{"id":5183,"date":"2005-08-10T09:17:00","date_gmt":"2005-08-10T09:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-falsa-liberdade-da-volta-a-natureza-a-polemica-dos-cabelos-grisalhos\/"},"modified":"2005-08-10T09:17:00","modified_gmt":"2005-08-10T09:17:00","slug":"a-falsa-liberdade-da-volta-a-natureza-a-polemica-dos-cabelos-grisalhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-falsa-liberdade-da-volta-a-natureza-a-polemica-dos-cabelos-grisalhos\/","title":{"rendered":"A Falsa Liberdade da Volta \u00e0 Natureza (A pol\u00eamica dos cabelos grisalhos)"},"content":{"rendered":"<p>Dia 3 de fevereiro, no caderno &#8221;Equil\u00edbrio&#8221; da Folha, encontrei nove trechos de cartas enviadas \u00e0 psicanalista Anna Veronica Mautner em resposta a seu artigo &#8221;A feminilidade n\u00e3o \u00e9 branca&#8221;. Os textos me causaram um certo impacto pelo seu teor autorit\u00e1rio e conservador. Busquei o artigo original de Anna Veronica e o li com cuidado.<br \/>\nSenti simpatia pela sinceridade com que Anna descreveu sua perplexidade e ang\u00fastia diante das op\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis a n\u00f3s, mulheres da &#8221;elite simb\u00f3lica&#8221;, que se v\u00eaem quase que repentinamente na idade p\u00f3s-reprodutiva.<br \/>\nN\u00e3o senti nenhuma simpatia pelos e-mails de conte\u00fado autorit\u00e1rio que membros (quase que aposto: pelo menos uma das autoras \u00e9 minha conhecida, doutora e autora de v\u00e1rios artigos como eu) igualmente confort\u00e1veis dessa mesma elite \u00e0 qual pertencemos.<br \/>\nInfelizmente, ao contr\u00e1rio do que diz Anna, a atitude de defesa ideol\u00f3gica dos cabelos brancos &#8211; junto com as rugas, o aumento da taxa de gordura corporal (&#8221;temos direito de perder a forma e ficar redondas&#8221;, disse-me uma amiga), a perda da for\u00e7a e dos m\u00fasculos, os peitos e a bunda ca\u00eddos &#8211; \u00e9 bastante comum no nosso meio.<br \/>\nEm geral, esse discurso \u00e9 expresso de maneira agressiva e defensiva, numa esp\u00e9cie de cruzada contra o que seus adeptos chamam de &#8221;ditadura da m\u00eddia&#8221;.<br \/>\nContra a \u00f3bvia insist\u00eancia da propaganda quanto \u00e0 prefer\u00eancia por caracter\u00edsticas f\u00edsicas jovens, os adeptos desse discurso ideol\u00f3gico, os quais passo a chamar pelo termo bem conhecido de &#8221;natureba&#8221;, defendem o &#8221;curso natural das coisas&#8221;. Assim, n\u00e3o se deve reagir contra a tend\u00eancia natural dos cabelos a se tornarem brancos; da pele perder a flexibilidade e se enrugar; dos m\u00fasculos a perderem o t\u00f4nus; da gordura se acumular no abdome e outras regi\u00f5es; dos peitos a ca\u00edrem; da perda da vitalidade com a menopausa; e assim por diante.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nenhuma d\u00favida: sob o ponto de vista fisiol\u00f3gico, tudo isso \u00e9 natural. Sob o ponto de vista evolutivo (mais natural, imposs\u00edvel), n\u00e3o h\u00e1 a menor necessidade que sequer vivamos depois do per\u00edodo reprodutivo.<br \/>\nO mais rid\u00edculo disso tudo, no entanto, \u00e9 que a sociedade, em si, cuja retid\u00e3o os naturebas pretendem defender, \u00e9 um fen\u00f4meno estritamente anti-natural: a cultura, que caracteriza as sociedades humanas, \u00e9 o reino do arb\u00edtrio, em oposi\u00e7\u00e3o ao reino da necessidade que existe na natureza. A ci\u00eancia e a tecnologia s\u00e3o as express\u00f5es supremas da a\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00e3o da natureza intr\u00edncecas ao trabalho humano. Resistir \u00e0 natureza, transform\u00e1-la, criar organismos tecnologicamente planejados, na interface da natureza com a cultura (cyborgs, segundo Donna Haraway), \u00e9 humano. Negar tudo isso \u00e9 irracional.<br \/>\nEm geral, a atitude natureba vem junto com algum outro tipo de discurso em que se observa a oposi\u00e7\u00e3o entre corpo e entes n\u00e3o corporais: a mente, o esp\u00edrito, a alma ou seja l\u00e1 o que for. Assim, os cabelos brancos n\u00e3o importam, o que importa \u00e9 &#8221;a ess\u00eancia&#8221; (diz uma das autoras dos e-mails: &#8221;N\u00e3o \u00e9 a cor de seu cabelo que importa, mas sua atitude&#8221;).<br \/>\nA alternativa mais comum \u00e0 op\u00e7\u00e3o &#8221;natureba&#8221; \u00e9 igualmente &#8221;anti-corpo&#8221;: para as intelectuais mais &#8221;mainstream&#8221; &#8211; a maioria das cientistas (naturais e sociais, n\u00e3o faz diferen\u00e7a) de prest\u00edgio, por exemplo &#8211; a afirma\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios atrav\u00e9s de marcas est\u00e9ticas \u00e9 desnecess\u00e1ria e um pouco pat\u00e9tica. Esse grupo \u00e9 constitu\u00eddo de mulheres que muitas vezes &#8221;transgrediram&#8221; pela apar\u00eancia na juventude, usando roupas e cabelos n\u00e3o-convencionais. Na condi\u00e7\u00e3o de intelectuais de prest\u00edgio, no entanto, adotam um visual s\u00f3brio e minimalista. O discurso delas sobre o mundo se concentra no verbal. Cabelos s\u00e3o tingidos, \u00e0s vezes h\u00e1 alguma maquiagem discreta, roupas s\u00e3o pouco coloridas e simples. O visual \u00e9 desnecess\u00e1rio para afirmar conceitos e valores e o corpo \u00e9 desnecess\u00e1rio para a exist\u00eancia intelectual. \u00c9 uma figura em segundo plano.<br \/>\nA rea\u00e7\u00e3o que Anna descreve entre os amigos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua d\u00favida quanto a tingir ou n\u00e3o os cabelos me parece compreens\u00edvel. Sem entender muito por que, n\u00f3s todos nos sentimos amea\u00e7ados pelas manifesta\u00e7\u00f5es violentas da &#8221;natureza bruta&#8221;, contra a qual vimos impondo nosso arb\u00edtrio cultural h\u00e1 mil\u00eanios. \u00c9 natural que as pessoas se tornem menos ativas com o passar dos anos; \u00e9 natural que, sem est\u00edmulo, os m\u00fasculos das mulheres p\u00f3s-reprodutivas se reduzam em massa e percam a for\u00e7a; \u00e9 natural que a pele perca a elasticidade e n\u00e3o acompanhe a perda de volume subjacente, gerando pelancas; \u00e9 natural que haja um maior ac\u00famulo de tecido adiposo com a menor disponibilidade de horm\u00f4nios anabolizantes; e \u00e9 compreens\u00edvel que ningu\u00e9m queira olhar para a bunda vazia, ca\u00edda e pelancuda de uma mulher de meia-idade sedent\u00e1ria, por mais culta e articulada que seja, porque, ainda que seja politicamente incorreto sequer ter tais pensamentos, \u00e9 horr\u00edvel. \u00c9 horr\u00edvel, lembra a morte, lembra a for\u00e7a de uma natureza nada rom\u00e2ntica e que n\u00e3o negocia. Com o tempo e as varia\u00e7\u00f5es hormonais da idade, \u00e9 natural que a nossa capacidade de reagir imunologicamente \u00e0s agress\u00f5es externas e aos processos degenerativos internos diminua. Sem a vigorosa interven\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, \u00e9 natural padecer, sofrer e morrer de doen\u00e7as degenerativas ou mesmo infecciosas. Mas ningu\u00e9m gosta de ser confrontado com essa &#8221;naturalidade&#8221;. Exceto pelos &#8221;naturebas&#8221; ideol\u00f3gicos, ningu\u00e9m gosta de ver cabelos brancos (a n\u00e3o ser, ironicamente, que sejam devidamente artificializados atrav\u00e9s da cria\u00e7\u00e3o de contextos em que eles passem a &#8221;significar&#8221; algo que n\u00e3o seja o sintoma do envelhecimento).<br \/>\nQuando mencionei que pertencemos &#8211; Anna, eu e provavelmente todos os que enviaram e-mails em resposta ao artigo dela &#8211; \u00e0 elite simb\u00f3lica, a express\u00e3o n\u00e3o tem nenhuma conota\u00e7\u00e3o pejorativa: pelo contr\u00e1rio. &#8221;Elite simb\u00f3lica&#8221; \u00e9 um termo cunhado pelo soci\u00f3logo Pierre Bourdieu para designar o segmento da classe dominante cujo lugar social \u00e9 condicionado n\u00e3o pelo capital financeiro, mas pelo capital cultural, ou simb\u00f3lico. Somos n\u00f3s: cientistas, jornalistas, artistas, todos aqueles que produzem os discursos dominantes (transformadores ou conservadores) de uma sociedade. Nessa condi\u00e7\u00e3o, temos e sentimos uma responsabilidade. \u00c9 para n\u00f3s que a sociedade olha em busca de modelos de conduta para seguir ou rejeitar.<br \/>\nTingir os cabelos ou deix\u00e1-los embranquecer &#8221;naturalmente&#8221; n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o est\u00e9tica semi-consciente. \u00c9 praticamente uma declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios. \u00c9 uma decis\u00e3o que envolve investimento emocional e intelectual, al\u00e9m de um certo &#8221;soul searching&#8221;.<br \/>\nNessa linha, sinto que o meu papel \u00e9 oferecer conforto intelectual \u00e0s minhas contempor\u00e2neas que optem por resistir \u00e0 press\u00e3o hip\u00f3crita e incoerente daqueles que glamourizam a capitula\u00e7\u00e3o \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o, \u00e0 morte e \u00e0 ina\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMinha tend\u00eancia a ter esperan\u00e7a faz com que eu tor\u00e7a para que a &#8221;rebeldia&#8221; dessas mulheres v\u00e1 mais al\u00e9m: que continuem no caminho de se apropriar plenamente de seus corpos, fazendo-os instrumentos de prazer e poder, belos e fortes. Que ousem lan\u00e7ar m\u00e3o de todos os recursos tecnol\u00f3gicos para isso: tintura, silicone, cirurgia pl\u00e1stica, tatuagem, piercing e, principalmente, exerc\u00edcio f\u00edsico intenso (n\u00e3o de mentirinha, como recomendam paternal\u00edsticamente nossos m\u00e9dicos) e manipula\u00e7\u00e3o nutricional.<br \/>\nSejamos cyborgs da liberdade, inteligentes, fortes e mais vivas que nunca. N\u00e3o h\u00e1 nenhum mundo para o qual voltar &#8211; s\u00f3 um novo e tecnol\u00f3gico mundo a conquistar. \u00c9 um mundo para mulheres corajosas e vigorosas, que digam n\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o natureba do &#8221;politicamente correto&#8221;.<\/p>\n<p>Marilia<\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0;\"><b><span style=\"font-family: Georgia; font-size: xx-small;\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\"><br \/>\n<\/a><\/span><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia 3 de fevereiro, no caderno &#8221;Equil\u00edbrio&#8221; da Folha, encontrei nove trechos de cartas enviadas \u00e0 psicanalista Anna Veronica Mautner em resposta a seu artigo &#8221;A feminilidade n\u00e3o \u00e9 branca&#8221;. Os textos me causaram um certo impacto pelo seu teor autorit\u00e1rio e conservador. Busquei o artigo original de Anna Veronica e o li com cuidado. 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