{"id":5236,"date":"2006-02-05T12:03:00","date_gmt":"2006-02-05T12:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/o-dilema-do-professor-de-academias-sacerdotes-involuntarios\/"},"modified":"2006-02-05T12:03:00","modified_gmt":"2006-02-05T12:03:00","slug":"o-dilema-do-professor-de-academias-sacerdotes-involuntarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/o-dilema-do-professor-de-academias-sacerdotes-involuntarios\/","title":{"rendered":"O dilema do professor de academias \u2013 sacerdotes involunt\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p>SOBRE PESSOAS, INSTITUI\u00c7\u00d5ES E PROJETOS PESSOAIS<\/p>\n<p>As id\u00e9ias de hoje foram provocadas por uma conversa r\u00e1pida que tive com um amigo, obviamente professor de academia, cuja especialidade prefiro omitir por seguran\u00e7a.<br \/>\nMas vou come\u00e7ar contando duas historinhas:<br \/>\nEm 1994, quando defendi minha tese de doutorado, mais ou menos tudo ia errado: quase na v\u00e9spera da entrega do texto na Comiss\u00e3o de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o, o departamento em que eu me graduava na USP resolveu descredenciar meu orientador por uma quest\u00e3o pol\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 UNICAMP, que era a universidade onde ele mantinha o v\u00ednculo de fato. Tivemos que ca\u00e7ar \u00e0s pressas quem assinasse a entrega, depois houve mais problemas bobos, por\u00e9m estressantes, quanto \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da banca, perdi arquivos numa troca de sistema operacional no computador (naquela \u00e9poca, tudo era muito mais complicado), o dito cujo quebrou, meu casamento apodrecia mas se recusava a morrer, eu negociava uma vaga de trabalho em outro estado, em condi\u00e7\u00f5es complicadas, enfim&#8230; uma caca indescrit\u00edvel. Durante o processo, quem mais segurou minha onda foi o Marcus, meu professor de ioga, que eu visitava todo dia e me ajudava a alongar e relaxar, uma vez que mais ou menos tudo do\u00eda de tens\u00e3o. Eu precisava ouvir a voz do Marcus comandando meus movimentos e, assim, recuperar o contato com o resto do meu corpo, entrar em comunh\u00e3o comigo mesma. \u00c9 mais ou menos assim que eu vejo a atividade f\u00edsica, onde existe uma rela\u00e7\u00e3o com o sentido mais profundo da \u201creligi\u00e3o\u201d, cuja origem etimol\u00f3gica \u00e9 \u201cre-ligar\u201d. Para a religi\u00e3o, re-ligar com o divino externo (um deus, um esp\u00edrito), para mim, re-ligar consigo, se integrar, virar uma coisa s\u00f3 novamente (com corpo e mente unidos).<br \/>\nOutra historinha: durante minha gradua\u00e7\u00e3o, me tornei amiga de v\u00e1rios professores, namorei alguns, casei com um e de maneira geral posso dizer que aquela universidade favorece essa mistura. Mas uma pessoa era especial: Marilda Sawaya. Ela foi minha professora de fisiologia e foi a pessoa mais s\u00e1bia e centrada que eu conheci. Eramos muito amigas, almo\u00e7avamos juntas e n\u00e3o havia decis\u00e3o importante na vida que eu tomasse sem antes discutir com ela e ouvir sua opini\u00e3o. Ela era minha refer\u00eancia. O importante, para mim, era saber que ela sempre estaria l\u00e1, naquele laborat\u00f3rio, e que nos piores momentos eu poderia simplesmente ir at\u00e9 o pr\u00e9dio da Zoo e subir at\u00e9 o segundo andar. Foi assim at\u00e9 que ela morreu, em 1996. Apareceu um buraco na minha vida, buraco esse com correspond\u00eancia espacial. Sentia falta dela, mas, de repente, em v\u00e1rios momentos, eu n\u00e3o tinha para onde ir. Uma ou duas vezes fui pateticamente at\u00e9 a Zoo, subi as escadas e fiquei parada na frente da porta do laborat\u00f3rio, que ent\u00e3o j\u00e1 tinha uma plaquinha com outro nome&#8230;<br \/>\nContei essas hist\u00f3rias para dizer que a gente cria certos tipos de v\u00ednculo em que a pessoa, o lugar e o contexto institucional est\u00e3o ligados. Claro que eu podia ligar para o Marcus e conversar com ele. Mas o importante era o contexto da aula de ioga. Claro que podia encontrar a Marilda em qualquer outro lugar, mas a presen\u00e7a dela ali era um marco.<br \/>\nEu acredito que os frequentadores de academia bem-sucedidos, aqueles que conseguem fazer daquele espa\u00e7o um em que promovem para si mesmos uma condi\u00e7\u00e3o de bem-estar, muitas vezes criam essas rela\u00e7\u00f5es especiais que envolvem pessoas-atividades-contextos. As pessoas em quest\u00e3o s\u00e3o os professores da academia.<br \/>\nTenho muitos amigos que s\u00e3o professores e tudo que sei sobre isso que descrevo aqui vem do que eles me contam, dos coment\u00e1rios dos alunos e do que eu mesma observo no meu dia-a-dia dentro de uma grande academia de S\u00e3o Paulo.<br \/>\nUma evid\u00eancia importante veio tamb\u00e9m de uma pequena pesquisa que fiz em comunidades virtuais de academias pelo pa\u00eds, onde pude perceber que a fidelidade dos frequentadores das academias n\u00e3o \u00e9 por esta ou aquela aula, ainda que padronizada, tipo Body Systems. A fidelidade \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com o professor.<br \/>\nExplico: o sujeito curte aula de spinning. Mas se \u201caquele\u201d professor de spinning come\u00e7ar a dar uma aula do tipo \u201ccombat\u201d tamb\u00e9m, esse aluno tem grandes chances de migrar para essa nova modalidade. A mo\u00e7a gosta da aula de street-dance da Marina. Mas a\u00ed a Marina tamb\u00e9m d\u00e1 aula de step intermedi\u00e1rio. A mo\u00e7a passa a fazer step intermedi\u00e1rio e fica at\u00e9 compente na coisa. Mas na hora em que a academia mudar o hor\u00e1rio da Marina, a mo\u00e7a vai voltar a fazer s\u00f3 street, com a Marina, porque a rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o era com step nem com street, e sim com a professora.<br \/>\nA academia, com diversos graus de degenera\u00e7\u00e3o, reproduz em sala de aula a rela\u00e7\u00e3o entre mestre e aprendiz, que todo bom praticante de artes marciais conhece. A presen\u00e7a, a voz, e o direito \u00e0 confian\u00e7a no mestre s\u00e3o aquilo que o aprendiz busca para recuperar seu centro, e assim caminhar em dire\u00e7\u00e3o a seja l\u00e1 o que for.<br \/>\nMuito profundo para se falar dessa coisa f\u00fatil que \u00e9 academia? De jeito nenhum&#8230; N\u00e3o mesmo&#8230; As pessoas que, repito, s\u00e3o \u201cfrequentadores bem-sucedidos\u201d de academias desenvolvem precisamente essa rela\u00e7\u00e3o com pessoas-lugar-contexto. Elas v\u00e3o \u00e0 academia para recuperar aquilo que, durante o dia, a sociedade lhes rouba.<br \/>\nVi situa\u00e7\u00f5es em que alunos ficam absolutamente perplexos, perdidos, sem saber o que fazer, porque \u201cseu\u201d professor foi demitido ou seu hor\u00e1rio trocado. Muitas vezes deixam a academia, desanimados.<br \/>\nSer\u00e1 que os administradores de academias sabem disso? N\u00e3o nesse n\u00edvel, porque isso iria requerer uma atitude muito profissional de solicitar estudos sobre o perfil psico-social e a din\u00e2mica antropol\u00f3gica em curso, coisa que s\u00f3 os americanos t\u00eam a saca\u00e7\u00e3o de perceber que gera lucro. Mas num outro, muito utilit\u00e1rio, sabem, sim. E usam essa rela\u00e7\u00e3o para melhor explorar os professores, que tamb\u00e9m desenvolvem uma rela\u00e7\u00e3o mestre-aprendiz com seus alunos, com tudo de responsabilidade e dedica\u00e7\u00e3o que isso envolve. Tamb\u00e9m usam, ainda que de maneira desastrada e mal planejada, essa mesma rela\u00e7\u00e3o para combater a rotatividade de frequentadores.<br \/>\nIsso tudo que eu escrevi n\u00e3o \u00e9 muito ben\u00e9volo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s academias, eu sei bem. Mas acho que \u00e9 real e reflete um dilema s\u00e9rio destes que considero os profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade menos valorizados no mercado atualmente: trabalham para uma empresa capitalista com objetivos de curto-prazo e em constante transforma\u00e7\u00e3o, mas lidam com rela\u00e7\u00f5es complicadas e profundas sob o ponto de vista humano.<br \/>\nS\u00e3o os sacerdotes involunt\u00e1rios de uma igreja que n\u00e3o os quer.<\/p>\n<p>(esse texto \u00e9 dedicado aos meus amigos professores cujos nomes n\u00e3o posso mencionar, mas que sabem quem s\u00e3o)<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRE PESSOAS, INSTITUI\u00c7\u00d5ES E PROJETOS PESSOAIS As id\u00e9ias de hoje foram provocadas por uma conversa r\u00e1pida que tive com um amigo, obviamente professor de academia, cuja especialidade prefiro omitir por seguran\u00e7a. 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