{"id":5224,"date":"2005-12-11T09:55:00","date_gmt":"2005-12-11T09:55:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/as-unhas-e-o-politicamente-correto\/"},"modified":"2005-12-11T09:55:00","modified_gmt":"2005-12-11T09:55:00","slug":"as-unhas-e-o-politicamente-correto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/as-unhas-e-o-politicamente-correto\/","title":{"rendered":"As unhas e o politicamente correto"},"content":{"rendered":"<p>Quinta-feira passada, precisamente, ouvi pela primeira vez o termo \u201cfrancesinha\u201d aplicado a algo que n\u00e3o seja uma pequena mulher nascida na Fran\u00e7a. Quem me introduziu ao termo foi bem diplom\u00e1tico. Disse que mulheres bonitas, como eu, \u00e0s vezes pecavam por serem relapsas, n\u00e3o atentando para detalhes est\u00e9ticos como unhas, cabelo e depila\u00e7\u00e3o. E exemplificou tais detalhes, em rela\u00e7\u00e3o aos quais eu desconhe\u00e7o at\u00e9 mesmo a terminologia correta. O que \u00e9 francesinha? Meu amigo ficou incr\u00e9dulo. Como era poss\u00edvel uma mulher de 42 anos desconhecer uma coisa t\u00e3o bem difundida? Ele tentou me explicar, dizendo que era uma meneira de pintar as unhas, com as pontas mais claras. Nunca viu? N\u00e3o, eu nunca tinha visto&#8230; Nunca??!! Nunquinha. Ou melhor: devo ter visto centenas de vezes, mas nunca prestei aten\u00e7\u00e3o nem registrei o detalhe.<br \/>\nComo tenho motivos para levar fortemente em considera\u00e7\u00e3o a opini\u00e3o desse amigo, resolvi investigar o assunto, pois para mim ainda podia ser apenas uma tara espec\u00edfica dele. No dia seguinte, perguntei a outro amigo: \u201cme diga uma coisa, unha feminina tem alguma import\u00e2ncia er\u00f3tica para os homens?\u201d O outro amigo respondeu com cautela, achando que podia ser alguma pegadinha ou sacanagem minha. Sim&#8230; Tem, sim&#8230; Assim como v\u00e1rios outros detalhes.<br \/>\nNossa! V\u00e1rios outros detalhes?! J\u00e1 um pouco preocupada, resolvi checar com um terceiro homem heterossexual. Afinal: unha \u00e9 importante no contexto er\u00f3tico? A cor importa? O comprimento importa?<br \/>\nImporta, sim! E, ainda por cima, \u201cfrancesinha pira os homens\u201d!!<br \/>\nEu precisava saber o que era uma \u201cfrancesinha\u201d. Digitei o termo no Google e comecei minha pesquisa. Francesinha \u00e9 uma t\u00e9cnica de manicure onde as pontas de unhas relativamente longas s\u00e3o pintadas de cor diferente (em geral mais claras) do que o resto. Existem m\u00e9todos para se conseguir isso \u2013 caso contr\u00e1rio, vira uma lamban\u00e7a infernal. Adesivos que se cola na unha para demarcar \u00e1reas de cor diferente. Tudo muito complexo.<br \/>\nFui \u00e0 Itikawa, a loja de cosm\u00e9ticos onde fiz amizade com os esteticistas que nos \u00faltimos dois anos v\u00eam me instruindo no maravilhoso mundo dos creminhos e melequinhas e falei: \u201cpreciso de coisas para unhas\u201d. Do que? Tudo. Sei l\u00e1. Todos esses trecos. Comprei uma p\u00e1 de coisas: alicatinhos, uns pauzinhos estranhos para cutucar os dedos, coisas que limpam, coisas que secam e, naturalmente, os essenciais esmaltes. Como n\u00e3o consigo me ver com esse visual convencional rosinha ou branquinho, comprei azul e umas duas outras cores que me pareceram interessantes.<br \/>\nSa\u00ed dessa incurs\u00e3o \u00e0 Itikawa e \u00e0 parte mais ex\u00f3tica do Google com uma pergunta na cabe\u00e7a: em que planeta eu vivi nos \u00faltimos 40 anos?<br \/>\nE me respondi: no escroto planeta do politicamente correto.<br \/>\nH\u00e1 muitos e muitos anos atr\u00e1s, quando eu emergi, de uma inf\u00e2ncia onde a beleza feminina tinha um valor negativo, para a adolesc\u00eancia, fui sequestrada para dentro do mundo politicamente correto da esquerda brasileira. \u00c9 um mundo feio, autorit\u00e1rio, altamente machista e mis\u00f3gino. Nele, se aprende rapidamente a reprimir tudo que seja valoriza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, estigmatizado como desvio pequeno-burgu\u00eas.<br \/>\nS\u00f3 sa\u00ed parcialmente desse mundo (pois ele contamina o seguinte) para dentro de outro universo igualmente politicamente correto, ainda que um pouco mais sofisticado: o mundo acad\u00eamico. Estudei, fiz minhas teses, transei meus homens, construi minha fam\u00edlia \u2013 tudo dentro desse mundo, segundo seus valores.<br \/>\nFora dele, praticamente n\u00e3o tive intera\u00e7\u00f5es pessoais.<br \/>\nAssim, eu nunca fui socializada em nenhuma outra pr\u00e1tica de comunica\u00e7\u00e3o visual corporal. At\u00e9 cerca de um ano atr\u00e1s, depilar pelos pubianos era, para mim, um procedimento de prepara\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. Nem me passava pela cabe\u00e7a que algu\u00e9m fizesse isso com objetivos er\u00f3ticos. Hoje eu n\u00e3o consigo imaginar pelos nessa parte do corpo, pois para mim sexo e pelo absolutamente n\u00e3o combinam.<br \/>\nSinceramente, diante de tudo isso, eu me sinto um pouco roubada. Esse mundo do qual eu fui privada \u00e9 muito mais divertido, muito mais er\u00f3tico e muito mais bonito. Tudo que \u00e9 legal e interessante \u00e9, no universo politicamente correto, errado: piercing, depilar, tigir cabelo e colocar pr\u00f3tese de silicone.<br \/>\nA esquerda e a intelectualidade oficial devem ter um problema muito s\u00e9rio com sua pr\u00f3pria sexualidade. Algum psicanalista politicamente incorreto precisaria descobrir por que&#8230;<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quinta-feira passada, precisamente, ouvi pela primeira vez o termo \u201cfrancesinha\u201d aplicado a algo que n\u00e3o seja uma pequena mulher nascida na Fran\u00e7a. Quem me introduziu ao termo foi bem diplom\u00e1tico. Disse que mulheres bonitas, como eu, \u00e0s vezes pecavam por serem relapsas, n\u00e3o atentando para detalhes est\u00e9ticos como unhas, cabelo e depila\u00e7\u00e3o. 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