{"id":5043,"date":"2013-06-01T16:50:34","date_gmt":"2013-06-01T16:50:34","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/esporte-multi-trans-e-inter-disciplinaridade-um-recado-para-a-abrace\/"},"modified":"2013-06-01T16:50:34","modified_gmt":"2013-06-01T16:50:34","slug":"esporte-multi-trans-e-inter-disciplinaridade-um-recado-para-a-abrace","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/esporte-multi-trans-e-inter-disciplinaridade-um-recado-para-a-abrace\/","title":{"rendered":"Esporte: multi, trans e inter-disciplinaridade \u2013 um recado para a ABRACE"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/farm5.staticflickr.com\/4154\/5016075395_dd9af38ff4_o.jpg\" width=\"346\" height=\"259\" \/><\/p>\n<p>Fui convidada daquela maneira coletiva com que todos os profissionais fomos a participar \u201clato sensu\u201d da ABRACE \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ci\u00eancias do Esporte.<\/p>\n<p>Deixei l\u00e1 atr\u00e1s uma primeira resposta de felicita\u00e7\u00f5es, por\u00e9m indagando sobre a aus\u00eancia, na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do objeto desta entidade, das dimens\u00f5es sociais, culturais, hist\u00f3rica e psicol\u00f3gica do esporte. Pelo menos os primeiros textos deixavam cristalinamente claro que o objetivo era integrar a medicina esportiva, nutri\u00e7\u00e3o esportiva, fisiologia esportiva, fisioterapia, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica e nada mais. N\u00e3o tive resposta.<\/p>\n<p>Meu coment\u00e1rio tem uma perspectiva metodol\u00f3gica e outra pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0 metodol\u00f3gica primeiro. Como obviamente tudo \u00e9 interfaceado, a primeira coisa \u00e9 me qualificar como interlocutor neste di\u00e1logo. Afinal, voc\u00eas t\u00eam direito e saber quem \u00e9 esta pessoa que fala com voc\u00eas: minha forma\u00e7\u00e3o em gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 em biologia e qu\u00edmica, meu mestrado em bioqu\u00edmica e ecologia qu\u00edmica e meu doutorado em sociologia da ci\u00eancia \u2013 todos na Universidade de S\u00e3o Paulo. Meu pos-doc foi na Virginia Tech, em \u201cscience studies\u201d (ou social studies of science). Depois disso fui professora da Universidade da Florida em pol\u00edtica cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, com foco nas ci\u00eancias da vida, no Centro de Estudos Latinoamericanos. Finalmente, migrei para as ci\u00eancias do esporte, onde publiquei muitos artigos, dois livros e onde me associei, agora, ao Laborat\u00f3rio de Psico-sociologia do esporte.<\/p>\n<p>A cereja deste bolo subjetivo \u00e9 que eu tamb\u00e9m sou atleta de alto rendimento em levantamento de peso, mais especificamente a \u00fanica recordista mundial de todas as federa\u00e7\u00f5es que o pa\u00eds j\u00e1 teve (ou seja: eu j\u00e1 estive de todos os lados desta conversa).<\/p>\n<p>Um dos temas sobre os quais publiquei e ensinei bastante diz respeito a tais cruzamentos conceituais e metodol\u00f3gicos ao longo da hist\u00f3ria das ci\u00eancias, que hoje recebem nomes como inter, trans e multi-disciplinaridade. Nem sempre foi assim. No passado n\u00e3o t\u00e3o remoto, estes cruzamentos n\u00e3o eram bem-vindos. No entanto, t\u00e3o importante foram que deram origem a novas ci\u00eancias. <a href=\"http:\/\/webnotes.sct.embrapa.br\/pdf\/cct\/v15\/cc15n302.pdf\">A biologia molecular nasceu de um tal cruzamento<\/a>, quando Delbruck, um f\u00edsico n\u00e3o aceito na gen\u00e9tica tradicional da Cal Tech, inaugurou de maneira espetacular o que conhecemos hoje como biologia molecular, atrav\u00e9s do famoso \u201cphage group\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, depois de muito se discutir sobre os novos modos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento (aproveitem e leiam, <a href=\" http:\/\/www.schwartzman.org.br\/simon\/gibbons.pdf \">o livro<\/a> est\u00e1 na \u00edntegra), sabemos que nas \u00faltimas d\u00e9cadas houve uma migra\u00e7\u00e3o tanto institucional como propriamente epistemol\u00f3gica no mesmo em dire\u00e7\u00e3o a sistemas mais difusos, \u201cproblem oriented\u201d e, portanto, pouco obsessivos quanto a fronteiras disciplinares ou ao status cient\u00edfico de cada componente de sua constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O esporte \u00e9 um caso quase que paradigm\u00e1tico, \u201cde livrinho\u201d. N\u00e3o h\u00e1 como sequer configurar um problema no esporte sem o aporte de diferentes disciplinas. O problema \u00e9 essa car\u00eancia metodol\u00f3gica brasileira que faz com que parte dos praticantes de um grupo de disciplinas sequer enxergue a cientificidade do outro. No caso, os praticantes das ci\u00eancias biol\u00f3gicas ligadas ao esporte (medicina, nutri\u00e7\u00e3o, fisioterapia e educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica) em rela\u00e7\u00e3o aos das ci\u00eancias sociais, humanas e psicologia.<\/p>\n<p>O resultado disso s\u00e3o enunciados que beiram o rid\u00edculo, pois n\u00e3o conseguem entender que certos fen\u00f4menos s\u00e3o socialmente constru\u00eddos e \u00e9 f\u00fatil um fisiologista tentar normatizar e impor crit\u00e9rios sobre os mesmos.\u00a0 Atletas de esportes por categoria de peso submetem-se a regimes potencialmente perigosos de \u201ccutting weight\u201d. Verdade. Vem um fisiologista e \u201cprop\u00f5e\u201d que se mude o hor\u00e1rio para 10 minutos antes da luta ou levantamento. Ora, senhores, faltou cursar antropologia 202 e psicologia I na gradua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estamos falando de Leishmania donovani, e sim da PESSOA atleta. Antes de prescrever uma mudan\u00e7a de regras autorit\u00e1ria, que ser\u00e1 burlada de maneira a causar muito mais dano \u00e0 PESSOA atleta, \u00e9 preciso consultar os colegas do outro lado do abismo disciplinar: psic\u00f3logos, antrop\u00f3logos e soci\u00f3logos.<\/p>\n<p>Tenho dezenas de exemplos a dar nesta linha, mas prefiro agora me dedicar ao segundo tema deste artigo: a perspectiva pol\u00edtica. Como \u00e9 que voc\u00eas pretendem obter o apoio de todos os profissionais com forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e CIENTISTAS do esporte se, de sa\u00edda, excluem TODAS as disciplinas das ci\u00eancias sociais, humanas e psicologia da jogada? Acham mesmo que estes profissionais v\u00e3o respeitar as a\u00e7\u00f5es de voc\u00eas?<\/p>\n<p>Com todo respeito, n\u00e3o foi inteligente fazer isso. Minha sugest\u00e3o \u00e9 que se d\u00ea um passo atr\u00e1s e se tente dialogar com quem pratica estas outras disciplinas e se escute o que elas t\u00eam a dizer sobre o objeto ao qual todos n\u00f3s nos dedicamos: o esporte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui convidada daquela maneira coletiva com que todos os profissionais fomos a participar \u201clato sensu\u201d da ABRACE \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Ci\u00eancias do Esporte. Deixei l\u00e1 atr\u00e1s uma primeira resposta de felicita\u00e7\u00f5es, por\u00e9m indagando sobre a aus\u00eancia, na pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do objeto desta entidade, das dimens\u00f5es sociais, culturais, hist\u00f3rica e psicol\u00f3gica do esporte. 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