{"id":5066,"date":"2013-07-04T14:43:30","date_gmt":"2013-07-04T14:43:30","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-imperfeicao-da-materia\/"},"modified":"2013-07-04T14:43:30","modified_gmt":"2013-07-04T14:43:30","slug":"a-imperfeicao-da-materia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-imperfeicao-da-materia\/","title":{"rendered":"A imperfei\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.mlahanas.de\/Greeks\/Arts\/Images\/DoryphorosGS.jpg\" width=\"515\" height=\"330\" \/><\/p>\n<p>\u201cMeu deus, meu deus, meu deus, que coisa perfeita\u201d, dizia eu quando vi aquele beb\u00ea pela primeira vez. Hoje, passados 24 anos, penso, mas n\u00e3o digo mais. N\u00e3o digo porque ela se incomoda com minha incapacidade em reconhecer suas supostas imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Onde est\u00e3o as imperfei\u00e7\u00f5es da mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Olho para mim no espelho e \u00e0s vezes vejo uma mulher bel\u00edssima, \u00e0s vezes algo que n\u00e3o sei classificar como n\u00e3o belo ou o que. Entre a bel\u00edssima e o \u201co qu\u00ea\u201d, um gradiente de percep\u00e7\u00f5es, todas elas com reconhecimento de marcas e peculiaridades. Seriam estas as imperfei\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Muitas estrias na barriga, peito e coxas. S\u00f3 notei porque li algo sobre estrias, ent\u00e3o fui buscar as minhas. Vejo nas amigas mais morenas as estrias com mais evid\u00eancia. Por mais que eu tente, n\u00e3o consigo me colocar no lugar de quem v\u00ea nelas um problema, uma nega\u00e7\u00e3o qualquer da beleza.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve estar pensando que sou uma dessas relativistas radicais que pontifica que nada ou tudo \u00e9 imperfeito, tudo \u00e9 constru\u00e7\u00e3o e portanto nada importa. N\u00e3o: eu vejo imperfei\u00e7\u00f5es, sim. O que seria uma nega\u00e7\u00e3o da beleza, uma imperfei\u00e7\u00e3o? Espinha no nariz. Daquelas que aparece no dia em que a gente vai ter o primeiro encontro consensualmente rom\u00e2ntico com algu\u00e9m com que se viveu essa transi\u00e7\u00e3o entre o neutro e o rom\u00e2ntico. N\u00e3o tem outro nome para uma espinha vermelha e inflamada no nariz: \u00e9 <b><i>feia<\/i><\/b>. E \u00e9 um problema, pois quanto mais se olha para ela no espelho, mais consciente se fica da sua exist\u00eancia. Uma hora fica insuport\u00e1vel, a paci\u00eancia com o creminho secante se vai e a gente vai l\u00e1 e aperta a espinha. Pronto: agora n\u00e3o temos s\u00f3 uma espinha, temos uma \u00e1rea de 1,5cm de pele vermelha inflamada. Inferno da imperfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, o mesmo nariz que me enlouquece se tiver uma espinha \u00e9 totalmente aceit\u00e1vel por ser torto. Em 2007 caiu uma barra com 110kg no meu nariz, por sorte s\u00f3 quebrou o dito cujo, que ficou torto. O cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico me perguntou se eu queria oper\u00e1-lo. Perguntei duas coisas: a primeira era sobre o tempo de recupera\u00e7\u00e3o. A segunda era sobre se eu respiraria melhor. Ele me disse que o tempo era grande, superior a um m\u00eas. Um m\u00eas sem treinar? Impens\u00e1vel. Meu c\u00e9rebro n\u00e3o suportaria. A segunda resposta definiu minha decis\u00e3o: n\u00e3o, eu n\u00e3o respiraria melhor porque eu j\u00e1 tinha um grande desvio de septo antes da fratura.<\/p>\n<p>Fiquei essa mulher de nariz torto, estrias e nem por isso menos bel\u00edssima \u00e0s vezes, \u00e0s vezes \u201co que\u201d.<\/p>\n<p>Os homens que mais me enlouqueceram de desejo s\u00e3o perfeitos. Eles mesmos se acham gordos \u2013 eu os acho perfeitos. Eles mesmos j\u00e1 tiveram seus momentos de se importar com a falta de cabelo \u2013 eu acho suas cabe\u00e7as carecas perfeitas. Eu poderia prosseguir na lista do que eles mesmos e outros desqualificam, v\u00eaem imperfei\u00e7\u00e3o onde eu vejo apelo e beleza. Seria isso express\u00e3o da famosa m\u00e1xima de que o amor \u00e9 cego? N\u00e3o, pois o amor que j\u00e1 tive por dois deles n\u00e3o existe mais e os demais n\u00e3o s\u00e3o sujeitos deste tipo de afeto meu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o penso na constru\u00e7\u00e3o social do belo. Embora a constru\u00e7\u00e3o do belo seja universal, ela \u00e9 t\u00e3o cultural quanto qualquer outro universal cultural. Foi essa constata\u00e7\u00e3o que me deu um pouco mais de paz quanto \u00e0 minha angustiante neutralidade. Algu\u00e9m que foi desenraizado demais, vezes demais e por tempo demais nunca mais consegue pertencer plenamente a nada. Vira um outsider quase que absoluto. Busca no olhar do outro algum reconhecimento, em geral sem sucesso.<\/p>\n<p>A perfei\u00e7\u00e3o do outro vira um discurso ideol\u00f3gico e normativo e a imperfei\u00e7\u00e3o, sua humanidade.<\/p>\n<p>Continuo n\u00e3o gostando de espinha no nariz. O meu belo, no entanto, \u00e9 o imperfeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMeu deus, meu deus, meu deus, que coisa perfeita\u201d, dizia eu quando vi aquele beb\u00ea pela primeira vez. Hoje, passados 24 anos, penso, mas n\u00e3o digo mais. 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