{"id":5210,"date":"2005-10-27T06:25:00","date_gmt":"2005-10-27T06:25:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/trivializando-o-conceito-de-dependencia-na-base-do-preconceito\/"},"modified":"2005-10-27T06:25:00","modified_gmt":"2005-10-27T06:25:00","slug":"trivializando-o-conceito-de-dependencia-na-base-do-preconceito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/trivializando-o-conceito-de-dependencia-na-base-do-preconceito\/","title":{"rendered":"Trivializando o conceito de depend\u00eancia na base do preconceito"},"content":{"rendered":"<p>Vivemos a era das \u201cnovas adi\u00e7\u00f5es (ou depend\u00eancias)\u201d. Inicialmente, o conceito de depend\u00eancia era aplicado a \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias psico-ativas. Ao longo do tempo, outras categorias de comportamentos compulsivos foram incorporadas: jogo, sexo, comida e, agora, recentemente, atividade f\u00edsica. Essa \u00faltima categoria tem sofrido, na \u00faltima d\u00e9cada, um florido desmembramento, gerando as sub-categorias da \u201cdismorfia muscular\u201d e agora, este ano, \u201cdepend\u00eancia de fisiculturismo\u201d.<br \/>\nEu acredito que esses desdobramentos recentes representam um abuso do conceito de depend\u00eancia, beirando o rid\u00edculo. Para explorar essa hip\u00f3tese, \u00e9 importante revisar o pr\u00f3prio conceito.<br \/>\nGoodman (A. Goodman, Addiction: definition and implications,  1: Br J Addict. 1990 Nov;85(11):1403-8.) identificou dificuldades para operacionalizar o conceito de \u201cdepend\u00eancia\u201d ou \u201cadi\u00e7\u00e3o\u201d na teoria e pr\u00e1tica da psiquiatria por falta de consenso em sua defini\u00e7\u00e3o. Ele prop\u00f5e a ado\u00e7\u00e3o de um conceito segundo o qual depend\u00eancia \u00e9 um comportamento que pode funcionar tanto para produzir prazer como para proporcionar uma fuga de descoforto interno, num padr\u00e3o caracterizado por: 1. fracasso recorrente em controlar o comportamento (impot\u00eancia); 2. manuten\u00e7\u00e3o do comportamento a despeito das consequ\u00eancias negativas (\u201cunmanageability\u201d \u2013 descontrole, incapacidade de administrar). No mesmo ano, Miele e colaboradores publicaram um trabalho comentando a maior abrang\u00eancia do conceito de depend\u00eancia qu\u00edmica no DSM-III-R e ICD-10, manuais de refer\u00eancia diang\u00f3stica em psiquiatria. Nesses conceitos mais amplos, a defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o requer mais toler\u00e2ncia e sintomas de abstin\u00eancia, dando maior \u00eanfase aos aspectos de compulsividade. Depend\u00eancia e desordens compulsivas e obsessivas se tornaram assim, bastante pr\u00f3ximas e dif\u00edceis de distinguir.<br \/>\nPara complicar o quadro, existe o conceito de \u201cabuso\u201d. \u201cAbuso\u201d de uma subst\u00e2ncia \u00e9 o uso excessivo da mesma ou o uso da mesma para fins outros que aquele para o qual ela \u00e9 destinada na medicina. Feingold e Rounsaville (Feingold A, Rounsaville B., Construct validity of the abuse-dependence distinction as measured by DSM-IV criteria for different psychoactive substances, Drug Alcohol Depend. 1995 Aug;39(2):99-109.) revisaram o emprego destes conceitos e concluiram que n\u00e3o h\u00e1 bases para uma distin\u00e7\u00e3o categ\u00f3rica entre abuso e depend\u00eancia, estando os mesmos situados ao longo de um cont\u00ednuum. Wideger e Smith, na mesma linha, apontam que esse \u00e9 o continuum do descontrole sobre um comportamento (Widiger TA, Smith GT., Substance use disorder: abuse, dependence and dyscontrol., Addiction. 1994 Mar;89(3):267-82).<br \/>\nNo entanto, se abuso e depend\u00eancia se referem a comportamentos de descontrole sobre o uso de uma subst\u00e2ncia psico-ativa, como aplicar o conceito de depend\u00eancia a comportamentos que n\u00e3o envolvem o uso delas? Wiesbeck e Taschner (Wiesbeck GA, Taschner KL., [Comments on the definition of so-called &#8220;new addictions&#8221;], Versicherungsmedizin. 1993 Jun 1;45(3):82-5.) comentaram a quest\u00e3o e apontaram alguns perigos. Para os autores, a aplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-cr\u00edtica do conceito de depend\u00eancia pode levar a uma \u201cinfla\u00e7\u00e3o de depend\u00eancias\u201d (provavelmente o que observamos hoje). Nesse caso, o conceito perde seu poder preditivo e se torna in\u00fatil. Alguns anos antes, Jaffe (Jaffe JH Trivializing dependence, Br J Addict. 1990 Nov;85(11):1425-7; discussion 1429-31.) alertou para o perigo da \u201ctrivializa\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia\u201d, atitude intelectual na qual arrancar cabelos compulsivamente e o uso di\u00e1rio de hero\u00edna s\u00e3o colocados na mesma categoria, por exemplo. Para o autor, isso levaria a uma eros\u00e3o do apoio p\u00fablico a pol\u00edticas de interven\u00e7\u00e3o sobre depend\u00eancia qu\u00edmica, quest\u00e3o s\u00e9ria em sa\u00fade p\u00fablica.<br \/>\nAparentemente, o cerne da discuss\u00e3o e provavelmente o que deveria ser o crit\u00e9rio central para a identifica\u00e7\u00e3o de uma depend\u00eancia \u00e9 o fracasso nas tentativas de controle, ou seja: o indiv\u00edduo est\u00e1 involuntariamente comprometido com a \u201cativa\u00e7\u00e3o psicotr\u00f3pica\u201d em quest\u00e3o (assumindo que possamos empregar o conceito de depend\u00eancia fora do contexto do uso de subst\u00e2ncias ex\u00f3genas).<br \/>\nO pr\u00f3ximo passo para julgar a pertin\u00eancia das \u201cnovas adi\u00e7\u00f5es\u201d, portanto, \u00e9 explorar esse aspecto: em que medida a pr\u00e1tica constante e de alta frequ\u00eancia de atividade f\u00edsica \u00e9 involunt\u00e1ria? Em que medida ela foge ao controle do indiv\u00edduo e, assim, prejudica outros aspectos de sua vida emocional, f\u00edsica e social?<br \/>\nDeixo essas perguntas ao leitor para retomar, em seguida, a discuss\u00e3o mais espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos a era das \u201cnovas adi\u00e7\u00f5es (ou depend\u00eancias)\u201d. Inicialmente, o conceito de depend\u00eancia era aplicado a \u00e1lcool e outras subst\u00e2ncias psico-ativas. Ao longo do tempo, outras categorias de comportamentos compulsivos foram incorporadas: jogo, sexo, comida e, agora, recentemente, atividade f\u00edsica. 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