{"id":5229,"date":"2006-01-02T21:38:00","date_gmt":"2006-01-02T21:38:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-besta-humana-e-o-corpo-doente\/"},"modified":"2006-01-02T21:38:00","modified_gmt":"2006-01-02T21:38:00","slug":"a-besta-humana-e-o-corpo-doente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-besta-humana-e-o-corpo-doente\/","title":{"rendered":"A besta humana e o corpo doente"},"content":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia do ano, fui almo\u00e7ar com uma amiga perto da minha casa, que fica perto da USP. Ficamos batendo papo at\u00e9 as 16h, quando peguei meu carro e fui para casa. Ela pegou a moto dela e nem chegou at\u00e9 a esquina quando um motorista num Pejault entrou na sua traseira. Minha amiga caiu, esfolou e cortou as pernas e deve ter tido alguma outra les\u00e3o de partes moles. Obviamente ficou muito chocada, mas teve a presen\u00e7a de esp\u00edrito de ligar para mim. Eu nem tinha alcan\u00e7ado meu condom\u00ednio ainda, fiz meia-volta e encontrei-a toda suja e rasgada na avenida, com o motorista e a pol\u00edcia por perto. O motorista tentava insistir que n\u00e3o tinha culpa, ela estava nervos\u00edssima e machucada e eu combinei com os policiais que a levaria ao hospital e depois \u00e0 delegacia. Levei-a \u00e0 Emerg\u00eancia do H.U. (Hospital Universit\u00e1rio), onde desci com ela na cadeira de rodas (minha t\u00e9cnica j\u00e1 conhecida para enfatizar a gravidade da les\u00e3o e assim acelerar o atendimento) e entramos.<br \/>\nA Emerg\u00eancia n\u00e3o estava bombando como j\u00e1 vi em outros tempos. Acho que haviam umas cinco camas ocupadas e uns quatro pacientes indo e vindo, com les\u00f5es leves. Muitos m\u00e9dicos, residentes e estudantes circulavam por ali. Vinham em grupinhos de dois ou tr\u00eas para dar uma olhada. V\u00e1rios grupinhos \u201cderam uma olhada\u201d antes de pedirem uma radiografia. Minha amiga tinha dor \u2013 muita dor. E estava t\u00e3o ansiosa que seus dentes rangiam. Nenhum desses sintomas mereceu a menor aten\u00e7\u00e3o por parte de ningu\u00e9m \u2013 m\u00e9dicos ou enfermeiros.<br \/>\nDe posse de um pedido de radiografia, eu mesma levei minha amiga para o setor respons\u00e1vel, onde foram feitas as chapas. Voltamos com elas para a Emerg\u00eancia e um dos grupinhos examinou-as. N\u00e3o havia fraturas. Um dos m\u00e9dicos fez uma receita para um anti-inflamat\u00f3rio e estava encerrando o assunto quando minha amiga salientou duas coisas: primeiro, que seu corte n\u00e3o parava de sangrar e que ela sentia cacos de vidro em algumas feridas, que, at\u00e9 o momento, sequer tinham sido desinfetadas. Segundo, que ela n\u00e3o suportava mais a dor. N\u00e3o aplicaram nenhum analg\u00e9sico ali: nos encaminharam para um outro setor, o setor de medica\u00e7\u00e3o, onde havia uma outra fila. Tentamos esperar a enfermeira para fazer o curativo e ent\u00e3o nos colocar na fila da medica\u00e7\u00e3o, mas depois de quase 40 min sem nenhum atendimento, a dor falou mais alto e fomos atr\u00e1s do al\u00edvio.<br \/>\nPermanecemos cerca de meia-hora na fila at\u00e9 que minha amiga recebesse uma inje\u00e7\u00e3o com analg\u00e9sico e anti-inflamat\u00f3rio. Ela chorava bastante e lembrou-se que tinha um Lexotan na carteira. Eu peguei \u00e1gua e ela tomou o comprimido.<br \/>\nDe volta \u00e0 Emerg\u00eancia, ningu\u00e9m parecia saber o que fazer. Ela pediu atendimento e as respostas foram todas r\u00edspidas, irritadas, como se ela, toda suja, com ferimentos expostos e um corte sangrando o tempo todo, estivesse solicitando um privil\u00e9gio inadmiss\u00edvel qualquer.<br \/>\nDepois de muito tempo, conseguimos que algu\u00e9m aparecesse, limpasse o ferimento e conclu\u00edsse que ela estava certa e era necess\u00e1rio suturar o corte. S\u00f3 ent\u00e3o chamaram um cirurgi\u00e3o, que n\u00e3o tinha id\u00e9ia do que os ortopedistas haviam feito. E as enfermeiras n\u00e3o podiam se importar menos.<br \/>\nFeita a sutura, finalmente levei-a para a delegacia, onde o atendimento foi bastante r\u00e1pido e eficiente.<br \/>\nNo meio da via-crucis, minha amiga, chorando, comentou que o problema era o \u201csucateamento da sa\u00fade p\u00fablica pelo PSDB\u201d. Nesse momento, e s\u00f3 nesse, eu me irritei. Me contive, pois ela sofria e me \u00e9 muito querida. Mas esse discurso \u00e9 o que h\u00e1 de absurdo. N\u00f3s duas estudamos ao lado daquele hospital. Passamos cinco longos anos de nossas vidas no Instituto de Bioci\u00eancias, onde nos formamos bi\u00f3logas. Depois disso, eu ainda passei mais quase onze anos por ali, entre mestrado, doutorado e p\u00f3s-doutoramento. Conhe\u00e7o o H.U., portanto, h\u00e1 24 anos. Ele nunca foi melhor \u2013 nem pior. Sempre foi a mesma merda. V\u00e1rias administra\u00e7\u00f5es estaduais se sucederam \u2013 nada mudou, nunca.<br \/>\nO que eu observo, com o benef\u00edcio dos anos, \u00e9 a const\u00e2ncia de algo que vai muito al\u00e9m do descaso hist\u00f3rico com a sa\u00fade p\u00fablica no Brasil \u2013 cujos respons\u00e1veis s\u00e3o muitos e complexos. \u00c9 o exerc\u00edcio s\u00e1dico dos \u201cpequenos poderes\u201d. E ele \u00e9 particularmente importante quando exercido sobre um corpo doente, mutilado ou, de alguma outra forma, desabilitado.<br \/>\nN\u00e3o fui eu que inventei essa id\u00e9ia dos pequenos poderes, s\u00f3 estou usando. \u00c9 simples: quando o indiv\u00edduo tem pouco controle da pr\u00f3pria vida, \u00e9 genericamente frustrado, mal recompensado pelas poucas habilidades que pode desenvolver, a pequena amplitude de poder que lhe \u00e9 dada \u00e9 ABUSADA. Esses s\u00e3o os \u201cpequenos poderes\u201d. \u00c9 o caso da imensa maioria de funcion\u00e1rios p\u00fablicos no Brasil (e tamb\u00e9m em outros pa\u00edses). S\u00e3o mal remunerados, praticamente n\u00e3o t\u00eam planos de carreira, sua perspectiva de ascens\u00e3o social \u00e9 desprez\u00edvel&#8230; enfim, que vida, n\u00e3o? E a\u00ed a coisa degringola porque os humanos s\u00e3o, mesmo, perversos. Ou pelo menos o s\u00e3o na nossa sociedade, que \u00e9 o que importa.<br \/>\nEm hospitais e no sistema de sa\u00fade, em geral, a coisa piora. Quem precisa de atendimento est\u00e1 doente ou mutilado. O corpo desfuncional d\u00e1 ao indiv\u00edduo uma vulnerabilidade adicional, que estimula o comportamento abusivo dos portadores de pequenos poderes. \u00c9 escroto. \u00c9 nojento. Mas \u00e9 isso que a gente observa e que eu passei quatro horas vendo no H.U.<br \/>\nUma semana antes eu tive que recorrer a atendimento hospitalar tamb\u00e9m. S\u00f3 que eu pago plano de sa\u00fade! E fui a um excelente hospital paulista, o S\u00e3o Luiz. Tive tratamento de primeira qualidade, foram feitos os exames necess\u00e1rios e os m\u00e9dicos, plantonistas num dia de Natal, eram bons profissionais.<br \/>\nO contraste n\u00e3o podia ser maior.<br \/>\nNos Estados Unidos, onde morei por seis anos e tive que usar o sistema de sa\u00fade (privado, sempre), o atendimento \u00e9 horroroso. Todos t\u00eam hist\u00f3rias de terror para contar e eu tenho muitas. Atendimento em emerg\u00eancia hospitalar, s\u00f3 se voc\u00ea estiver realmente morrendo e morrendo rapidamente. Cirurgia, pode esquecer: a abund\u00e2ncia de erros m\u00e9dicos \u00e9 enorme, o tempo de recupera\u00e7\u00e3o hospitalar foi reduzido ao rid\u00edculo (a ponto de mandar \u201cv\u00edtimas\u201d de cirurgias muito invasivas em dois dias para casa) e, se o hospital tiver algum v\u00ednculo com o Estado, o limite para indeniza\u00e7\u00e3o por erro m\u00e9dico em boa parte dos estados \u00e9 irris\u00f3rio. Nas salas de emerg\u00eancia, a crueldade impera.<br \/>\nPor que seria assim? Eu acredito que l\u00e1, onde as companhias seguradoras t\u00eam controle absoluto do sistema nacional de sa\u00fade, a ponto de limitar at\u00e9 mesmo o n\u00famero e qualidade de exames e interven\u00e7\u00f5es que os m\u00e9dicos podem solicitar, a coisa degringolou para uma situa\u00e7\u00e3o semelhante ao nosso sistema p\u00fablico em termos de din\u00e2mica de atendimento. Os profissionais t\u00eam pouco controle sobre o que fazem, est\u00e3o instatisfeitos, enfim, exercem seus pequenos e grandes poderes. Isso somado ao fato de que se trata de uma sociedade onde a hostilidade racial e religiosa \u00e9 enorme e as pessoas s\u00e3o de maneira geral defensivas e um pouco b\u00e9licas.<br \/>\nMoral da hist\u00f3ria: \u00e9 bom n\u00e3o ficar doente, nunca. Pois \u00e9 nesse momento de maior necessidade e vulnerabilidade que encontramos o pior que existe nos humanos.<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No \u00faltimo dia do ano, fui almo\u00e7ar com uma amiga perto da minha casa, que fica perto da USP. Ficamos batendo papo at\u00e9 as 16h, quando peguei meu carro e fui para casa. 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