{"id":4998,"date":"2013-03-25T01:47:03","date_gmt":"2013-03-25T01:47:03","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/cinquenta-uns-balancos-metamorfoses-e-identidade-4\/"},"modified":"2013-03-25T01:47:03","modified_gmt":"2013-03-25T01:47:03","slug":"cinquenta-uns-balancos-metamorfoses-e-identidade-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/cinquenta-uns-balancos-metamorfoses-e-identidade-4\/","title":{"rendered":"Cinq\u00fcenta: uns balan\u00e7os \u2013 metamorfoses e identidade \u2013 4"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/id21.bmp\"><img decoding=\"async\" class=\" wp-image-1668 alignnone\" title=\"id2\" src=\"http:\/\/www.mariliacoutinho.com\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/id21.bmp\" alt=\"\" width=\"241\" height=\"163\" \/><\/a><\/p>\n<p>Como diz a Let\u00edcia Lanz, esses anivers\u00e1rios com n\u00fameros emblem\u00e1ticos existem para que a gente fa\u00e7a os balan\u00e7os e reflex\u00f5es devidas. A pergunta mais importante, neste quesito \u00e9: quem sou eu?<\/p>\n<p>Essa pergunta raramente \u00e9 feita desta maneira e, portanto, quase nunca merece uma resposta direta e s\u00f3bria (ainda que seja \u201ceu n\u00e3o sei\u201d). A resposta, vis\u00edvel ou n\u00e3o, varia no tempo. Talvez a \u00fanica coisa certa \u00e9 que mudamos sempre: somos seres em metamorfose permanente. Uns mais, outros menos. Seguramente eu perten\u00e7o \u00e0 categoria dos \u201cuns mais\u201d.<\/p>\n<p>A identidade \u00e9 uma das constru\u00e7\u00f5es mais fascinantes. Identidade n\u00e3o \u00e9 \u201cquem a gente realmente \u00e9\u201d porque isso n\u00e3o existe. A gente \u201crealmente\u201d n\u00e3o \u00e9 nada: somos um processfolio, um projeto em constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 vista pelos diversos campos do saber de maneira diferente. Em geral, tamb\u00e9m independente: a identidade cultural \u00e9 estudada por certos grupos de autores da antropologia. A identidade nacional \u00e9 um tema explorado pela ci\u00eancia pol\u00edtica.\u00a0 A forma\u00e7\u00e3o da identidade na esfera mais individual, pela psicologia (continuidade pessoal).<\/p>\n<p>Essa independ\u00eancia ontol\u00f3gica que a separa\u00e7\u00e3o disciplinar sugere n\u00e3o resiste a um olhar mais atento: a continuidade pessoal se estabelece contextualmente. Ningu\u00e9m forma sua personalidade e constr\u00f3i uma representa\u00e7\u00e3o se n\u00e3o em intera\u00e7\u00e3o com um universo de outros, desde suas rela\u00e7\u00f5es afetivas imediatas at\u00e9 os outros abstratos que constituem as hist\u00f3rias pessoais e a Hist\u00f3ria, a cultura e as sociedades em que nos organizamos.<\/p>\n<p>Assim, todos estes processos acontecem n\u00e3o s\u00f3 ao mesmo tempo como co-ocorrem. Separ\u00e1-los e observ\u00e1-los atrav\u00e9s de lentes que n\u00e3o se combinam \u00e9 chato. Dificulta o trabalho de quem estuda e de quem entende.<\/p>\n<p>Cria espa\u00e7o para discursos no m\u00ednimo question\u00e1veis sobre a necessidade de pertencimento \u201chard\u201d para a forma\u00e7\u00e3o de uma identidade (identidade nacional, regional, de torcida, de grupo).<\/p>\n<p>Em cada fase da nossa vida, um aspecto da identidade pode se tornar dominante. Por exemplo: eu tive uma filha em 1989. Portanto, ao conjunto de itens que define a minha identidade foi acrescentada a condi\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00e3e\u201d nesta data. Isso \u00e9 irrevers\u00edvel, de modo que hoje eu sou t\u00e3o m\u00e3e quanto dia 23 de junho de 1989. No entanto, seguramente essa condi\u00e7\u00e3o me define muito menos hoje do que ent\u00e3o. Se me perguntassem em julho de 1989:<\/p>\n<p>&#8211; vamos, responda bem r\u00e1pido: o que voc\u00ea \u00e9?<\/p>\n<p>Eu responderia de sopet\u00e3o<\/p>\n<p>&#8211; m\u00e3e<\/p>\n<p>E hoje? Se me fizessem a mesma pergunta?<\/p>\n<p>&#8211; atleta<\/p>\n<p>Essa pergunta aparece naquele quadrinho dos formul\u00e1rios da imigra\u00e7\u00e3o, das fichas de hotel e dos cadastros m\u00e9dicos, sob o \u00edtem \u201cprofiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Anteontem eu escrevi assim:<\/p>\n<p>Soci\u00f3loga \/ empres\u00e1ria \/ atleta<\/p>\n<p>Olhei e re-escrevi:<\/p>\n<p>Atleta \/ empres\u00e1ria \/ bi\u00f3loga<\/p>\n<p>N\u00e3o gostei e fiz uma \u00faltima:<\/p>\n<p>Atleta \/ professora \/ empres\u00e1ria<\/p>\n<p>\u201cProfiss\u00e3o\u201d \u00e9 diferente de \u201cocupa\u00e7\u00e3o\u201d e comp\u00f5e em propor\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel o nosso pacote identit\u00e1rio. Para os que sempre me acusaram (ou me elogiaram?) de ser workaholic, esse componente pesou desproporcionalmente. Acho que eu concordo.<\/p>\n<p>Minhas ocupa\u00e7\u00f5es remuneradas \u2013 porque eu tenho v\u00e1rias \u2013 s\u00e3o, nesta ordem: professora, consultora, atleta e t\u00e9cnica (\u201ccoach\u201d). Eu ganho para treinar e competir? Acredito que sim. Eu diria que a parceria que eu tenho com meus patrocinadores define \u201cganhar\u201d, ainda que seja em esp\u00e9cie. Inclusive eu consigo estimar o valor dessa remunera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 baixo. Ent\u00e3o, sim, uma das minhas ocupa\u00e7\u00f5es \u00e9 \u201catleta\u201d.<\/p>\n<p>E profiss\u00e3o? Profiss\u00e3o \u00e9 uma san\u00e7\u00e3o institucional para o exerc\u00edcio de alguma pr\u00e1tica codificada por um corpo de conhecimento formal. Essa defini\u00e7\u00e3o funciona para diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos at\u00e9 mesmo pr\u00e9-modernos. Assim, desde que a sociedade tenha esse corpo codificado de saber, um sistema organizado para inculc\u00e1-lo e um mecanismo de san\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o, existe uma profiss\u00e3o. A medicina \u00e9 uma profiss\u00e3o muito antiga neste sentido.<\/p>\n<p>Do s\u00e9culo XIX para c\u00e1, com a institucionaliza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias pr\u00e1ticas sociais antes exercidas segundo outras rela\u00e7\u00f5es sociais, apareceram os organismos de regulamenta\u00e7\u00e3o profissional. Esse processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o das profiss\u00f5es evoluiu e ainda evolui dentro dos s\u00e9culos XX e XXI.<\/p>\n<p>Profiss\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 o que se professa, algo com o qual se contrai um compromisso e se t\u00eam um v\u00ednculo de honra e fidelidade. Da\u00ed a famosa rela\u00e7\u00e3o entre medicina e sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p>E quais as minhas profiss\u00f5es? Veja a confus\u00e3o acima, provocada por espa\u00e7os em branco em formul\u00e1rios. Eu diria que s\u00e3o todas aquelas menos \u201cempres\u00e1ria\u201d, que, ironicamente, \u00e9 a que melhor responde a pergunta do formul\u00e1rio. Ningu\u00e9m necessita de uma forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica e san\u00e7\u00e3o por \u00f3rg\u00e3o de regulamenta\u00e7\u00e3o para ser empres\u00e1rio. Todas as demais se enquandram, inclusive atleta: atleta s\u00f3 \u00e9 atleta ap\u00f3s submeter-se ao fazer competitivo, coisa que requer no m\u00ednimo conhecer as regras, al\u00e9m do treinamento de t\u00e9cnicas e habilidades.<\/p>\n<p>A coisa que eu mais \u201cprofesso\u201d \u00e9 a minha fidelidade ao levantamento de peso. Tamb\u00e9m \u00e9 o que eu mais ensino, sobre o que eu mais escrevo e o que eu mais pratico.<\/p>\n<p>Eu diria com certa confian\u00e7a que \u201catleta\u201d \u00e9 o cerne da minha identidade.<\/p>\n<p>E os outros elementos? Est\u00e3o presentes, mas por um motivo ou outro n\u00e3o est\u00e3o em negrito. Minha identidade de g\u00eanero \u00e9 divertida, pensada, mas n\u00e3o \u00e9 ela, de fato, o foco da problematiza\u00e7\u00e3o. Identidade de g\u00eanero \u00e9 a praia do meu irm\u00e3o e da galera que eu acompanho com tanto fasc\u00ednio, da transgeneridade. Eles e elas (hoje tamb\u00e9m nomeados elxs ou el@s) \u00e9 que t\u00eam a identidade de g\u00eanero realmente em pauta, mais do que todo mundo. Estabelecem uma agenda de discuss\u00e3o para todos n\u00f3s atrav\u00e9s dessa intensa viv\u00eancia.<\/p>\n<p>Olho para outro lado e observo meu amigo Everson \u201c\u00cdndio\u201d, tamb\u00e9m conhecido como \u201c\u00cdndio\u201d, basicamente porque \u00e9 o \u00fanico \u00edndio do grupo. A identidade cultural dele \u00e9 o foco de sua auto-representa\u00e7\u00e3o. Ele vive conscientemente esta identidade o tempo todo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma viv\u00eancia identit\u00e1ria t\u00e3o sofrida e contradit\u00f3ria quanto a d@s amig@s transg\u00eaner@s, por motivos bem diferentes. Pessoas ind\u00edgenas nascem numa sociedade que as nega e lhes nega defini\u00e7\u00e3o. Uma pessoa ind\u00edgena \u00e9 pessoa por nega\u00e7\u00e3o: ela \u00e9 n\u00e3o-branca, ela n\u00e3o vive em bairros como os nossos e seu idioma original n\u00e3o \u00e9 o portugu\u00eas. \u00c9 complicado se construir nesse espa\u00e7o negativo. Por isso ocupa t\u00e3o integralmente a vida de quem precisa se construir como tal.<\/p>\n<p>Talvez a regra pr\u00e1tica para se saber o que \u00e9 o foco da identidade das pessoas seja mesmo esperar que elas estejam distra\u00eddas e gritar no ouvido delas:<\/p>\n<p>&#8211; R\u00c1PIDO! RESPONDA IMEDIATAMENTE, O QUE \u00c9 VOC\u00ca?<\/p>\n<p>(N\u00e3o \u201cquem\u201d, cuidado: se voc\u00ea perguntar \u201cquem\u201d ela assusta e responde o nome)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Umas leituras e links:<\/p>\n<p>WHAT IS IDENTITY (AS WE NOW USE THE WORD)?<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.stanford.edu\/~jfearon\/papers\/iden1v2.pdf\">http:\/\/www.stanford.edu\/~jfearon\/papers\/iden1v2.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.immi.se\/intercultural\/nr10\/ojha.htm\">http:\/\/www.immi.se\/intercultural\/nr10\/ojha.htm<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.mcli.dist.maricopa.edu\/events\/afc99\/articles\/heartof.pdf\">http:\/\/www.mcli.dist.maricopa.edu\/events\/afc99\/articles\/heartof.pdf<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Identity_formation\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Identity_formation<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Identity\">http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Identity<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como diz a Let\u00edcia Lanz, esses anivers\u00e1rios com n\u00fameros emblem\u00e1ticos existem para que a gente fa\u00e7a os balan\u00e7os e reflex\u00f5es devidas. 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