta de que isso era percebido assim? Nunca saberemos. O que sabemos \u00e9 que os demais atletas viam assim. Em terceiro lugar, n\u00e3o podemos esquecer que a R\u00fassia tem a heran\u00e7a da guerra fria. Heran\u00e7a hist\u00f3rica e cultural \u00e9 coisa s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Enfim, nem tudo s\u00e3o flores em campeonatos de grande porte. O relato ficaria mais bonitinho s\u00f3 com as flores, mas bem menos \u00fatil e informativo.<\/p>\n<p>Eu, com minhas tr\u00eas palavras em russo e meu saco de banana chips me dei bem. At\u00e9 aprendi que eu sou, para eles, uma \u201cbrasilianska\u201d (e tudo bem: se \u00e9 complicado explicar meu \u201cproblema\u201d nos idiomas que eu domino, imagine em russo, com um vocabul\u00e1rio de tr\u00eas palavras). Ganhei sorrisos e abra\u00e7os.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-960 alignnone\" title=\"IMG_1884\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1884-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p><strong><em>A diversidade<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Al\u00e9m da diversidade \u00e9tnica e nacional, havia a diversidade de g\u00eanero e comportamental. \u00c9 evidente que existe conservador e fundamentalista aqui. Ali\u00e1s, \u00e9 a terra onde eles s\u00e3o mais vocais. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 a terra da conquista da visibilidade do diferente. Casais gays se expunham sem problemas, mulheres com est\u00e9tica bem alternativa, lim\u00edtrofe nos estere\u00f3tipos de g\u00eanero, passeavam com seus companheiros ou companheiras, num desfile que liquefaria o c\u00e9rebro de galinha dos conservadores brasileiros. Imagino uns tipinhos nojentos se perguntando \u201ccomo aquela mulher que \u2018parece um homem\u2019 est\u00e1 ali com um marido? Como ela pode ser hetero? E aquela l\u00e9sbica com a namorada, n\u00e3o tem vergonha?\u201d<\/p>\n<p>Isso, para mim, \u00e9 default. Mas minha vida esquizofr\u00eanica no Brasil me leva a conviver, ao mesmo tempo, com uma elite cultural transgressora e com um ambiente esportivo xucro e conservador.<\/p>\n<p>Perd\u00e3o, mas MEU DEUS, QUE AL\u00cdVIO.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Estados Unidos, Canad\u00e1, Europa Ocidental X America do Sul e Europa Oriental<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>De novo, isso era predominante nos grupos americanos e da Europa Ocidental. A Europa Oriental parece muito, em quase tudo, com a America Latina.<\/p>\n<p>Infelizmente, isso n\u00e3o transparece apenas no moralismo (ou falso moralismo). Os atletas que dos Estados Unidos e Europa Ocidental que optaram por se distanciar do modelo autorit\u00e1rio anterior no esporte ficavam confusos e apreensivos.<\/p>\n<p>Existem coisas que \u00e9 consenso que n\u00e3o queremos mais e ponto final. A arbitragem inconsistente da IPF \u00e9 algo que todos queremos ver longe. Existe uma preocupa\u00e7\u00e3o ser\u00edssima com isso: consist\u00eancia.<\/p>\n<p>Um olhar mais neutro e etnogr\u00e1fico aponta novamente para a heran\u00e7a hist\u00f3rica. Por mais cr\u00edticas que se possa ter ao modelo de democracia americano e anglo-sax\u00e3o de maneira geral, ele criou a conviv\u00eancia pluralista e uma preocupa\u00e7\u00e3o forte com a equanimidade e consist\u00eancia. \u00c9 a maneira de conviver e administrar o conflito permanente. J\u00e1 pa\u00edses com tradi\u00e7\u00e3o de ditaduras militares geram cidad\u00e3os que rejeitam menos o autoritarismo e inconsist\u00eancia, o arb\u00edtrio e a submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como prever o que isso vai dar no futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Fazendo amigos<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Diego e eu fomos em dupla, uma dupla de levantadores raw. Isso significa que quando eu estivesse competindo, parte do tempo ele estaria se pesando. Al\u00e9m disso, eu tinha que arbitrar. Eu conhecia algumas pessoas que estariam l\u00e1 e se propuseram a nos ajudar. No entanto, jamais poderia imaginar que teria um apoio t\u00e3o incondicional como tivemos de Joel Mott. Joel esteve conosco 100% do tempo e gerenciou nosso aquecimento e estrat\u00e9gia competitiva. Ele pertence a uma equipe bastante experiente e j\u00e1 tinha competido no primeiro dia (s\u00f3 supino). N\u00e3o h\u00e1 palavras para explicar como se formou uma equipe de \u201cqu\u00edmica perfeita\u201d entre pessoas que s\u00f3 se conheciam digitalmente.<\/p>\n<p>Fizemos outros amigos, principalmente entre americanos e ingleses. Eu tinha outros amigos da Finl\u00e2ndia, Col\u00f4mbia e Argentina, al\u00e9m dos americanos. Todo mundo se ajuda, passa a barra quando precisa e torce, torce muito.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-961\" title=\"IMG_1834\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_1834-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Resultados<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>A essa altura, a maioria j\u00e1 sabe que eu venci na minha categoria, quebrei os recordes de supino e total do WPC e que o Diego ganhou a medalha de prata na categoria at\u00e9 82kg open. Vamos qualificar estes resultados. Eu sabia que era a favorita e que outras atletas mudam e mudaram de categoria para \u201cescapar\u201d de mim. Nem sei o quanto isso rolou neste campeonato: uma das coisas que eu decidi foi n\u00e3o me preocupar com as advers\u00e1rias. O que foi um erro j\u00e1 comentado em outro artigo.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, eu era a favorita e quase perdi. Ganhei por 2,5kg. Opa, foi emocionante, mas tamb\u00e9m foi um chacoalh\u00e3o. Escutar da Taylor que a equipe dela me estudou para criar uma estrat\u00e9gia foi ao mesmo tempo enaltecedor e um tapa na cara. \u00c9 \u00f3bvio que haver\u00e1 outras mulheres at\u00e9 60kg bem fortes por a\u00ed e elas estar\u00e3o me esperando nos tablados do mundo.<\/p>\n<p>Ganhei, al\u00e9m disso, com n\u00fameros menores do que os planejados. N\u00e3o cabe aqui discutir os motivos.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria do Diego, no entanto, teve outro sabor. Em primeiro lugar, esta \u00e9 a primeira competi\u00e7\u00e3o de powerlifting da vida dele. Embora ele tenha sido atleta de alta performance em outros esportes (lutas, principalmente), nunca tinha subido num tablado. Competiu com todo o controle do mundo contra atletas muito fortes. Mais importante que tudo, ao meu ver, fez de todos os seus levantamentos PRs (recordes pessoais). Essa \u00e9 a marca dos grandes levantadores de peso: ser capaz de se superar no tablado.<\/p>\n<p>Eu nunca tinha visto algo assim. O que o futuro reserva para ele como atleta de powerlifting, n\u00e3o h\u00e1 como prever exceto que ser\u00e1 emocionante acompanhar.<\/p>\n<p>Tive um profundo orgulho do desempenho do Diego.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"https:\/\/sphotos-b.xx.fbcdn.net\/hphotos-prn1\/15067_10200102915282817_370326819_n.jpg\" width=\"960\" height=\"720\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Deixando os amigos<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Dizer adeus a alguns dos amigos feitos e re-encontrados foi dif\u00edcil. S\u00e3o pessoas que vivem com a gente talvez o momento mais intenso do ano, em todos os sentidos. N\u00e3o h\u00e1 como isso n\u00e3o criar um v\u00ednculo forte. Separar-se deles d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de orfandade. O bom \u00e9 que renova a vontade de voltar a v\u00ea-los no ano seguinte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>A virada no destino<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Este item \u00e9 pequeno porque \u00e9 subjetivo e em grande medida \u00edntimo. \u00c9 muito dif\u00edcil que um evento deste porte seja desimportante. No entanto, muitas vezes coincide com momentos de transi\u00e7\u00e3o em nossas vidas. S\u00e3o charadas do destino que nunca vou entender.<\/p>\n<p>De minha parte, posso dizer que uma Marilia morreu l\u00e1 por Setembro. Essa outra que nasceu, ainda testando suas for\u00e7as, subiu no p\u00f3dio em novembro.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 feita destas descontinuidades e tamb\u00e9m das continuidades. Continuamos com nossa \u201cmatriz fundamental\u201d, continuamos com nosso genoma, nossos amigos e fam\u00edlia, continuamos powerlifters.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida, por\u00e9m, que depois de Las Vegas uma transi\u00e7\u00e3o se completou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><strong><em>Aeroporto de Columbus, port\u00e3o 34<\/em><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<p>Eu usei muitas vezes o pronome \u201cn\u00f3s\u201d. \u201cN\u00f3s\u201d se refere ao Diego Figueroa e a mim. Estivemos juntos do momento da decis\u00e3o, planejamento, viagem, competi\u00e7\u00e3o, aventuras em Ohio e muita, muita troca de id\u00e9ias e experi\u00eancias. Compartilhamos quartos, copos, whey, comida suor e, da minha parte, at\u00e9 l\u00e1grimas e v\u00f4mito. \u00c9 muita intimidade, \u00e9 quase como voltar a uma inf\u00e2ncia que eu nunca tive com um irm\u00e3ozinho que eu nunca tive, com o qual se brinca, se briga, se joga travesseiro, baba na cama do outro e se partilha os sonhos mais inconfess\u00e1veis.<\/p>\n<p>Vira uma parte de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>Ver o Diego embarcar para Miami no port\u00e3o 34 do aeroporto de Columbus foi estranh\u00edssimo. Talvez s\u00f3 menos estranho porque no meu futuro e projetos, l\u00e1 est\u00e1 ele de novo.<\/p>\n<p>O a\u00e7o cria elos fortes.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18741.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-962\" title=\"IMG_1874\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18741-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18741-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/IMG_18741-1024x768.jpg 1024w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o Todo relato passado \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o. Todo fato passado \u00e9 fruto de uma escava\u00e7\u00e3o seletiva. O passado \u00e9 um recurso heur\u00edstico: ele n\u00e3o \u00e9 um lugar que est\u00e1 l\u00e1 para visitas a viv\u00eancias. O passado est\u00e1 em movimento. A hist\u00f3ria desta aventura, contada hoje, n\u00e3o \u00e9 a mesma se relatada ao longo do caminho. 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