{"id":4999,"date":"2013-03-25T13:05:38","date_gmt":"2013-03-25T13:05:38","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/sindrome-de-moises\/"},"modified":"2013-03-25T13:05:38","modified_gmt":"2013-03-25T13:05:38","slug":"sindrome-de-moises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/sindrome-de-moises\/","title":{"rendered":"S\u00edndrome de Mois\u00e9s"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/3\/3d\/Rembrandt_-_Moses_with_the_Ten_Commandments_-_Google_Art_Project.jpg\/480px-Rembrandt_-_Moses_with_the_Ten_Commandments_-_Google_Art_Project.jpg\" alt=\"\" width=\"202\" height=\"251\" \/><\/p>\n<p>Feliz Pesach, P\u00e1scoa e Ostara para todo mundo.<\/p>\n<p>Ontem conversei com um amigo que t\u00eam me fornecido rico substrato para reflex\u00e3o na forma de escolhas que me incomodam. Obviamente incomodado, num certo ponto da conversa ele disse:<\/p>\n<p>&#8211; eu tenho essa ben\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o de ter nascido l\u00edder. As pessoas me escutam<\/p>\n<p>Eu estava t\u00e3o mais preocupada em demonstrar a fal\u00e1cia l\u00f3gica do argumento militante do \u201cbarco\u201d que ele n\u00e3o podia abandonar, que me escapou o fato de que ele se via timoneiro do mesmo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que esse \u00e9 um componente fundamental do militantismo que ando combatendo. Uma parte dos ativistas, como argumentei anteontem, o \u00e9 por culpa. Outra parte o \u00e9 porque \u00e9 uma estrat\u00e9gia de um segmento med\u00edocre de qualquer campo de alcan\u00e7ar poder sem legitimidade ou compet\u00eancia concorrencial (esse argumento n\u00e3o \u00e9 meu, \u00e9 do Bourdieu).<\/p>\n<p>Tanto uns quanto outros passam a vida inteira sem condi\u00e7\u00f5es de olhar para o espelho e enxergar a origem de sua motiva\u00e7\u00e3o para o papel que assumiram. Obviamente, a dor que isso causa n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel. Tirando a origem \u201cde rua\u201d da culpa e seus desdobramentos, restam os buracos e horrores da pr\u00f3pria alma.<\/p>\n<p>Pensei que a minha ferida secaria um dia, mas n\u00e3o \u00e9 verdade. O m\u00e1ximo que consegui foi reconhecer que \u00e9 uma ferida, e n\u00e3o uma virtude. Eu vim com culpa de f\u00e1brica. Fui uma concep\u00e7\u00e3o indesejada e depois uma crian\u00e7a indesejada. Fui um fardo na vida dos meus pais. Passei a vida tentando justificar meu direito a existir. Se isso custasse abrir m\u00e3o de tudo para me tornar genericamente \u00fatil diante do argumento marxista do socialismo ou barb\u00e1rie, que fosse. Essa culpa original deu in\u00fameros filhotinhos, como os v\u00e1rios modelos de amor. Por exemplo ser \u00fatil para impulsionar a causa de algu\u00e9m ou algu\u00e9ns onde afeto e identifica\u00e7\u00e3o se misturam. Impulsionei \u201ccausas\u201d de pessoas que amei muito para, sem saber, compensar um mal que ainda faria contra eles, como se a \u00fanica coisa que eu pudesse fazer fosse isso. N\u00e3o surpreendentemente, foram exatamente estas pessoas que eu mais machuquei e cujas causas eu mais comprometi.<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria: qualquer forma de mentira para si mesmo, mesmo a mais benigna, mesmo a mais inevit\u00e1vel, d\u00e1 merda.<\/p>\n<p>O argumento de que viemos ao mundo com uma ou outra miss\u00e3o \u00e9 perigoso ao cubo. Assim, abrimos m\u00e3o de olhar esses horrores internos e \u201cnaturalizamos\u201d algo que \u00e9 inteiramente constru\u00eddo. O exemplo cl\u00e1ssico \u00e9 o argumento do meu amigo de que ele nasceu com essa maldi\u00e7\u00e3o-barra-ben\u00e7\u00e3o de ser l\u00edder e, portanto, era obriga\u00e7\u00e3o dele liderar um grupo de atletas em dire\u00e7\u00e3o a&#8230; a que? Cana\u00e3?<\/p>\n<p>Chamo isso de s\u00edndrome de Mois\u00e9s.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s \u00e9 a figura m\u00edtica e fundacional das religi\u00f5es de origem judaica. Sua hist\u00f3ria \u00e9 o fio condutor do script da mais importante passagem do Exodus. Mois\u00e9s \u00e9 a crian\u00e7a judia nascida em plena escravid\u00e3o de seu povo no Egito. Quando o fara\u00f3, temeroso do potencial de revolta dos judeus, mandou matar todos os rec\u00e9m-nascidos, a m\u00e3e de Mois\u00e9s colocou-o num barquinho improvisado no Nilo, de onde ele foi pescado pela fam\u00edlia real eg\u00edpcia. Criado como eg\u00edpcio nobre, ignorante de sua verdadeira identidade, eventualmente Mois\u00e9s teria sinais da mesma. Primeiro, algo nele o fez sentir revolta contra o tratamento dado aos escravos judeus, algo pouco esperado de um aristocrata eg\u00edpcio. Como resultado de sua rea\u00e7\u00e3o nada bem vinda (matar o mal feitor), Mois\u00e9s se afastou\/foi afastado da fam\u00edlia e sociedade eg\u00edpcias. Foi ent\u00e3o adotado pela segunda vez, agora por um cl\u00e3 de pastores judeus onde casou-se e teve um filho. Neste momento, j\u00e1 no contexto de sua identidade \u201cnatural\u201d, Mois\u00e9s recebeu uma mensagem de Deus para desempenhar o conhecido papel de l\u00edder dos judeus na liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Mois\u00e9s liderou seu povo numa rota pontuada por riqu\u00edssimas imagens simb\u00f3licas, como a abertura do mar e os quarenta anos vagando pelo deserto em busca da terra prometida.<\/p>\n<p>Mois\u00e9s \u00e9 um mito fundador e, nessa qualidade, nos fala de verdades muito \u00edntimas. A n\u00e3o ser que sejamos fundamentalistas, a leitura deste belo mito \u00e9 t\u00e3o libertadora quanto sua hist\u00f3ria. O mito n\u00e3o fala de nenhuma miss\u00e3o para com terceiros e muito menos de escravid\u00e3o social. O mito nos fala das pris\u00f5es internas e da possibilidade ou esperan\u00e7a de liderarmos nossa pr\u00f3pria alma para fora destes grilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Cada um de n\u00f3s pode ser seu pr\u00f3prio Mois\u00e9s e liberar a si mesmo da escravid\u00e3o das dores cuja origem se desconhece. Fala tamb\u00e9m da possibilidade de conhecer cada vez mais os elementos escondidos da nossa identidade e, com este conhecimento, se assenhorar de nosso processo, liderando nosso pr\u00f3prio esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Eu poderia discorrer infinitamente sobre as possibilidades interpretativas deste belo mito, coisa que grandes te\u00f3logos e psicanalistas j\u00e1 fizeram com muito mais compet\u00eancia.<\/p>\n<p>O que importa para mim \u00e9 que ningu\u00e9m nasce com nenhuma miss\u00e3o de liderar. Liderar \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o que se faz em fun\u00e7\u00e3o de escolhas racionais ou pira\u00e7\u00f5es e n\u00f3ias, nome gen\u00e9rico para os tais buracos da alma, tamb\u00e9m conhecidos como neuroses.<\/p>\n<p>Quando eu tinha cinco anos, vinha na porcaria do relat\u00f3rio da merda da escolinha um diagn\u00f3stico de que eu era uma \u201cl\u00edder nata\u201d. Mal sabia a professorinha que ela tinha lido diretamente as piores dores de uma crian\u00e7a aterrorizada e traduzido em forma de san\u00e7\u00e3o a uma senten\u00e7a que eu j\u00e1 tinha recebido.<\/p>\n<p>Meu amigo n\u00e3o nasceu l\u00edder, eu n\u00e3o nasci l\u00edder e nem tampouco o homem cujo lideran\u00e7a eu tentei tanto apoiar que destru\u00ed seus sonhos, permiti que fossem destru\u00eddos ou sei l\u00e1. Ningu\u00e9m pode ser feliz administrando buracos \u2013 s\u00f3 machucamos e somos machucados.<\/p>\n<p>Que essa Pesach nos liberte a todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Feliz Pesach, P\u00e1scoa e Ostara para todo mundo. Ontem conversei com um amigo que t\u00eam me fornecido rico substrato para reflex\u00e3o na forma de escolhas que me incomodam. Obviamente incomodado, num certo ponto da conversa ele disse: &#8211; eu tenho essa ben\u00e7\u00e3o ou maldi\u00e7\u00e3o de ter nascido l\u00edder. 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