{"id":4995,"date":"2013-03-23T05:32:32","date_gmt":"2013-03-23T05:32:32","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/cinquenta-uns-balancos-1\/"},"modified":"2013-03-23T05:32:32","modified_gmt":"2013-03-23T05:32:32","slug":"cinquenta-uns-balancos-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/cinquenta-uns-balancos-1\/","title":{"rendered":"Cinq\u00fcenta: uns balan\u00e7os &#8211; 1"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"https:\/\/fbcdn-sphotos-d-a.akamaihd.net\/hphotos-ak-prn1\/379066_2632200237822_1693101064_n.jpg\" alt=\"\" width=\"247\" height=\"222\" \/><\/p>\n<p>Dentro de dois dias eu completo cinq\u00fcenta anos. N\u00e3o sei ainda dizer o que isso significa, se \u00e9 que significa alguma coisa. Pessoas como eu podem escrever tratados sobre cada per\u00edodo de suas vidas e as grandes transforma\u00e7\u00f5es ocorridas, s\u00ednteses sensacionais, descri\u00e7\u00f5es \u00e9picas sobre marcos de renascimento. Nem me lembro quando comecei a nomear renascimentos na minha vida, parece que desde sempre. Mesma coisa com mortes. Cansei de morrer.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que pessoas como eu vivem monotonamente em transforma\u00e7\u00e3o radical. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o em termos, eu sei, mas somos paradoxos ambulantes. Nem era para estarmos vivos. Ali\u00e1s, poucos est\u00e3o vivos. Pouqu\u00edssimos passaram dos quarenta anos realmente vivos. Depois dos anos 1950s, com a populariza\u00e7\u00e3o de drogas psiqui\u00e1tricas potentes, alguns passaram dos quarenta, s\u00f3 que em estado vegetativo, mente morta.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o \u201cpessoas como eu\u201d? Tamb\u00e9m n\u00e3o sei. A psiquiatria mainstream anda cada vez menos consistente e suas categorias nosol\u00f3gicas remendadas e re-remendadas n\u00e3o funcionam mais. A maioria dos diagn\u00f3sticos feitos por essa galera deu em \u201cdesordem bipolar\u201d, como nos guias de taxonomia vegetal que davam para n\u00f3s, jovens maconheiros, no primeiro ano de faculdade. \u201cDava\u201d Papaver somniferum \u2013 wow! Ser\u00e1 que d\u00e1 certo comer?<\/p>\n<p>Gente como eu, seja l\u00e1 o que formos, n\u00e3o comp\u00f5e conjuntos homog\u00eaneos. Pouca coisa se pode falar de generaliz\u00e1vel sobre gente como eu. Uma delas \u00e9 que vivemos essas vidas de cores extremas, extremas transforma\u00e7\u00f5es, extremas transi\u00e7\u00f5es, como se fossem m\u00faltiplas encarna\u00e7\u00f5es em seq\u00fc\u00eancia, \u00a0sem desencarna\u00e7\u00f5es completas.<\/p>\n<p>De um ano para c\u00e1 eu venho fazendo cinq\u00fcenta anos. Acho que \u00e9 o nome desta \u00faltima encarna\u00e7\u00e3o. Cinq\u00fcenta tem um certo sabor de transgress\u00e3o mais c\u00ednico. Parece mais obsceno continuar viva, mais escandaloso ostentar ao mesmo tempo uma sexualidade escancarada e um sil\u00eancio sacana sobre amor, mais transgressivo mergulhar em alta performance \u2013 alta performance atl\u00e9tica, intelectual e tudo mais. Parece muito mais transgressivo e por isso irresistivelmente divertido.<\/p>\n<p>Me causa um prazer indescrit\u00edvel negar ao mundo e a todo mundo quase tudo, desde a conformidade com os estere\u00f3tipos mais f\u00e1ceis de desconstruir at\u00e9 expectativas que os mais perspicazes desconstrucionistas n\u00e3o desconfiavam ser pass\u00edveis de desconstru\u00e7\u00e3o. Me d\u00e1 um tes\u00e3o ligeiramente s\u00e1dico mostrar a caretice de cren\u00e7as quase sagradas e suj\u00e1-las de coco.<\/p>\n<p>\u00c9 delicioso ser autenticamente indiferente a qualquer chantagem, negar ajuda e n\u00e3o sentir nada. \u00c9 uma novidade interessant\u00edssima viver para os meus projetos, com M mai\u00fasculo e desfocar ligeiramente as outras pessoas: ele, ela, eles e mesmo n\u00f3s. \u00c9 um al\u00edvio n\u00e3o acreditar no que n\u00e3o faz sentido, n\u00e3o investir no que n\u00e3o quero e dizer um grande \u201cn\u00e3o\u201d gen\u00e9rico. \u201cN\u00e3o\u201d como default.\u00a0 Eu e a Tata: eu com cinq\u00fcenta, ela com dois. O mesmo sorriso triunfante depois do n\u00e3o, a mesma indiferen\u00e7a ao mundo com o <span style=\"text-decoration: underline;\">M<\/span>eu lego na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Quarenta \u00e9 eufemismo de \u201cmais velha\u201d e cinq\u00fcenta de \u201cvelha\u201d. Ser\u00e1 que eu tenho pena de quem acredita nisso? Vou ao resgate de um mundo vitimado por estere\u00f3tipos opressivos e castradores, que subtraem ao indiv\u00edduo sua autonomia, corporalidade e principalmente sexualidade ao longo dos marcos do amadurecimento?<\/p>\n<p>N\u00e3o! \u00c9 t\u00e3o il\u00f3gico que n\u00e3o merece pena, apenas desprezo: todo mundo \u00e9 \u201cmais velho\u201d que no instante anterior e, ou todo mundo \u00e9 velho, ou ningu\u00e9m \u00e9, do ponto de vista objetivo. Aceitar a constru\u00e7\u00e3o social que a representa\u00e7\u00e3o de \u201cvelho\u201d imp\u00f5e \u00e9 uma escolha. Minha enorme contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 sua desconstru\u00e7\u00e3o \u00e9 esse paragrafinho, aqui, e eu, Mar\u00edlia, que continuo a mesma recordista mundial de levantamento de peso, a mesma porra-louca cheia de piercings, a mesma mulher bonita, gostosa e escrachada (eu acho isso, s\u00e9rio mesmo, e acho Pattylene um bicho feio pra caralho) e a mesma filha-da-puta arrogante que n\u00e3o faz quest\u00e3o de se esfor\u00e7ar para enxergar os med\u00edocres ou fazer joguinhos simp\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Fazer cinq\u00fcenta \u00e9 isso: uma risada escrachada, obscena e sacana para o mundo e um beijo para o espelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dentro de dois dias eu completo cinq\u00fcenta anos. N\u00e3o sei ainda dizer o que isso significa, se \u00e9 que significa alguma coisa. 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