{"id":4924,"date":"2012-12-30T03:51:02","date_gmt":"2012-12-30T03:51:02","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/o-projeto-de-desentulhamento-parte-1-os-livros\/"},"modified":"2012-12-30T03:51:02","modified_gmt":"2012-12-30T03:51:02","slug":"o-projeto-de-desentulhamento-parte-1-os-livros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/o-projeto-de-desentulhamento-parte-1-os-livros\/","title":{"rendered":"O projeto de desentulhamento \u2013 parte 1: os livros"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/IMG_16031.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-1089\" title=\"IMG_1603\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/IMG_16031-300x225.jpg\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/IMG_16031-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/IMG_16031.jpg 400w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Os livros foram ontem, dia 29, de madrugada. Eu havia tomado uma decis\u00e3o, semanas atr\u00e1s, de doar livros. Livros encadernados, processo industrial. Publiquei minha inten\u00e7\u00e3o em busca de interessados. Uma amiga se prop\u00f4s a adot\u00e1-los.<\/p>\n<p>Trata-se de colocar os ditos cujos em caixas e, quando todos estiverem devidamente arrumados, chamar a L\u00facia. \u00c9 claro que isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. Passaram-se semanas e eu n\u00e3o me mexi. Esteve muito quente, eu tive outras coisas para fazer, mas a verdade \u00e9 que desentulhamento \u00e9 uma das a\u00e7\u00f5es mais radicais que podemos fazer com nossa pr\u00f3pria identidade. \u00c9 enfiar a m\u00e3o l\u00e1 no fundo das camadas do tempo e remexer tudo.<\/p>\n<p>Ontem, no meio da madrugada, eu resolvi atacar os livros xerocopiados. Acho que uma centena ou mais de livros xerocopiados, desde pouco antes do meu doutorado at\u00e9 cerca de uns 12 anos atr\u00e1s. Resolvi enfiar todos em sacos pl\u00e1sticos grandes e colocar l\u00e1 fora. Lixo, mesmo. O argumento \u00e9 bastante simples e l\u00f3gico: eu n\u00e3o manipulo estes livros h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. H\u00e1 livros sobre ling\u00fc\u00edstica, hist\u00f3ria da ci\u00eancia, teoria do Estado, bem estar social, democracia pluralista e at\u00e9 outros ainda mais antigos sobre metabolismo secund\u00e1rio de terpen\u00f3ides (opa, n\u00e3o joguei tudo fora do mestrado, ent\u00e3o). A verdade \u00e9 que eu n\u00e3o os consulto, ponto final.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que eu fui manipulando os livros, uma opera\u00e7\u00e3o mental era deflagrada a cada um: \u201cisso \u00e9 um puta livro. Eu li h\u00e1 tanto tempo, n\u00e3o lembro mais de quase nada. \u00c9 de enorme utilidade. E quem \u00e9 que pode pensar o mundo sem erudi\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 teoria do Estado e suas v\u00e1rias escolas?\u201d Essa auto-tortura era confrontada, livro a livro, pelo mesmo argumento de que o livro n\u00e3o tinha sido consultado em anos, que se fosse necess\u00e1rio consultar algo sobre o assunto, a vers\u00e3o digital certamente n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil de encontrar e pronto.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 que o ato de se desfazer daquela pilha mal encadernada de papel dif\u00edcil de ler nas letrinhas apagadas equivale a se desfazer de uma parte da minha mem\u00f3ria. Jogando fora o livro sobre met\u00e1foras do Lakoff, vou esquecer os modelos ling\u00fc\u00edsticos sobre as mesmas; n\u00e3o vou mais articular os v\u00e1rios autores que escreveram sobre pluralismo; serei incapaz de me reconhecer na paisagem da hist\u00f3ria das id\u00e9ias sobre evolu\u00e7\u00e3o. Cada livro no saco, um borr\u00e3o no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>Pior: jogando fora, vou esquecer que um dia isso existiu na minha vida. Como vou lembrar dos t\u00edtulos de mais de 100 livros que jogo fora agora? Juro que considerei a id\u00e9ia (mais torturante ainda) de anotar cada um dos itens desprezados, o que geraria uma ansiedade de dimens\u00f5es astron\u00f4micas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fiz o oposto: peguei os livros em pilhas, nem olhei as capas e enfiei tudo no saco preto.<\/p>\n<p>Pronto: n\u00e3o sei o que s\u00e3o, o que eram, o que representavam. A partir daquele momento, n\u00e3o me pertencem mais. Um dia os li. Um dia, seu conte\u00fado foi analisado e interpretado. E como tudo que o \u00e9, algo dele integra para sempre meu sistema de produzir modelos e opera\u00e7\u00f5es interpretativas. N\u00e3o existe t\u00e9cnica de an\u00e1lise sem erudi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o existe erudi\u00e7\u00e3o sem esquecimento. Tudo que \u00e9 lido \u00e9 esquecido. Mas isso \u00e9 s\u00f3 parte da hist\u00f3ria. Esquecemos o autor, o argumento, a maneira como articula os conceitos, mas a experi\u00eancia de ter se confrontado com ele \u00e9 parte de n\u00f3s para sempre. Talvez nem retirando fisicamente parte do nosso c\u00e9rebro isso se perca, pois a mem\u00f3ria \u00e9 distribu\u00edda e difusa.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas cinco da manh\u00e3, veio uma paz incr\u00edvel. N\u00e3o era exaust\u00e3o, n\u00e3o: eu tive que me for\u00e7ar a tomar um banho e tentar dormir, com o dia j\u00e1 amanhecendo. Era uma paz nova e desconhecida.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei dar nome para essa paz. Acho que \u00e9 a paz dura da convic\u00e7\u00e3o da posse. Podem me tirar tudo: no fundo, n\u00e3o tiram nada. Dos milhares de livros que li, a parte mais essencial, descolada de sua formalidade porque gerada por mim e na minha apropria\u00e7\u00e3o da realidade, \u00e9 s\u00f3 minha e minha para sempre.<\/p>\n<p>Olhei em volta e me dei conta de que tudo pode ser afastado, dado, jogado fora. A experi\u00eancia que tudo isso me proporcionou faz parte de mim ainda que eu esteja nua, numa praia deserta. \u00c9 essa experi\u00eancia que me constitui e me faz quem eu sou.<\/p>\n<p>Quase pegando no sono me ocorreu que o apego excessivo a certos objetos e pessoas por parte daqueles que n\u00e3o leram pra valer pode ser incur\u00e1vel, pois o corpo a corpo com o acervo civilizat\u00f3rio das id\u00e9ias n\u00e3o \u00e9 substitu\u00edvel&#8230; Fora das estat\u00edsticas, quem s\u00e3o, realmente, estas pessoas que nunca leram a s\u00e9rio? A\u00ed eu dormi. Em paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os livros foram ontem, dia 29, de madrugada. Eu havia tomado uma decis\u00e3o, semanas atr\u00e1s, de doar livros. Livros encadernados, processo industrial. Publiquei minha inten\u00e7\u00e3o em busca de interessados. Uma amiga se prop\u00f4s a adot\u00e1-los. 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