{"id":4933,"date":"2013-01-01T23:59:28","date_gmt":"2013-01-01T23:59:28","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/o-projeto-de-desentulhamento-parte-3-as-pessoas\/"},"modified":"2013-01-01T23:59:28","modified_gmt":"2013-01-01T23:59:28","slug":"o-projeto-de-desentulhamento-parte-3-as-pessoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/o-projeto-de-desentulhamento-parte-3-as-pessoas\/","title":{"rendered":"O projeto de desentulhamento \u2013 parte 3: as pessoas"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.funnyanimalworld.net\/var\/albums\/Warm%20love%20between%20the%20different%20types%20of%20animals\/Warm%20love%20between%20the%20different%20types%20of%20animals%20(17).jpg?m=1341998930\" width=\"550\" height=\"354\" \/><\/p>\n<p>Continuo na minha faina desentulhat\u00f3ria, laboriosamente escolhendo os livros para encaixotar. Agora entra uma fase bem dif\u00edcil e frustrante. Cheguei na camada de livros mais ansiog\u00eanicos. Eles retomam aquele dilema do come\u00e7o: mas \u00e9 um livro t\u00e3o importante, eu n\u00e3o lembro mais quase nada, n\u00e3o vou lembrar do t\u00edtulo, e se eu precisar? Ai, ai, ai&#8230;<\/p>\n<p>Paralelamente, \u00e0 medida em que v\u00e3o aparecendo espa\u00e7os desentulhados, v\u00e3o aparecendo as coisas sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a que precisam ser jogadas no lixo.<\/p>\n<p>O processo de desentulhamento, portanto, cria algumas categorias de a\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ol start=\"1\">\n<li>A doa\u00e7\u00e3o: livros, aparelhos, roupas e outros objetos que n\u00e3o fazem mais sentido na minha \u00a0vida, mas t\u00eam utilidade para alguma outra pessoa.<\/li>\n<li>Jogar fora: livros e artigos xerocopiados h\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o t\u00eam que ser dados pois a impress\u00e3o est\u00e1 quase ileg\u00edvel. T\u00eam que ser jogados fora, mesmo. Calcinhas e t\u00eanis furados, objetos que eu n\u00e3o sei\u00a0\u00a0nem qualificar, fitas cassete antiq\u00fc\u00edssimas (e certamente sem registro magn\u00e9tico algum) \u2013 tudo isso n\u00e3o tem o que ponderar: \u00e9 lixo e pronto. H\u00e1 uma categoria de objetos que me intriga: a das coisas que, al\u00e9m de in\u00fateis, s\u00e3o perigosas e um risco permanente. Lembram dos dois vidros com p\u00f3 preto t\u00f3xico? E faca afiada sem cabo? Cestas cheias de porcarias \u00f3timas para ninho de aranha?<\/li>\n<li>Relocar: com o desentulhamento, certas coisas podem ser colocadas em lugares mais adequados. Coisas que voc\u00ea usa menos em gavetas ou partes de arm\u00e1rio menos acess\u00edveis, objetos de uso cotidiano em locais mais \u00e0 m\u00e3o.<\/li>\n<li>Cuidar melhor daquilo que \u00e9 realmente importante. \u00c0s vezes, num universo entulhado, as coisas das quais a gente realmente precisa e gosta somem sob sedimentos de objetos desconexos e s\u00e3o danificadas ou sujas, pois n\u00e3o est\u00e3o no lugar mais seguro.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Olhando estes quatro itens \u00e9 inevit\u00e1vel a analogia com pessoas e rela\u00e7\u00f5es. Existem pessoas que n\u00e3o fazem mais sentido na nossa vida. Um dia tivemos algum tipo de relacionamento com elas, mas hoje, n\u00e3o mais. N\u00e3o s\u00e3o parceiros, colegas, clientes, amigos \u2013 nada. N\u00e3o existe v\u00ednculo de afeto, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 rejei\u00e7\u00e3o. A gente continua envolvido com elas por algum motivo que parece l\u00f3gico, mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Os meus exemplos s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es feitas em organiza\u00e7\u00e3o esportiva, milit\u00e2ncia e outras atividades que eu fiz por pura obriga\u00e7\u00e3o. Nunca curti, foi ruim e hoje eu consegui botar o dedo na ferida da culpa. As pessoas com as quais eu s\u00f3 tinha isso em comum n\u00e3o fazem mais sentido na minha vida. N\u00e3o s\u00e3o pessoas m\u00e1s ou boas e certamente fazem muito sentido na vida delas mesmas e de outros.<\/p>\n<p>&#8211; oi<\/p>\n<p>&#8211; oi<\/p>\n<p>&#8211; e a\u00ed, voc\u00ea viu quem foi pego no anti-doping?<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o vi, n\u00e3o tenho o menor interesse, pertencem a um mundo que h\u00e1 anos n\u00e3o \u00a0\u00e9 o meu e esse papo, que de fato aconteceu, tomou uns 15 preciosos minutos da minha vida.<\/p>\n<p>S\u00e3o as famosas rela\u00e7\u00f5es por in\u00e9rcia, muito estimuladas por sistemas de chat virtual onde as pessoas ficam ali, dando sopa, sem muito que fazer e acabam puxando assunto com a gente.<\/p>\n<p>Acho que dessas rela\u00e7\u00f5es eu cuidei bem: eu n\u00e3o estou dispon\u00edvel, nunca. Nunca estou online, raramente atendo telefone, de modo que as rela\u00e7\u00f5es por in\u00e9rcia n\u00e3o se mant\u00e9m por essa via comigo. Mas existem outras. \u00c9 hora de reciclar.<\/p>\n<p>Existem rela\u00e7\u00f5es que realmente precisam ser cortadas. Algumas de maneira suficientemente dr\u00e1stica para que nunca mais consigam se enraizar. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas, como o p\u00f3 preto nos vidros de palmito.<\/p>\n<p>\u00c9 comum que depois que os contatos em si foram cortados, a rela\u00e7\u00e3o continue ocupando espa\u00e7o na cabe\u00e7a da gente. Continuam exercendo seu papel t\u00f3xico. Os motivos s\u00e3o variados, mas quase sempre envolvem ressentimento e dor.<\/p>\n<p>No fim do ano passado, aprendi com o Diego um m\u00e9todo sensacional para jogar fora estas rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas: tomar a decis\u00e3o de n\u00e3o usar mais o nome das pessoas, n\u00e3o comentar mais situa\u00e7\u00f5es que as envolvam, principalmente aquelas que foram origem do dano causado a n\u00f3s. \u00c9 dific\u00edlimo cumprir. D\u00e1 uma vergonha de si mesmo perceber que, no fundo, queremos continuar alimentando a raiva e o ressentimento. A gente tem apego ao rancor. Quando \u00e9 s\u00f3 raiva, quando nunca houve afeto, nutrimos complexas fantasias de destrui\u00e7\u00e3o. Quem \u00e9 que n\u00e3o criou scripts de enforcamento, guilhotinamento, afogamento, esfaqueamento e furar o olho do inimigo com chave de fenda? Uma anilha de 15kg na testa, abrindo o cr\u00e2nio e espalhando o c\u00e9rebro? Esmag\u00e1-lo numa prensa industrial?<\/p>\n<p>Perd\u00e3o, acabei me perdendo, estas fantasias realmente s\u00e3o tentadoras. Viram? Terr\u00edvel! Mas sem o nome e a cara do filho da puta a ser destru\u00eddo, a fantasia n\u00e3o funciona.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 quando o ressentimento \u00e9 um sentimento secund\u00e1rio a um afeto original. A\u00ed&#8230; a tarefa \u00e9 realmente herc\u00falea. Todo mundo j\u00e1 mergulhou no devaneio esquizofr\u00eanico de recuperar a rela\u00e7\u00e3o perdida e destruir o sujeito do nosso ressentimento.<\/p>\n<p>O m\u00e9todo do Diego se aplica a ambos: uma vez que n\u00e3o se use mais o nome e n\u00e3o se mencione mais situa\u00e7\u00f5es com estas pessoas, aos poucos elas v\u00e3o deixando de gerar scriptzinhos demon\u00edacos na nossa cabe\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 imediato: no come\u00e7o, elas ainda aparecem. A gente ainda gilhotinha cabe\u00e7as, dedos e picas. Ou faz sexo animal numa dimens\u00e3o paralela onde o conflito nunca aconteceu.<\/p>\n<p>Tirando da nossa vida quem n\u00e3o tem que fazer parte dela, fica mais f\u00e1cil organizar as rela\u00e7\u00f5es que fazem sentido: clientes aqui, parceiros ali, amigos de diversos graus e naturezas, cada um em seu canto, familiares, amores, tudo fica mais organizado.<\/p>\n<p>Finalmente, vem a parte melhor: com isso tudo feito, tendo nos livrado das rela\u00e7\u00f5es t\u00f3xicas, limpado direitinho as que importam, temos como dar mais aten\u00e7\u00e3o, cuidar melhor e alimentar as que nos s\u00e3o caras.<\/p>\n<p>Fica mais f\u00e1cil amar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuo na minha faina desentulhat\u00f3ria, laboriosamente escolhendo os livros para encaixotar. Agora entra uma fase bem dif\u00edcil e frustrante. Cheguei na camada de livros mais ansiog\u00eanicos. 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