{"id":5205,"date":"2005-10-20T22:52:00","date_gmt":"2005-10-20T22:52:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-morte-e-o-corpo\/"},"modified":"2005-10-20T22:52:00","modified_gmt":"2005-10-20T22:52:00","slug":"a-morte-e-o-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-morte-e-o-corpo\/","title":{"rendered":"A morte e o corpo"},"content":{"rendered":"<p>Hoje recebi um recado triste, ou ofensivo ou, talvez, pior, opressivo.<br \/>\nO autor foi um indiv\u00edduo da profiss\u00e3o m\u00e9dica, trantando de algu\u00e9m da minha fam\u00edlia.<br \/>\nEsse indiv\u00edduo sugeriu duas coisas: a primeira, que seria falsa minha conclus\u00e3o quanto a ser refrat\u00e1ria a tratamento medicamentoso. A segunda, que seria uma express\u00e3o de imoral ego\u00edsmo da minha parte em rela\u00e7\u00e3o aos \u201cque me amam\u201d deixar de me submeter a novos tratamentos medicamentosos.<br \/>\nExiste algo de ideol\u00f3gico, no pior sentido poss\u00edvel, nessas sugest\u00f5es. Algo que eu rejeito e contra o qual lutarei com toda a for\u00e7a poss\u00edvel, sempre que puder, sempre que a luta n\u00e3o for covarde.<br \/>\nVejamos por que.<br \/>\nEm primeiro lugar, esse indiv\u00edduo tem conhecimento de que eu passei por cerca de meia centena de estrat\u00e9gias medicamentosas distintas, combina\u00e7\u00f5es variadas de cerca de 30 medicamentos dispon\u00edveis no mercado. Houve uma ocasi\u00e3o em que contei onze componentes diferentes no \u201ccombo\u201d que eu consumia, que deletava minha consci\u00eancia na dose sete, ingerida \u00e0s 21h.<br \/>\nHoje, esse profissional argumentou com meu familiar que existem outras centenas de medicamentos dispon\u00edveis e que n\u00e3o h\u00e1 nenhum indiv\u00edduo que se possa reivindicar refrat\u00e1rio. Verdade: existem centenas de medicamentos. Eu apenas fiz quest\u00e3o de escolher aqueles associados a um menor n\u00famero de efeitos colaterais indesejados. As outras \u201ccentenas\u201d d\u00e3o at\u00e9 medo de chegar perto. Quanto a n\u00e3o existirem pacientes refrat\u00e1rios, s\u00f3 posso assumir que se trata de algum tipo de burrice ou cegueira volunt\u00e1ria, j\u00e1 que existem dados abundantes na casu\u00edstica m\u00e9dica e eu mesma participei por anos de grupos internacionais de pacientes onde a MAIORIA sofria sem grandes melhoras por uma vida inteira (v\u00e1rios aposentados por invalidez pela doen\u00e7a, idosos e outros em condi\u00e7\u00f5es indescrit\u00edveis), sob variad\u00edssimos regimes de administra\u00e7\u00e3o de drogas. Verdade: estavam vivos. Do meu ponto de vista, s\u00f3 posso lamentar que estivessem  \u2013 a morte seria mais ben\u00e9vola.<br \/>\nHoje tenho condi\u00e7\u00f5es muito objetivas para afirmar: antes do ano de 2004, houve um \u00fanico per\u00edodo em que minha vida n\u00e3o foi miseravelmente infeliz: o ano de 1977, quando fui uma atleta competitiva treinando 5 horas por dia. A partir de 2004, sem medicamentos, voltei \u00e0 minha condi\u00e7\u00e3o de atleta \u2013 e finalmente conquistei algo que se pode chamar de vida. O resto dos meus 42 anos foi uma sucess\u00e3o de per\u00edodos sob tratamento medicamentoso e per\u00edodos \u201csecos\u201d, mas sem atividade f\u00edsica INTENSA: sempre a mesma merda. Ser\u00e1 que \u00e9 muito dif\u00edcil para esse indiv\u00edduo, formado numa boa universidade brasileira, tirar uma conclus\u00e3o \u00f3bvia dessa trajet\u00f3ria? N\u00e3o me parece complicado.<br \/>\nO problema, para esse profissional, \u00e9 que o risco de morte, no meu caso, \u00e9 muito real. E, do ponto de vista dele, justificativa suficiente para que eu me submeta a novas investidas farmacol\u00f3gicas contra o meu corpo.<br \/>\nPor que \u201ccontra\u201d? Porque n\u00e3o h\u00e1 nenhuma alternativa ao meu dispor que deixe de afetar as componentes b\u00e1sicas da minha qualidade de vida: 1. minha libido; 2. o metabolismo energ\u00e9tico que me permite hipertrofia muscular e composi\u00e7\u00e3o corporal adequada \u00e0 minha auto-imagem; 3. meu tes\u00e3o pela vida.<br \/>\nEsse indiv\u00edduo da profiss\u00e3o m\u00e9dica, como um outro que h\u00e1 anos me agrediu por reclamar dos efeitos colaterais de uma droga do dem\u00f4nio que eu suportei por duas semanas, adere a um princ\u00edpio de parte da comunidade m\u00e9dica segundo o qual o paciente n\u00e3o deve se rebelar contra efeitos colaterais dos tratamentos. Afinal, s\u00e3o \u201ccolaterais\u201d. O \u201ccentral\u201d \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o fisiol\u00f3gica da vida. E esse fim justificaria todos os meios.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 nada de cient\u00edfico nisso. Trata-se de um princ\u00edpio religioso. E como tal, de maneira nenhuma pode ser imposto com autoridade, como a autoridade profissional ou cient\u00edfica permitem. N\u00e3o h\u00e1 rigorosamente nada de racional no argumento de que a vida se justifica a qualquer pre\u00e7o.<br \/>\nEu n\u00e3o ficaria ofendida se esse indiv\u00edduo alegasse um motivo religioso, do tipo que uma for\u00e7a superior teria me concedido um corpo e eu deveria zelar por ele, ainda que dele s\u00f3 restasse uma sombra apodrecida no final da luta por sua manuten\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMas n\u00e3o: o indiv\u00edduo em quest\u00e3o sugeriu que me faltaria amor pelos que me amam, motiva\u00e7\u00e3o que seria suficiente para o sacrif\u00edcio supremo de abrir m\u00e3o de meu pr\u00f3prio corpo como o conhe\u00e7o.<br \/>\nMais uma vez, verdade: n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m no mundo por quem eu sinta amor suficiente que justifique eu permitir que meu corpo e minha vitalidade sejam desintegrados pelos efeitos \u201ccolaterais\u201d das drogas. Um amor como esse, s\u00f3 posso qualificar de m\u00f3rbido. Felizmente, n\u00e3o sinto amor m\u00f3rbido por meus irm\u00e3os, filha, pais ou amigos. Sinto um amor que me move a buscar ser feliz ao lado deles \u2013 nunca infeliz.<br \/>\nAlgo em mim aponta para uma perversidade suprema dessa atitude de uma parcela at\u00e9 que grande da comunidade m\u00e9dica, que festeja os sucessos da ind\u00fastria farmac\u00eautica diante de legi\u00f5es de mortos-vivos. <\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje recebi um recado triste, ou ofensivo ou, talvez, pior, opressivo. O autor foi um indiv\u00edduo da profiss\u00e3o m\u00e9dica, trantando de algu\u00e9m da minha fam\u00edlia. 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