{"id":5109,"date":"2013-08-24T16:14:39","date_gmt":"2013-08-24T16:14:39","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/sororidade-no-dos-outros-e-refresco\/"},"modified":"2013-08-24T16:14:39","modified_gmt":"2013-08-24T16:14:39","slug":"sororidade-no-dos-outros-e-refresco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/sororidade-no-dos-outros-e-refresco\/","title":{"rendered":"Sororidade no dos outros \u00e9 refresco"},"content":{"rendered":"<p>Aparentemente, a Bianca iniciou um interessante experimento pol\u00edtico com seu artigo sobre por que n\u00e3o transa sororidade (veja link abaixo). N\u00e3o vou reproduzir os argumentos que foram expostos ad n\u00e1usea no dito debate. Um aspecto, no entanto, me chamou aten\u00e7\u00e3o: a pistola apontada para nossas cabe\u00e7as, por parte de pseudo-revolucion\u00e1rias, disparando falsas dicotomias: sororidade X fragmenta\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o do feminismo? Sororidade X coniv\u00eancia com os estere\u00f3tipos machistas quanto \u00e0 disputa mesquinha que seria intr\u00ednseca \u00e0s mulheres?<\/p>\n<p>Algo ali me era familiar. Uma parte da minha mem\u00f3ria dizia que j\u00e1 apontaram pistolas semelhantes para mim. Lembrei! Socialismo X barb\u00e1rie? Ditadura do proletariado X barb\u00e1rie? Foi um tempo negro, em que falar em democracia s\u00f3 era admitido como recurso propagand\u00edstico para \u201cas massas\u201d ainda sem \u201cconsci\u00eancia para si\u201d. Na verdade, o verdadeiro revolucion\u00e1rio sabia que democracia era um palavr\u00e3o. Ser chamado de democrata era o mesmo que ser filho da puta.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 em jogo, sempre, \u00e9 a quest\u00e3o da liberdade individual. Acho que eu preferia quando vinha um stalinista ou trotskista autorit\u00e1rio e proferia sem pudor o besteirol segundo o qual liberdade individual era uma demanda pequeno-burguesa. Como tal, digna de fuzilamento (n\u00e3o \u00e9 brincadeira: as conversas mais acaloradas freq\u00fcentemente terminavam em \u201c&#8230;se fosse outra etapa voc\u00ea seria fuzilada\u201d).<\/p>\n<p>Vamos combinar: se isso \u00e9 esquerda, quem precisa de direita?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 complicada e quase que um exerc\u00edcio de terapia de grupo. Primeiro, estas dualidades n\u00e3o refletem realidade nenhuma. Simplesmente n\u00e3o t\u00eam fundamento. Mas e se tivessem? Se realmente, uma sociedade plenamente justa s\u00f3 o pudesse ser se fosse igualit\u00e1ria? E, portanto, supressiva de diferen\u00e7as individuais? Vale a pena viver num mundo assim?<\/p>\n<p>O nosso hipot\u00e9tico estalinista (ou trotskista, d\u00e1 no mesmo, a diferen\u00e7a entre eles \u00e9 s\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o permanente, um detalhezinho no totalitarismo de ambos) diria: \u201cmas voc\u00ea acha que n\u00e3o vale porque voc\u00ea \u00e9 membro da elite privilegiada que tem acesso a tudo. Um exclu\u00eddo toparia uma ditadura que calasse a sua boca para que ele tivesse acesso a coisas que ele hoje n\u00e3o tem\u201d.<\/p>\n<p>Jura? Nossa, g\u00eanio. Descobriu que os seres humanos n\u00e3o s\u00e3o bonzinhos por natureza. Parab\u00e9ns! Voc\u00ea est\u00e1 pronto para discutir com Rousseau. Com dois s\u00e9culos de atraso.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que eu digo que o buraco \u00e9 mais embaixo e requer um olhar sincero para dentro de si. Sim, somos a elite simb\u00f3lica. O acervo cultural da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, como a conhecemos, question\u00e1vel ou n\u00e3o mas jamais desprez\u00edvel, foi feita por gente como n\u00f3s. O fato de reconhecermos que h\u00e1 enormes e injustific\u00e1veis d\u00e9ficits de justi\u00e7a, alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e outros itens b\u00e1sicos de humaniza\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o da nossa esp\u00e9cie n\u00e3o faz com que nenhuma das dualidades acima seja v\u00e1lida por infer\u00eancia (menin@s, voc\u00eas faltaram em l\u00f3gica I e II). Ou seja: assimetrias n\u00e3o s\u00e3o corrig\u00edveis apenas por supress\u00e3o dos segmentos com super\u00e1vit de qualquer coisa, principalmente no que diz respeito a aspectos da pol\u00edtica institucional, cultura e comportamento.<\/p>\n<p>Vamos aos exemplos concretos. Tod@as somos feministas e concordamos que h\u00e1 um d\u00e9ficit de poder, justi\u00e7a, auto-determina\u00e7\u00e3o, entre outras coisas entre os sexos e g\u00eaneros. Corrigir este d\u00e9ficit atrav\u00e9s da subtra\u00e7\u00e3o do suposto super\u00e1vit dos segmentos que exercem mais tais itens \u00e9 oportunista e idiota. \u00c9 b\u00e1sico a uma concep\u00e7\u00e3o moderna de democracia e pol\u00edtica que \u00e9 poss\u00edvel incrementar o quantum de poder de um segmento sem subtrair o do outro. Assim, n\u00e3o \u00e9 preciso limitar os direitos de ir e vir, vestir-se como quiser ou se expor dos homens para conquistar os mesmos direitos para as mulheres. Parece rid\u00edculo? Eu queria que parecesse para come\u00e7ar a cair a ficha quanto a opera\u00e7\u00e3o l\u00f3gica que estou tentando induzir. Para uma mulher andar tranquilamente de mini-saia nas ruas, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio proibir homens de andar de short. \u00c9 preciso reprimir (usar viol\u00eancia) contra aqueles que reprimem (usam viol\u00eancia) as mulheres que andam de mini-saia.<\/p>\n<p>Vamos \u00e0s quest\u00f5es \u00e9tnicas. Foi a\u00ed que fui surpreendida por um argumento para-estalinista. Para que as pessoas negras possam expressar suas especificidades culturais, celebrar sua ancestralidade e valorizar sua etnia, lutando por mais justi\u00e7a e contra o preconceito, N\u00c3O \u00c9 NECESS\u00c1RIO suprimir os mesmos direitos a nenhuma outra etnia ou grupo nacional.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o de uma cidade Canadense de proibir uma festividade de celebra\u00e7\u00e3o viking com o argumento de que seria racista me chocou a ponto de revolta. Ora, ent\u00e3o os descendentes de escandinavos n\u00e3o podem se reunir e festejar suas origens? E os descendentes de celtas (ou seja, 50% da popula\u00e7\u00e3o branca da America do Norte)? N\u00e3o podem organizar, realizar e celebrar os Highland Games? Uma das festividades p\u00fablicas mais divertidas e inclusivas que existe?<\/p>\n<p>E a festa da Nossa Senhora da Achiropita no Bexiga, aqui em S\u00e3o Paulo? N\u00e3o pode mais porque entre a nossa classe dominante e elite simb\u00f3lica pelo menos 20% s\u00e3o de origem italiana branca?<\/p>\n<p>E o ano novo chin\u00eas? E as festas da cultura japonesa na Liberdade?<\/p>\n<p>Foi necess\u00e1rio mudar o nome do Sport Club Germania para Esporte Clube Pinheiros nos anos 1940s? Ou foi apenas uma manifesta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria da ditadura de Vargas?<\/p>\n<p>A democracia \u00e9 um jogo sujo, mas \u00e9 a melhor forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica j\u00e1 inventada. \u00c9 sujo porque n\u00e3o \u00e9 bonitinho, n\u00e3o faz com que as pessoas se aceitem e se amem, nada disso. Ela administra e regulamenta a co-exist\u00eancia de grupos de interesse e de uma sociedade plural, ponto final. Na democracia, existe luta e re-acomoda\u00e7\u00e3o destes grupos o tempo todo, \u00e0 medida que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre eles muda. Quem cheirou Dahl e Lipset aqui, cheirou certo.<\/p>\n<p>Assim, no jogo da democracia, est\u00e1 dentro das regras reclamar, por exemplo, se uma manifesta\u00e7\u00e3o supremacista branca \u00e9 permitida em pra\u00e7a p\u00fablica. Neste caso, houve uma infra\u00e7\u00e3o do jogo: uma parte est\u00e1 usando o espa\u00e7o p\u00fablico para tentar acabar com o jogo, propondo o genoc\u00eddio de outro grupo de interesse. Mas est\u00e1 dentro das regras do jogo uma festividade evang\u00e9lica que tenha protocolado sua solicita\u00e7\u00e3o \u00e0 prefeitura e feito as coisas com ordem, desde que em seu conte\u00fado n\u00e3o haja mensagens de \u00f3dio e incita\u00e7\u00e3o a a\u00e7\u00e3o contra outros grupos (\u201cjudeus v\u00e3o todos para o inferno\u201d ou \u201cpessoas do candombl\u00e9 s\u00e3o do mal\u201d).<\/p>\n<p>Censurar a celebra\u00e7\u00e3o de ancestralidade de qualquer grupo \u00e9 completamente contra as regras do jogo. A atitude da prefeitura canadense que reprimiu a festividade de celebra\u00e7\u00e3o viking \u00e9 claramente anti-democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>For\u00e7ar um movimento a adquirir aspectos de grupo ou seita \u00e9 anti-democr\u00e1tico. Movimento social \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o com foco pontual (uma pauta) que congrega diferentes grupos de interesse e, para ser bem sucedido, deve minimizar a pauta de modo a acomodar todos os grupos participantes. Assim \u00e9 o movimento feminista. Enfiar chantagem emocional no meio, como \u00e9 esse papinho besta de sororidade, \u00e9 autorit\u00e1rio. \u00c9 anti-democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Tudo isso que escrevi d\u00f3i? Opa, se d\u00f3i! Ou voc\u00eas pensavam que ser adulto e fazer pol\u00edtica como adulto era ser revoltadinho?<\/p>\n<p>Cres\u00e7am.<\/p>\n<p>Bianca Cardoso &#8211; <a href=\"http:\/\/srtabia.com\/2013\/08\/porque-nao-transo-sororidade\/\">Por que n\u00e3o transo sororidade<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aparentemente, a Bianca iniciou um interessante experimento pol\u00edtico com seu artigo sobre por que n\u00e3o transa sororidade (veja link abaixo). N\u00e3o vou reproduzir os argumentos que foram expostos ad n\u00e1usea no dito debate. 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