{"id":5197,"date":"2005-10-03T12:28:00","date_gmt":"2005-10-03T12:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-agenda\/"},"modified":"2005-10-03T12:28:00","modified_gmt":"2005-10-03T12:28:00","slug":"a-agenda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-agenda\/","title":{"rendered":"A agenda"},"content":{"rendered":"<p>Todo mundo tem uma agenda. Mesmo os estudos aparentemente mais esot\u00e9ricos se relacionam a agendas pessoais. Neste sentido \u2013 e s\u00f3 neste \u2013 n\u00e3o existe neutralidade propriamente dita: toda tomada de posi\u00e7\u00e3o intelectual est\u00e1 informada por uma agenda pessoal, ou \u201cinteresses\u201d, segundo o modelo de an\u00e1lise.<br \/>\nEu acho que esse posting aqui seria na verdade o primeiro do blog: por que criei esse blog e por que ele tem o conte\u00fado que tem. Existe algo na minha hist\u00f3ria pessoal que motivou n\u00e3o apenas esta iniciativa, como tudo que se relaciona a ela (minha pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com atividade f\u00edsica e nutri\u00e7\u00e3o).<br \/>\nIsso condicionou, e muito, minhas cren\u00e7as que aparecem por aqui:<br \/>\n1)\teu acredito, sim, que existe uma marginaliza\u00e7\u00e3o generalizada e difusa da for\u00e7a como est\u00e9tica, capacidade funcional, entre outras, em nossa sociedade;<br \/>\n2)\teu defendo que essa marginaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 altamente prejudicial \u00e0 sa\u00fade coletiva (argumento utilit\u00e1rio)<br \/>\n3)\teu defendo que essa marginaliza\u00e7\u00e3o reflete preconceitos associados a formas de viol\u00eancia para mim inaceit\u00e1veis (de g\u00eanero e de classe) (argumento pol\u00edtico);<br \/>\n4)\teu decidi denunciar \u2013 de todas as formas \u2013 e combater essa marginaliza\u00e7\u00e3o e estimular pr\u00e1ticas, indiv\u00edduos e iniciativas que eu entenda serem contr\u00e1rios a ela;<br \/>\n5)\teu tenho uma ades\u00e3o expl\u00edcita e pr\u00e1tica \u00e0 est\u00e9tica musculosa e n\u00e3o escondo minha rejei\u00e7\u00e3o a outras est\u00e9ticas que expressem elementos que eu julgue ideologicamente inaceit\u00e1veis para mim (muito honestamente: n\u00e3o s\u00f3 acho bonito m\u00fasculo, como quero para mim, quero nos outros, acho feio a falta dele, seja em magros ou gordos);<br \/>\nNem sempre fui assim. Tamb\u00e9m nem sempre vivi com sa\u00fade e um estado de bem-estar generalizado como desde meados de 2004. Tenho total convic\u00e7\u00e3o de que devo minha sa\u00fade, sobreviv\u00eancia e, mais que isso, felicidade, \u00e0 ades\u00e3o ao treinamento de for\u00e7a intenso. Eu tenho, sim, uma dose ineg\u00e1vel de ressentimento por isso me ter sido negado durante 41 anos, pelos preconceitos mencionados. N\u00e3o reajo com muita paci\u00eancia com quem expressa esses preconceitos, de maneira consciente ou inconsciente. N\u00e3o tenho saco para quem me diz, por exemplo, que sabe que precisa fazer, mas \u201codeio muscula\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nEssa hist\u00f3ria \u00e9 mais ou menos assim: sou portadora de algumas desordens graves de dif\u00edcil tratamento e tenho o azar de ser refret\u00e1ria aos medicamentos existentes. Minha forma\u00e7\u00e3o me permite examinar a literatura m\u00e9dica e farmacol\u00f3gica com bastante senso cr\u00edtico e discutir de igual para igual com meus m\u00e9dicos. Foram d\u00e9cadas de muito sofrimento, dezenas ou at\u00e9 da ordem de uma centena de estrat\u00e9gias medicamentosas, drogas velhas e novas e, at\u00e9, em momentos de irracional desespero, tratamentos \u201calternativos\u201d. At\u00e9 que, em 2003, desenvolvi uma hepatite medicamentosa que quase me matou. A situa\u00e7\u00e3o estava cr\u00edtica: algumas das minhas alternativas medicamentosas ainda sendo testadas se perderam e meus sintomas s\u00f3 pioravam. Minha vida n\u00e3o valia nada.<br \/>\nAt\u00e9 que, no cl\u00edmax da perda de qualidade de vida, no in\u00edcio de 2004, resolvi obedecer meu bom-senso e recuperar a \u00fanica coisa que, ao longo da minha hist\u00f3ria, deu algum resultado: atividade f\u00edsica intensa. Sempre pratiquei esportes e, recentemente, corria e nadava. Nos per\u00edodos de maior intensidade dessas pr\u00e1ticas, eu melhorava. Mas nunca \u2013 em momento algum \u2013 tive uma melhora t\u00e3o dram\u00e1tica que me permitisse dizer: \u201csem isso, n\u00e3o posso viver\u201d.<br \/>\nEntrei numa academia perto da minha casa e me engajei em v\u00e1rias atividades. Sempre soube da necessidade de praticar treinamento de for\u00e7a e, inclusive, durante o meu p\u00f3s-doc na Virginia, comprei livros sobre \u201cstrength training for women\u201d e tentei montar rotinas de treino para mim. Treinei em academias nos Estados Unidos e no Brasil, sem nenhum resultado aparente. Ent\u00e3o, em 2004, n\u00e3o esperava muito da muscula\u00e7\u00e3o. Mas, como tudo em atividade f\u00edsica, levava a s\u00e9rio.<br \/>\nAt\u00e9 que um professor, educador f\u00edsico especializado em treinamento de for\u00e7a, me sugeriu que, talvez, os efeitos terap\u00eauticos que eu esperava obter correndo por uma hora e nadando por mais 90 minutos, eu obtivesse mais eficientemente com a muscula\u00e7\u00e3o. Na hora questionei, pois n\u00e3o h\u00e1 dados na literatura cient\u00edfica que sustentem essa hip\u00f3tese (acho que comecei a explorar os motivos disso num post anterior). Mas ele foi convincente e eu resolvi fazer essa \u00faltima aposta.<br \/>\nEsse profissional elaborou meu primeiro treino de maior intensidade e sugeriu que eu adequasse minha dieta para a maior demanda energ\u00e9tica que esta pr\u00e1tica iria impor. Isso foi em Agosto de 2004. De agosto a dezembro, ganhei 7 quilos sem passar de 14% de gordura corporal. Aprendi a fazer for\u00e7a. Mas isso n\u00e3o significa nada perto dos efeitos metab\u00f3licos gerais que o treinamento causou. Meu sono mudou, nunca mais tive nenhuma fadiga, minha concentra\u00e7\u00e3o e produtividade aumentaram, minhas varia\u00e7\u00f5es de humor desapareceram, minha digest\u00e3o se estabilizou, e minha vida sexual&#8230; bem, sem coment\u00e1rios.<br \/>\nNunca mais usei medicamentos.<br \/>\nAgora, sim, posso dizer: \u201csem isso, n\u00e3o posso viver\u201d.<br \/>\nComo isso foi poss\u00edvel? Acho que v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es tiveram que ocorrer. Existe um momento no treinamento em que a gente \u201caprende\u201d a fazer for\u00e7a e esse \u00e9 o momento em que a gente se apropria do pr\u00f3prio corpo. At\u00e9 ent\u00e3o, acho que n\u00e3o temos muita consci\u00eancia dele.<br \/>\nAcredito que minha trajet\u00f3ria foi t\u00e3o bem sucedida por causa das estrat\u00e9gias utilizadas pelo profissional que me orientou.<br \/>\nTalvez por isso, tamb\u00e9m, eu sinta esse compromisso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 area de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e mais ou menos \u201cmilite\u201d pela sua valoriza\u00e7\u00e3o na sociedade. Eu sei, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que um profissional dela pode fazer toda a diferen\u00e7a na vida de um portador de desordens graves.<br \/>\nEssa \u00e9 a hist\u00f3ria, mais ou menos.<br \/>\nEssas s\u00e3o as causas, precisamente.<br \/>\nE isso aqui \u00e9 um caminho.<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todo mundo tem uma agenda. 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