{"id":5077,"date":"2013-07-24T03:47:39","date_gmt":"2013-07-24T03:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/esportizacao-do-jogo-ao-esporte\/"},"modified":"2013-07-24T03:47:39","modified_gmt":"2013-07-24T03:47:39","slug":"esportizacao-do-jogo-ao-esporte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/esportizacao-do-jogo-ao-esporte\/","title":{"rendered":"Esportiza\u00e7\u00e3o: do jogo ao esporte"},"content":{"rendered":"<h2><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone\" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.helagotland.se\/img\/2012\/1\/8\/7403957.jpg\" width=\"240\" height=\"239\" \/><\/h2>\n<h2>Jogos, esporte e esporte moderno: colocando pontos nos i\u2019s<\/h2>\n<p>Talvez pelo benef\u00edcio da maturidade, eu n\u00e3o me caso. N\u00e3o me caso com modelos, n\u00e3o me caso com teorias, nem com ideologias ou religi\u00f5es \u2013 nada disso. Isso evita sectarismo e cegueira. No entanto, \u00e9 preciso negociar par\u00e2metros m\u00ednimos de entendimento de termos e conceitos para que se possa dialogar com um \u201coutro\u201d. Comunicar uma id\u00e9ia ou tese a muitos, ent\u00e3o, requer que antes de mais nada tenhamos a serenidade para admitir que raramente h\u00e1 consenso quanto a eles.<\/p>\n<p>O tema desta discuss\u00e3o \u00e9 um convite a essa armadilha comunicativa e, se n\u00e3o tomarmos alguns cuidados b\u00e1sicos, logo estaremos todos berrando numa Babel esportiva. Por \u201cesporte\u201d, \u201cjogo\u201d, \u201cregra\u201d ou \u201cfedera\u00e7\u00e3o\u201d, cinco pessoas podem estar se referindo a coisas inteiramente diferentes e n\u00e3o-tradut\u00edveis, usando exatamente as mesmas palavras.<\/p>\n<p>Guttman (2007, p.1-3) define esporte dentro do contexto dos conceitos de brincadeira (play), jogo (game) e disputa (contest). A brincadeira seria uma express\u00e3o humana universal de atividade \u201cautot\u00e9lica\u201d, ou seja, governada por seus pr\u00f3prios prop\u00f3sitos. As brincadeiras podem ser espont\u00e2neas ou organizadas. Uma brincadeira espont\u00e2nea seria o ato de jogar pedrinhas num lago. Brincadeiras organizadas, determinadas por c\u00f3digos ou regras, seriam brincar de casinha, palavras-cruzadas, jogo da mem\u00f3ria, bolinha de gude ou basquete. Para Guttman, as brincadeiras organizadas s\u00e3o \u201cjogos\u201d. Os jogos, por sua vez, podem ser competitivos ou n\u00e3o competitivos. Brincar de casinha ou palavras-cruzadas n\u00e3o s\u00e3o competitivos, enquanto jogo da mem\u00f3ria, bolinha de gude ou basquete s\u00e3o. Os jogos competitivos seriam as disputas (contests), os quais, segundo o autor, podem ser divididos entre aqueles que dependem de habilidades f\u00edsicas e os que n\u00e3o dependem. O esporte seria a disputa que depende de habilidades f\u00edsicas. No modelo de Guttman, o jogo da mem\u00f3ria (assim como o xadrez) n\u00e3o seriam esportes, enquanto a bolinha de gude e o basquete seriam.<\/p>\n<p>\u00c9 um modelo muito interessante, mas problem\u00e1tico: o primeiro problema que tenho certeza que o leitor identificou \u00e9 o enquadramento do xadrez. \u201cMas o xadrez n\u00e3o \u00e9 inclusive um esporte ol\u00edmpico??\u201d, pergunta, perplexo. Sim, \u00e9. Guttman n\u00e3o concorda, o Comit\u00ea Ol\u00edmpico sim. Guttman \u00e9 um historiador, o Comit\u00ea Ol\u00edmpico \u00e9 o \u00d3rg\u00e3o de Governan\u00e7a<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Marilia\/Documents\/@MARILIA\/SYNCHRONIZER\/May05\/@constantUPD\/publications\/Atletas%20do%20Brasil\/Do%20jogo%20ao%20esporte%20v2.doc#_edn1\">[i]<\/a> M\u00e1ximo do esporte moderno \u2013 o Comit\u00ea Ol\u00edmpico ganha, na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n<p>H\u00e1 um segundo problema menos \u00f3bvio, mas mais interessante no que diz respeito ao tema de nossa discuss\u00e3o. E o jogo de bolinha de gude? Tem regras mais ou menos definidas (mas que precisam ser negociadas pela molecada a cada partida), depende de habilidades f\u00edsicas e \u00e9 competitivo. Quem ganhar \u00e9 inclusive premiado, em geral, com as bolinhas de gude dos demais jogadores. Jogo de bolinha de gude \u00e9 esporte? Guttman possivelmente diria que sim, mas o bom-senso e boa parte dos soci\u00f3logos e historiadores do esporte diriam que n\u00e3o<a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Marilia\/Documents\/@MARILIA\/SYNCHRONIZER\/May05\/@constantUPD\/publications\/Atletas%20do%20Brasil\/Do%20jogo%20ao%20esporte%20v2.doc#_edn2\">[ii]<\/a>. Ao contr\u00e1rio do basquete, o jogo de bolinha de gude n\u00e3o foi INSTITUCIONALIZADO.<\/p>\n<p>Os mais radicais dizem peremptoriamente que se n\u00e3o est\u00e1 institucionalizado, n\u00e3o \u00e9 ESPORTE, ponto final. Isso excluiria todas as formas de jogo precursoras do que hoje conhecemos como lan\u00e7amento de dardo, corrida e outras pr\u00e1ticas que t\u00eam registros antigos, at\u00e9 mesmo nos jogos Pan-Hel\u00eanicos.<\/p>\n<p>Para dar mais precis\u00e3o e rigor \u00e0 discuss\u00e3o, e ao mesmo tempo silenciar o sectarismo, vou me referir ao \u201cesporte moderno\u201d como jogo institucionalizado.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es que justificaram este debate sobre a natureza, estado atual e contradi\u00e7\u00f5es das federa\u00e7\u00f5es esportivas pertencem ao contexto do esporte moderno, plenamente institucionalizado e inserido numa realidade econ\u00f4mica complexa. Todos os problemas que emergem destas contradi\u00e7\u00f5es \u2013 representatividade, democracia participativa, profissionaliza\u00e7\u00e3o, amadorismo e apoio financeiro, papel social do esporte de alto rendimento, entre outros \u2013 pertencem a este cen\u00e1rio, e n\u00e3o \u00e0s formas precursoras.<\/p>\n<p>No entanto, assim como n\u00e3o se podem compreender os conflitos e jogos de interesses envolvidos nas guerras federativas ou na comercializa\u00e7\u00e3o de eventos e profissionaliza\u00e7\u00e3o de atletas fora desta realidade moderna, n\u00e3o se podem entender parte das contradi\u00e7\u00f5es individuais dos praticantes com tudo isso sem considerar a milenar hist\u00f3ria das pr\u00e1ticas precursoras do esporte moderno. O ethos de honra e disciplina, fraternidade e devo\u00e7\u00e3o herdados de tradi\u00e7\u00f5es marciais ou guerreiras ocidentais batem de frente com boa parte da l\u00f3gica pol\u00edtica, econ\u00f4mica e institucional do esporte moderno.<\/p>\n<p>Esse conflito de forma alguma expressa um passado \u201cbom\u201d e um presente \u201cruim\u201d e nem vice-versa. No entanto, os valores tradicionais fazem parte da identidade do praticante e da pr\u00e1tica \u2013 que modernamente se transformou em esporte. Peguemos, por exemplo, as artes marciais asi\u00e1ticas. O ber\u00e7o original da maioria delas \u00e9 uma China antiga imersa em mitos, da qual temos conhecimento atrav\u00e9s de registros arqueol\u00f3gicos e relatos escritos quase dois mil anos depois dos eventos e situa\u00e7\u00f5es. Durante estes primeiros mil\u00eanios e at\u00e9 boa parte da era crist\u00e3, as artes marciais eram pr\u00e1ticas transmitidas por linhagem familiar e mon\u00e1stica, regidas por c\u00f3digos de \u00e9tica muito influenciados pelas religi\u00f5es locais (budismo, zen-budismo, tao\u00edsmo e xinto\u00edsmo). No s\u00e9culo XX elas passaram por grandes transforma\u00e7\u00f5es, no compasso da turbul\u00eancia pol\u00edtica atravessada pela China e outros pa\u00edses asi\u00e1ticos. Tornaram-se pr\u00e1ticas culturais de \u201ccoes\u00e3o nacional\u201d, depois ferramentas de combate desarmado de organismos militares at\u00e9 chegar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de ESPORTES DE COMBATE. Sejamos sinceros: \u00e9 imposs\u00edvel (e indesej\u00e1vel) que estes modernos esportes de combate n\u00e3o tragam marcas profundas de seu passado tradicional. Mesmo que o jovem atleta de tae-kwon-do, hoje um esporte ol\u00edmpico, n\u00e3o fa\u00e7a a mais remota id\u00e9ia do que sejam as guerras end\u00eamicas que varreram a \u00c1sia quando seu esporte foi formado e muito menos tenha no\u00e7\u00f5es de disciplina mon\u00e1stica, em sua forma\u00e7\u00e3o existem elementos que remontam a esta origem. A retid\u00e3o moral, as virtudes variadas, a devo\u00e7\u00e3o filial ao mestre acabam se chocando contra a l\u00f3gica dos jogos de interesses federativos, satisfa\u00e7\u00e3o do patrocinador e profissionaliza\u00e7\u00e3o (ou \u201cquasi\u201d-profissionaliza\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado com a profissionaliza\u00e7\u00e3o. In\u00fameros estudiosos mostraram, atrav\u00e9s de cuidadosas pesquisas hist\u00f3ricas, como a profissionaliza\u00e7\u00e3o levou \u00e0 democratiza\u00e7\u00e3o dos esportes. Antes privil\u00e9gio de aristocratas e burgueses \u2013 os \u201camadores\u201d, que podiam praticar por \u201camor\u201d e sem remunera\u00e7\u00e3o os mesmo por vantajosa condi\u00e7\u00e3o familiar -, estes esportes passaram a ser praticados por atletas vindos das classes trabalhadoras quando foram remunerados.<\/p>\n<p>Assim como a institucionaliza\u00e7\u00e3o, a profissionaliza\u00e7\u00e3o do esporte \u00e9 um fen\u00f4meno do s\u00e9culo XIX e XX.<\/p>\n<p>As federa\u00e7\u00f5es esportivas, ou \u201corganismos de governan\u00e7a do desporto\u201d, s\u00e3o os cen\u00e1rios organizativos e f\u00f3runs onde desembocam todos os interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos que d\u00e3o forma ao esporte moderno. Nem boas, nem ruins, as federa\u00e7\u00f5es s\u00e3o elementos constitutivos do esporte moderno. Assim como sua origem tem uma hist\u00f3ria documentada e narr\u00e1vel, sua din\u00e2mica pode ser analisada segundo as for\u00e7as em opera\u00e7\u00e3o. A exist\u00eancia de federa\u00e7\u00f5es \u00fanicas por esporte naqueles que s\u00e3o ol\u00edmpicos tem uma origem e um mecanismo de controle. A multiplicidade de federa\u00e7\u00f5es em outros esportes obedece a din\u00e2micas igualmente analis\u00e1veis.<\/p>\n<p>Como a neutralidade \u00e9 t\u00e3o hip\u00f3crita quanto ignorar a complexidade estrutural da realidade, opto por explicitar minha tese e tamb\u00e9m meus princ\u00edpios normativos. A tese \u00e9 a de que, da mesma forma que um conjunto de determinantes hist\u00f3ricos levaram a forma\u00e7\u00e3o de estruturas de governan\u00e7a no esporte (federa\u00e7\u00f5es) de car\u00e1ter monopol\u00edstico e unificado at\u00e9 os anos 1950-1980, outros tantos fatores de uma nova realidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica, caracter\u00edsticas da globaliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea, contribuem para a diversifica\u00e7\u00e3o e diferencia\u00e7\u00e3o das formas organizativas. Nenhuma das duas \u00e9 intrinsecamente boa nem ruim: ambas cont\u00e9m elementos de perversidade e vantagens relativas a este ou aquele ator do cen\u00e1rio esportivo. Se existem \u201clados\u201d, o meu \u00e9 o do bem-estar e respeito ao atleta e praticante do esporte, bem como o da defesa do ben\u00e9fico papel social e cultural do esporte \u2013 seja ele de alto rendimento ou comunit\u00e1rio. Assim, ao mesmo tempo em que o exerc\u00edcio autorit\u00e1rio do monop\u00f3lio pol\u00edtico por parte de dirigentes federativos \u00e9 indesej\u00e1vel e contra os interesses maiores da humanidade, o retorno a estruturas desregradas onde caciques locais imperam \u00e9 ainda mais nefasta.<\/p>\n<p>O dilema que todos enfrentamos s\u00f3 pode ser resolvido com transpar\u00eancia e corajoso enfrentamento das insatisfa\u00e7\u00f5es e problemas identificados amplamente por atletas de todas as partes do mundo.<\/p>\n<p>Que venha a roupa suja: n\u00f3s a lavaremos com o sab\u00e3o da intelig\u00eancia, da \u00e9tica e do bom-senso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O esporte moderno e o nascimento das Organiza\u00e7\u00f5es de Governan\u00e7a do Esporte<\/h2>\n<p>Este \u201cesporte moderno\u201d do qual estamos falando nasceu no s\u00e9culo XIX, na Inglaterra, com a institucionaliza\u00e7\u00e3o do futebol e outros esportes. Este formato vem se difundindo para outras pr\u00e1ticas corporais e jogos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>O exemplo ilustrativo do futebol e rugby \u00e9 de um jogo originalmente sem regras escritas cujas origens remontam ao s\u00e9culo XIV. Praticado por multid\u00f5es e de natureza arruaceira, essa atividade permaneceu uma de tantas outras atividades pr\u00e9-industriais at\u00e9 cerca de 1750, quando foi incorporado pelas escolas p\u00fablicas inglesas. O jogo, ent\u00e3o, passou a sofrer um processo de normatiza\u00e7\u00e3o e imposi\u00e7\u00f5es disciplinares, analogamente a outras atividades dos estudantes sob o poder da burocracia da escola. A partir de 1840 estes jogos, agora j\u00e1 disciplinados, viveram uma turbul\u00eancia de conflitos sobre regras, ao mesmo tempo em que se formaram clubes independentes para sua pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O resultado foi a bifurca\u00e7\u00e3o entre o rugby e o futebol. Numa discuss\u00e3o acalorada que ganhou a grande imprensa, diversos atores envolvidos no que ficou conhecido como a \u201crivalidade Eton-Rugby\u201d criaram a Football Association (FA) em 1863 e a Rugby Football Union (RFU) em 1871. Os conflitos, que se manifestavam principalmente em diverg\u00eancias quanto a regras, amadureceram e geraram as primeiras express\u00f5es das Organiza\u00e7\u00f5es de Governan\u00e7a do Desporto. (Dunning et al 2004, p. 47).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Governan\u00e7a e os jogos Ol\u00edmpicos<\/h2>\n<p>O surgimento das ligas e federa\u00e7\u00f5es por esporte foi seguido pelo fen\u00f4meno das Olimp\u00edadas da Era moderna.<\/p>\n<p>As Olimp\u00edadas da Era Moderna come\u00e7aram como uma cria\u00e7\u00e3o intelectual do Bar\u00e3o de Coubertin e seus associados, que projetaram uma atividade internacional recorrente a cada quatro anos onde o orgulho nacional se expressasse sob a forma de feitos esportivos. A for\u00e7a motriz por tr\u00e1s desta iniciativa era a humilha\u00e7\u00e3o francesa pela derrota de 1871 na guerra franco-prussiana. Desde sua primeira vers\u00e3o em 1896, em Atenas, at\u00e9 hoje, os jogos foram marcados pela rivalidade nacional contida e regulamentada por uma burocracia organizativa que foi se tornando cada vez mais complexa. Desde 1908, Comit\u00eas Ol\u00edmpicos Nacionais foram envolvidos na organiza\u00e7\u00e3o dos eventos, os quais passaram rapidamente a se estruturar em cada pa\u00eds. O Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional funciona com duas redes de organiza\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a esportiva: os Comit\u00eas Ol\u00edmpicos Nacionais e as Federa\u00e7\u00f5es Internacionais por Esporte. O que o COI faz \u00e9 aprovar ou n\u00e3o uma modalidade como esporte ol\u00edmpico, entronizando uma Federa\u00e7\u00e3o Internacional como seu representante oficial. A partir da\u00ed, a organiza\u00e7\u00e3o de fato dos eventos competitivos compete \u00e0s duas estruturas mencionadas (Senn 1999).<\/p>\n<p>Os interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos que foram sendo catalisados pelos jogos ol\u00edmpicos se converteram em concentra\u00e7\u00e3o de poder nas Federa\u00e7\u00f5es Internacionais e nos Comit\u00eas Ol\u00edmpicos Nacionais. Esta concentra\u00e7\u00e3o s\u00f3 aumentou ap\u00f3s a segunda guerra mundial, quando as Olimp\u00edadas se transformaram num palco de disputa ideol\u00f3gica cujos bastidores eram a contra-partida esportiva e t\u00e9cnica da Guerra Fria. Valia tudo quando o pre\u00e7o era o maior n\u00famero de medalhas ol\u00edmpicas.<\/p>\n<p>O outro fator decisivo para a concentra\u00e7\u00e3o de poder e import\u00e2ncia nestes \u00f3rg\u00e3os de governan\u00e7a foi o crescimento da ind\u00fastria do esporte, comandada pela ind\u00fastria de equipamentos e a ind\u00fastria de entretenimento, particularmente a transmiss\u00e3o televisiva dos jogos.<\/p>\n<p>Com a exig\u00eancia de Federa\u00e7\u00f5es internacionais unificadas por esporte, com organismos nacionais an\u00e1logos em \u00e2mbito local, os esportes adquiriam uma maior padroniza\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, na pr\u00e1tica se instalou um monop\u00f3lio absoluto de direitos pol\u00edticos e econ\u00f4micos sobre as atividades de cada esporte. Este monop\u00f3lio se expressa tanto no que diz respeito \u00e0 legitimidade de negocia\u00e7\u00e3o junto a \u00f3rg\u00e3os governamentais, como na manipula\u00e7\u00e3o de direitos de transmiss\u00e3o de imagem e outras iniciativas de implica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (Andreff &amp; Szymanski 2006, p. 228-249).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>As federa\u00e7\u00f5es, o poder e o atleta<\/h2>\n<p>Essa sensa\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel que muitos atletas sentem ao serem inseridos nos sistemas federativos de que \u201cesse neg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 bem meu\u201d foi estudada por soci\u00f3logos e antrop\u00f3logos.<\/p>\n<p>Vimos que as Federa\u00e7\u00f5es, ou \u00d3rg\u00e3os de Governan\u00e7a do Desporto, s\u00e3o as formas organizativas que o processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o do esporte assume. Quando falamos de \u201cinstitucionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, em geral nos referimos a padr\u00f5es caracter\u00edsticos de rela\u00e7\u00f5es sociais reconhecidas, estabelecidas\u00a0 e codificadas, de rela\u00e7\u00f5es sociais que definem a forma leg\u00edtima de se engajar numa determinada atividade. Institucionaliza\u00e7\u00e3o, portanto, refere-se fundamentalmente a regras de procedimento e regras de relacionamento entre os agentes sociais. No esporte, isso significou garantir que um determinado conjunto de regras se tornasse amplamente aceito como a \u201cforma certa\u201d de jogar o que antes era jogo, e agora \u00e9 esporte (Gruneau 1999, p.34). Esta estrutura\u00e7\u00e3o do esporte de forma cada vez mais sistematizada e formalizada aliena progressivamente os praticantes individuais da atividade em si. Assim com na sociedade, de maneira geral, o \u201cEstado\u201d (as organiza\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a) adquire vida independente e passa a ser cen\u00e1rio de um jogo de poder com agentes investidos para tanto, com controle cada vez mais indireto (e menor) do \u201ccidad\u00e3o\u201d (o atleta).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>O futuro da organiza\u00e7\u00e3o no esporte<\/h2>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 como fazer uma previs\u00e3o segura quanto ao futuro da governan\u00e7a no esporte moderno. Mesmo assim, algumas tend\u00eancias podem ser identificadas.<\/p>\n<p>Andreff e Szymanski relatam que o crescimento do esporte institucionalizado nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi significativo. No entanto, mais importantes em termos de tend\u00eancias mundiais seriam a expans\u00e3o geral, a diversifica\u00e7\u00e3o e a diferencia\u00e7\u00e3o. Originalmente, para praticar um esporte era necess\u00e1rio fazer parte de um clube ou escola, e, portanto, de uma federa\u00e7\u00e3o. Estimativas de estudos realizados na Fran\u00e7a mostram os caminhos percorridos desde essa institucionaliza\u00e7\u00e3o inicial. Em 1950, havia 2 milh\u00f5es de pessoas filiadas a federa\u00e7\u00f5es; em 1960, 3 milh\u00f5es, em 1983, 10 milh\u00f5es; e em 2005, 14 milh\u00f5es. Um survey do ano 2000, no entanto, mostrou que\u00a0 36 milh\u00f5es de pessoas entre 15 e 75 anos praticavam algum esporte. Outro estudo mostrou que 54% da popula\u00e7\u00e3o francesa praticava alguma forma de atividade esportiva sem ter v\u00ednculos com federa\u00e7\u00f5es (Andreff &amp; Szymanski 2006).<\/p>\n<p>As tend\u00eancias apontadas por Andreff e Szymanski s\u00e3o facilmente observadas em in\u00fameros esportes, onde surgem varia\u00e7\u00f5es e modalidades especiais de cada um. Cada um conquista um p\u00fablico pr\u00f3prio e adota suas pr\u00f3prias formas organizativas.<\/p>\n<p>O kung-fu\/wushu possui tr\u00eas federa\u00e7\u00f5es internacionais lutando por hegemonia. O powerlifting, do qual eu sou praticante, possui mais de 10 federa\u00e7\u00f5es internacionais. Ao mesmo tempo em que as regras e procedimentos se diferenciam cada vez mais, a circula\u00e7\u00e3o de praticantes entre elas aumenta. Com a flexibiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica expressa nos esportes n\u00e3o-ol\u00edmpicos, o atleta tem adotado cada vez mais a atitude de um consumidor moderno, que valoriza a diversidade de op\u00e7\u00f5es sem oferecer sua fidelidade exclusiva a ningu\u00e9m. O lado perverso dessa realidade \u00e9 que a maior parte das federa\u00e7\u00f5es se comporta como a empresa fornecedora dessa \u201cmercadoria\u201d na qual se converteu a organiza\u00e7\u00e3o de eventos competitivos. A quest\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o representativa e democracia foi simplesmente suprimida.<\/p>\n<p>Se existe um desejo de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es coletivas e democracia participativa e se esse desejo resultar\u00e1 em formas de governan\u00e7a representativas no esporte, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel prever. O que o presente sugere \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia onde convivem organiza\u00e7\u00f5es de governan\u00e7a com caracter\u00edsticas mais ou menos empresariais, num gradiente que vai desde as diretamente lucrativas e propriet\u00e1rias at\u00e9 aquelas sem fins lucrativos e de finalidade social.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o id\u00e9ias para se pensar problemas que todos enfrentamos. Como afirmei no primeiro par\u00e1grafo deste ensaio, eu n\u00e3o me caso com modelos e nem tenho fidelidade a id\u00e9ias, exceto se forem princ\u00edpios. Estes eu j\u00e1 afirmei e giram em torno da justi\u00e7a e da verdade. O mais importante para orientar nossa a\u00e7\u00e3o diante de um cen\u00e1rio complexo \u00e9 compreend\u00ea-lo. Assim, podemos construir uma imagem mais realista do mesmo. Depois disso, fica por conta da \u00e9tica de cada um ficar do \u201clado certo da fotografia\u201d. Mas esta, a \u00e9tica, \u00e9 uma outra hist\u00f3ria, que fica para uma outra vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/h2>\n<p>Guttmann, A. 2007. Sports: The First Five Millennia. University of Massachusetts Press.<\/p>\n<p>Dunning, E. Et al. 2004. Sport Histories: Figurational Studies in the Development of Modern Sport. Routledge.<\/p>\n<p>Gruneau, R.S. 1999. Class, Sports, and Social Development. Human Kinects.<\/p>\n<p>Andreff, W. &amp; Szymanskim, S. 2006. Handbook on the Economics of Sport. Edward Elgar Publishing.<\/p>\n<p>Senn, A. 1999. Power, Politics, and the Olympic Games: a history of the power brokers, events, and controversies that shaped the Games. Human Kinetics.<\/p>\n<p>Allison, Lincoln, ed. 1986. The Politics of Sport. Manchester: University of Manchester Press, 1986. Pp. 264.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div><br clear=\"all\" \/><\/p>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Marilia\/Documents\/@MARILIA\/SYNCHRONIZER\/May05\/@constantUPD\/publications\/Atletas%20do%20Brasil\/Do%20jogo%20ao%20esporte%20v2.doc#_ednref1\">[i]<\/a>[i] \u201cSports Governing Bodies\u201d \u2013 \u00f3rg\u00e3os de governan\u00e7a do desporto<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"file:\/\/\/C:\/Users\/Marilia\/Documents\/@MARILIA\/SYNCHRONIZER\/May05\/@constantUPD\/publications\/Atletas%20do%20Brasil\/Do%20jogo%20ao%20esporte%20v2.doc#_ednref2\">[ii]<\/a> Por exemplo Allison 1986<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jogos, esporte e esporte moderno: colocando pontos nos i\u2019s Talvez pelo benef\u00edcio da maturidade, eu n\u00e3o me caso. N\u00e3o me caso com modelos, n\u00e3o me caso com teorias, nem com ideologias ou religi\u00f5es \u2013 nada disso. Isso evita sectarismo e cegueira. No entanto, \u00e9 preciso negociar par\u00e2metros m\u00ednimos de entendimento de termos e conceitos para [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[20,1924,151],"tags":[1207,1925,183,1843,1926,1385,15,1281],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5077"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5077"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5077\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}