{"id":4903,"date":"2012-12-15T01:27:06","date_gmt":"2012-12-15T01:27:06","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-agenda-do-aborto-o-que-e-pro-escolha\/"},"modified":"2012-12-15T01:27:06","modified_gmt":"2012-12-15T01:27:06","slug":"a-agenda-do-aborto-o-que-e-pro-escolha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-agenda-do-aborto-o-que-e-pro-escolha\/","title":{"rendered":"A agenda do aborto: o que \u00e9 \u201cpr\u00f3-escolha\u201d"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/forbesindia.com\/media\/images\/2010\/Dec\/img_40442_railway_track_280x210.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/forbesindia.com\/media\/images\/2010\/Dec\/img_40442_railway_track_280x210.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"210\" \/><\/a><\/p>\n<p>Eu acho engra\u00e7ado como no Brasil tudo d\u00e1 uma degeneradinha pela via do simplismo. Enquanto em outros pa\u00edses o pau come e a discuss\u00e3o se aprofunda, de maneiras diversas, desde as menos at\u00e9 as mais sofisticadas e civilizadas, aqui, infelizmente, \u201cpr\u00f3-escolha\u201d significa \u201cpr\u00f3-aborto\u201d. Existe at\u00e9 mesmo uma certa glamouriza\u00e7\u00e3o do aborto. O discurso da ministra da Eleonora Menicucci de Oliveira ilustra o meu ponto. Em suas entrevistas, <a href=\"http:\/\/archive.org\/stream\/EntrevistaComEleonoraMenicucciDeOliveira\/29092009-111002menicucci_djvu.txt\">ela fala com verdadeira ternura sobre a beleza do aborto<\/a>\u00a0*.<\/p>\n<p>Independente da discuss\u00e3o (bem mais complicada, ali\u00e1s) sobre quando o feto passa a ser uma pessoa dotada de direitos, e, portanto, \u00e0 vida, o direito da mulher \u00e0 escolha tem sido reduzido ao direito de abortar.<\/p>\n<p>Como este discurso \u00e9 articulado por pessoas que dificilmente passaram por situa\u00e7\u00f5es de profunda opress\u00e3o, quando lhes \u00e9 negado o direito a escolher parir a crian\u00e7a, o processo decis\u00f3rio (\u201cescolha\u201d) \u00e9 apresentado ao p\u00fablico pela metade. Isso \u00e9 um equ\u00edvoco pol\u00edtico, l\u00f3gico e \u00e9tico.<\/p>\n<p>Segundo as poucas pesquisas metodologicamente respeit\u00e1veis feitas sobre aborto no Brasil, a maioria das mulheres que se submete a ele tem n\u00edvel educacional prec\u00e1rio e ficou evidente a rela\u00e7\u00e3o entre a dificuldade na preven\u00e7\u00e3o da gravidez e sua interrup\u00e7\u00e3o. Essa dificuldade tem rela\u00e7\u00e3o com falta de informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com outra mais complicada. Mulheres com n\u00edvel educacional prec\u00e1rio tamb\u00e9m t\u00eam muito maior dificuldade em ser assertivas e impor sua vontade a quem quer que seja, desde o parceiro at\u00e9 a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Pela abundante evid\u00eancia aned\u00f3tica que coletei em meus muitos anos de familiaridade com este tema, me parece que a maioria das mulheres que se submete a abortos n\u00e3o o faz por uma escolha n\u00e3o coerciva. Em geral, o aborto \u00e9 produto de press\u00e3o do parceiro, da fam\u00edlia ou de ambos. Se \u00e9 uma escolha da mulher, freq\u00fcentemente \u00e9 produto da total aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es infra-estruturais em sua vida para arcar com o que seria a outra escolha: ter a crian\u00e7a. Assim, a mulher pobre, com parceiro pobre, em condi\u00e7\u00f5es de trabalho opressivas (com risco de demiss\u00e3o ap\u00f3s o ris\u00edvel per\u00edodo \u201cprotegido\u201d) ou, pior, sem trabalho, sem creche adequada na regi\u00e3o, sem escola p\u00fablica minimamente decente, aborta. Ser\u00e1 que ela realmente \u201cescolheu\u201d abortar? Ou foi for\u00e7ada pela total impossibilidade de arcar com n\u00e3o faz\u00ea-lo?<\/p>\n<p>Muitas adolescentes abortam porque, se suas fam\u00edlias descobrirem que s\u00e3o sexualmente ativas, ser\u00e3o duramente punidas. Possivelmente at\u00e9 mesmo expulsas de casa. Ser\u00e1 que essas meninas realmente \u201cescolheram\u201d abortar?<\/p>\n<p>Vamos para situa\u00e7\u00f5es concretas. Eu fui uma dessas meninas. Fiquei gr\u00e1vida aos 16 anos. O partido (de esquerda!) ao qual eu pertencia, o meu namorado e a minha fam\u00edlia decidiram, contra a minha vontade, \u201cme\u201d submeter a um aborto. Al\u00e9m da reprova\u00e7\u00e3o generalizada por ter engravidado (como se eu tivesse engravidado por cissiparidade, igual a uma bact\u00e9ria), tudo foi decidido \u00e0 minha revelia. No dia, minha m\u00e3e e o namorado me levaram a esta cl\u00ednica clandestina no Pacaemb\u00fa, me deixaram l\u00e1, eu fui mais humilhada ainda pelos m\u00e9dicos da cl\u00ednica, que perfuraram meu \u00fatero e depois, no dia seguinte do aborto, fui punida numa reuni\u00e3o do \u201ccomit\u00ea estudantil\u201d da maldita Converg\u00eancia Socialista por n\u00e3o conseguir distribuir a porcaria do jornaleco deles.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o escolhi nada! Onde est\u00e1 o meu direito \u00e0 escolha? Eu queria ter o filho. Se eu tivesse um m\u00ednimo de apoio da minha fam\u00edlia, do idiota do namorado e do Estado, hoje ele teria 32 anos e seria algu\u00e9m \u2013 feliz ou n\u00e3o, n\u00e3o sei. Mas algu\u00e9m que eu amaria tanto quanto a filha que anos mais tarde eu escolhi ter e n\u00e3o consultei ningu\u00e9m. Meu corpo \u2013 minha escolha.<\/p>\n<p>Vamos ao caso contr\u00e1rio. A cunhada do meu pai engravidou quando estava com rub\u00e9ola. A decis\u00e3o \u00f3bvia teria sido abortar. No entanto, sendo uma fam\u00edlia cat\u00f3lica e conservadora, tiveram a crian\u00e7a, que nasceu deformada, com ser\u00edssimos problemas metab\u00f3licos, de desenvolvimento embrion\u00e1rio e de crescimento. Viveu miser\u00e1veis 58 anos e morreu sob extremo sofrimento, com um rim s\u00f3, pois um deles nunca funcionou, sob di\u00e1lise, dor e horror. Onde estava a escolha da gr\u00e1vida? Ora, se perguntada, ela hoje negaria que foi for\u00e7ada. Mas uma pessoa sob as condi\u00e7\u00f5es dela j\u00e1 n\u00e3o tem escolha por defini\u00e7\u00e3o. A escolha sumiu sob doutrina\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica conservadora desde que nasceu.<\/p>\n<p>Ser pr\u00f3-escolha, portanto, logicamente implica defender que todas as mulheres tenham pleno controle do processo decis\u00f3rio quanto a engravidar e manter seu feto. De maneira nenhuma implica defender o aborto, e sim o direito a escolher se pretende ou n\u00e3o engravidar, se, uma vez gr\u00e1vida, pretende ou n\u00e3o permitir o desenvolvimento do feto a termo.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o sobre a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto \u00e9 inteiramente outra: diz respeito a proteger a vida das in\u00fameras mulheres que \u2013 obrigadas, em sua maioria \u2013 se submetem a abortos clandestinos e, como eu, podem ter s\u00e9rios danos f\u00edsicos.<\/p>\n<p>Ou morrer. Caso em que eu diria que foram assassinadas pela falta de escolha.<\/p>\n<p>* Ao meu ver, as afirma\u00e7\u00f5es de Eleonora Menicucci n\u00e3o t\u00eam\u00a0credibilidade nenhuma, principalmente depois de negar o tal curso de aborto na Col\u00f4mbia, onde as mulheres eram capacitadas a se auto-abortar, e\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/506544-eleonoramenicucci-fezcursodeabortorelatatextoministranega\">desautorizar conte\u00fados de entrevistas<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu acho engra\u00e7ado como no Brasil tudo d\u00e1 uma degeneradinha pela via do simplismo. Enquanto em outros pa\u00edses o pau come e a discuss\u00e3o se aprofunda, de maneiras diversas, desde as menos at\u00e9 as mais sofisticadas e civilizadas, aqui, infelizmente, \u201cpr\u00f3-escolha\u201d significa \u201cpr\u00f3-aborto\u201d. Existe at\u00e9 mesmo uma certa glamouriza\u00e7\u00e3o do aborto. 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