{"id":5206,"date":"2005-10-22T06:29:00","date_gmt":"2005-10-22T06:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/eu-e-meu-corpo-o-gato-sujo-la-fora\/"},"modified":"2005-10-22T06:29:00","modified_gmt":"2005-10-22T06:29:00","slug":"eu-e-meu-corpo-o-gato-sujo-la-fora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/eu-e-meu-corpo-o-gato-sujo-la-fora\/","title":{"rendered":"Eu e meu corpo: o gato sujo l\u00e1 fora"},"content":{"rendered":"<p>Eu tenho alguns conhecidos muito acima do peso, poucos realmente obesos. Uma dessas pessoas se corresponde regularmente comigo. J\u00e1 calculei algumas dietas para ela, fiz um grande n\u00famero de sugest\u00f5es para administrar comida, mas nenhuma deu resultado. Ela insiste em tr\u00eas coisas: 1. afirmar que \u201cn\u00e3o consegue\u201d controlar sua compuls\u00e3o por se entupir de alimentos (que, analisados, correspondem a alimentos infantis, docinhos e agrad\u00e1veis); 2. dizer que comida \u00e9 a \u00fanica fonte de prazer importante para ela; 3. dizer que tem \u00f3dio de dieta, de ter que se \u201csubmeter\u201d a essa ordem. Quase todas essas pessoas tamb\u00e9m \u201cn\u00e3o conseguem\u201d se for\u00e7ar a ir \u00e0 academia ou acham \u201cacademia um saco\u201d e \u201codeiam muscula\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nTudo isso me deixava desconcertada, impotente diante de um quadro t\u00e3o irracional. N\u00e3o sei lidar com coisas irracionais e elas me afligem. No entanto, essas pessoas despejam seus sentimentos confusos com rela\u00e7\u00e3o a comida e corpo sobre mim quase que diariamente e eu acho que preciso entender um pouco como isso funciona.<br \/>\nExistem muitas pesquisas sobre a psicologia da ingest\u00e3o compulsiva de alimentos, mas a maior parte delas se refere \u00e0 super-alimenta\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria, aquela que \u00e9 causada por condi\u00e7\u00f5es fisiol\u00f3gicas ou est\u00edmulos ambientais, a maioria deles propositadamente criados pela ind\u00fastria de alimentos. Hiper-insulinemia provoca sobre-alimenta\u00e7\u00e3o em ratos. Sup\u00f5e-se que em humanos tamb\u00e9m, j\u00e1 que a hiper-insulinemia reativa ap\u00f3s refei\u00e7\u00e3o com grande propor\u00e7\u00e3o de carboidratos de alto \u00edndice glic\u00eamico leva \u00e0 surtos de ataque \u00e0 geladeira e isso \u00e9 conhecido. Quanto aos fatores ambientais, embalagens grandes, nomes atraentes, tudo isso foi pesquisado e estatisticamente associado ao aumento de consumo de alimentos industrializados (sim, eles s\u00e3o \u201cdo mal\u201d, veja http:\/\/www.foodpsychology.com\/).<br \/>\nMas o que realmente me interessa \u00e9 a super-alimenta\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria, aquela praticada por pessoas que sabem que aquela comida est\u00e1 levando ao sobre-peso.<br \/>\nO discurso irracional da primeira obesa \u00e9 um ponto de partida. A id\u00e9ia pouco articulada que eu tenho quando ou\u00e7o o discurso dela \u00e9 que o corpo dela \u00e9 uma esp\u00e9cie de animal de estima\u00e7\u00e3o indesejado, dado para uma crian\u00e7a que n\u00e3o tem compet\u00eancia para cuidar dele. A crian\u00e7a ganha o gato. At\u00e9 se entusiasma no come\u00e7o, mas o gato n\u00e3o corresponde \u2013 nem curte as tentativas desastradas de fazer carinho da crian\u00e7a. A crian\u00e7a tenta dar bolacha para o gato \u2013 ele n\u00e3o come. A crian\u00e7a ent\u00e3o, obrigada pelos adultos a tomar conta desse gato que aparentemente n\u00e3o gosta dela, n\u00e3o come o que ela quer e vai ficando cada vez mais feio, sujo e esquisito, quer fugir da responsabilidade. Ela odeia o gato.<br \/>\nA dieta, para essa obesa, \u00e9 uma \u201cordem externa\u201d. N\u00e3o tem nenhuma rela\u00e7\u00e3o com ela mesma. Assim como seu corpo \u00e9 externo a ela.<br \/>\nEla odeia academia. Essa obesa, em particular, \u00e9 extremamente sens\u00edvel ao julgamento externo, de modo que parte dessa rejei\u00e7\u00e3o vem da consci\u00eancia de que, comparada \u00e0s outras mulheres, ela \u00e9 mais feia. Mas tamb\u00e9m tem a rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade f\u00edsica em si. N\u00e3o \u00e9 ela que estar\u00e1 se movimentando. \u00c9 o gato feio que mam\u00e3e obrigou a cuidar.<br \/>\nO gato feio vai ficar mais feio com o pr\u00f3ximo Big Mac e sorvete. Mas a overdose de gordura e a\u00e7ucar de alto \u00edndice glic\u00eamico v\u00e3o proporcionar um prazer imediato que a dona do gato feio quer.<br \/>\nN\u00e3o h\u00e1 quantidade de informa\u00e7\u00e3o e argumento l\u00f3gico que fa\u00e7a uma pessoa assim mudar de atitude. Afinal, todos n\u00f3s valorizamos nosso prazer e satisfa\u00e7\u00e3o na vida. Se algo \u00e9 visto como absolutamente dissociado de prazer e satisfa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil que seja executado. Para isso serve a moral e as religi\u00f5es. Fazer dieta, cuidar do corpo, viram exig\u00eancias moralistas. E n\u00e3o h\u00e1 nada mais opressivo do que uma obriga\u00e7\u00e3o moral.<br \/>\nAssim, ela se rebela.<br \/>\nOutra componente \u00e9 a auto-preserva\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m pode alegar que a sobre-alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 um comportamento auto-destrutivo. Pode ser, mas pode n\u00e3o ser. Se o corpo est\u00e1 fortemente representado nessa pessoa como algo externo, ela n\u00e3o est\u00e1 destruindo nada dentro dela. \u00c9 o gato feio. E foda-se o gato feio.<br \/>\nAt\u00e9 que essas pessoas se apropriem de seus corpos, acho que qualquer dieta \u00e9 dif\u00edcil de dar certo. Dieta \u2013 regime alimentar, disciplina imposta de fora.<br \/>\nA compara\u00e7\u00e3o e o contraste ajudam a entender. Me refiro \u00e0 nossa sub-cultura de atletas e adeptos de um estilo de vida baseado em treinamento de for\u00e7a intenso e dieta. Pessoas assim est\u00e3o permanentemente em \u201cdieta\u201d: ou elas est\u00e3o buscando aumentar sua massa magra, ou perder gordura (os dois juntos, todos sabem, \u00e9 imposs\u00edvel). O que e quando comer \u00e9 parte essencial da vida de algu\u00e9m assim. Esses hor\u00e1rios e composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o observados o mais rigorosamente poss\u00edvel. Passadas tr\u00eas horas sem comer, passa a ser priorit\u00e1rio achar rango. Ningu\u00e9m reclama da monotonia da combina\u00e7\u00e3o \u201cpeito de frango-macarr\u00e3o-batata\u201d. \u00c9 assim e pronto. Ningu\u00e9m reclama de gordura corporal: ou ela est\u00e1 l\u00e1 porque tem que estar mesmo, porque para ganhar m\u00fasculo, tamb\u00e9m ganhamos gordura, ou ela est\u00e1 indo embora porque estamos em dieta para secar. O outro lado do que os psic\u00f3logos politicamente corretos ridiculamente chamam de \u201cdismorfia muscular\u201d (auto-imagem distorcida por obsess\u00e3o com volume muscular, uma s\u00edndrome cuja caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 baseada em nenhum dado emp\u00edrico confi\u00e1vel) \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o muito pac\u00edfica e sem tens\u00e3o com comida e composi\u00e7\u00e3o corporal.<br \/>\nDavis e colaboradores (Decision-making deficits and overeating: a risk model for obesity, Obes Res. 2004 Jun;12(6):929-35) relataram os resultados de uma pesquisa sobre aspectos neurol\u00f3gicos do processo de tomada de decis\u00e3o. Segundo esses autores, processos corticais e sub-corticais que regulam a habilidade dos indiv\u00edduos de inibir recompensas de curto-prazo quando as consequ\u00eancias de longo-prazo s\u00e3o delet\u00e9rias, est\u00e3o envolvidos no comportamento de sobre-alimenta\u00e7\u00e3o.<br \/>\n\u00c9 prov\u00e1vel. \u00c9 prov\u00e1vel tamb\u00e9m que esses processos se associem com outras desordens mentais, particularmente as de humor. E que tamb\u00e9m se combinem perversamente com componentes culturais, como a instala\u00e7\u00e3o do h\u00e1bito de consumir hamb\u00fargeres entre crian\u00e7as de sociedades industrializadas. E que tudo isso se ajuste ao conceito contempor\u00e2neo da obesidade como uma s\u00edndrome complexa envolvendo determinantes socio-culturais, gen\u00e9ticos, fisiol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos.<br \/>\nNo entanto, eu acredito que a separa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o a seu corpo explica bastante tamb\u00e9m. Digo isso por causa do comportamento alimentar altamente deliberado dos atletas que observo. N\u00e3o acredito que essa popula\u00e7\u00e3o seja geneticamente t\u00e3o distinta da popula\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria sob o ponto de vista dos elementos corticais e sub-corticais relatados por Davis e colaboradores. S\u00f3 que esses elementos n\u00e3o produzem o mesmo efeito comportamental em indiv\u00edduos que conseguiram se apropriar de seus corpos.<br \/>\nEu acho isso. Por enquanto.<\/p>\n<p>Marilia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu tenho alguns conhecidos muito acima do peso, poucos realmente obesos. Uma dessas pessoas se corresponde regularmente comigo. J\u00e1 calculei algumas dietas para ela, fiz um grande n\u00famero de sugest\u00f5es para administrar comida, mas nenhuma deu resultado. 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