{"id":5242,"date":"2006-02-18T22:09:00","date_gmt":"2006-02-18T22:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/sobre-meninos-e-aranhas\/"},"modified":"2006-02-18T22:09:00","modified_gmt":"2006-02-18T22:09:00","slug":"sobre-meninos-e-aranhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/sobre-meninos-e-aranhas\/","title":{"rendered":"Sobre meninos e aranhas"},"content":{"rendered":"<p>Quero falar sobre meninos, aranhas, teias e as \u201ciron arts\u201d. Mas, antes de mais nada, este texto \u00e9 sobre uma teia.<br \/>\nHoje fiz uma visita \u00e0 Roldan, a academia mais antiga do Brasil, que fica quase na esquina mais c\u00e9lebre, controversa, paradoxal e desconsertante do pa\u00eds: Av. Ipiranga com S\u00e3o Jo\u00e3o, centro de S\u00e3o Paulo, s\u00edtio de deslumbramento e de trag\u00e9dia nas letras de Paulo Vanzolini e Caetano Veloso.<br \/>\nA Roldan fica no 3\u00ba andar de um edif\u00edcio antigo. No segundo, h\u00e1 uma sex-shop. Tem todo tipo de gente por ali: prostitutas, trabalhadores do com\u00e9rcio pobre da regi\u00e3o, policiais, entre milhares de outros \u201ctipos\u201d.<br \/>\nFui l\u00e1 para fotografar dumbells antigos, imagens para o projeto gr\u00e1fico do meu (iron) brother Stevie, fundador da comuna-orkut Bodybuilding-brasil (http:\/\/www.orkut.com\/Community.aspx?cmm=1608263). A Bodybuilding-brasil \u00e9 uma comunidade virtual voltada para discutir quest\u00f5es sobre treino, nutri\u00e7\u00e3o e tudo relativo \u00e0s \u201ciron arts\u201d. Tem se tornado cada vez mais um polo educativo, onde muitos jovens praticantes de todas as partes do pa\u00eds procuram informa\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00e3o. Digamos que o Stevie \u00e9 o \u201cn\u00f3 no. 1\u201d da teia.<br \/>\nNa Roldan, encontrei dumbells de todos os tipos e tamanhos, fiz muitas imagens, tudo com a ajuda do professor Marc\u00e3o. Marc\u00e3o \u00e9 professor de mucula\u00e7\u00e3o e Muai-Tai, mergulhador, Ph.D. na arte de viver e desenvolve projetos ligados \u00e0 qualidade de vida. Enquanto ele me ajudava na \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d das imagens, sugeria \u00e2ngulos e arranjos, me falou um bocado sobre a rela\u00e7\u00e3o entre nosso estilo de vida e a qualidade dela, e o quanto de contribui\u00e7\u00e3o isso representa para o mundo em geral. Marc\u00e3o \u00e9 o \u201cn\u00f3 no. 2\u201d da teia.<br \/>\nSa\u00ed da Roldan, feliz da vida com minhas preciosas imagens e meu novo amigo, com o mp3 na orelha e mochila nas costas, uma atitude totalmente absurda para aquela regi\u00e3o perigos\u00edssima, violenta e hostil. Nasci e cresci em S\u00e3o Paulo, n\u00e3o sou propriamente uma retardada, e, portanto, n\u00e3o teria nenhum motivo para me comportar dessa meneira imbecil. Mas por algum motivo, foi assim que caminhei \u2013 e caminhei muito, usei o Metro, fui at\u00e9 V. Mariana e voltei.<br \/>\nPeguei meu carro, estacionado na Cons. Crispiniano e segui em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Paulista, com os vidros abertos, mp3 ainda na orelha, ouvindo rock\u00e3o pesado, com a cabe\u00e7a no projeto gr\u00e1fico e tantos outros projetos que aquela manh\u00e3 me inspirava.<br \/>\nChegando na Ipiranga, fui assaltada. Era \u00f3bvio que seria: vidro aberto, mulher desatenta, som na orelha&#8230; \u00c9 como se eu gritasse pela janela: \u201cassaltem-me\u201d. E vieram, uma penca deles. Eram uns sete ou oito meninos, eu diria que entre 12 e 18 anos, embora parecessem crian\u00e7as pequenas. Seus bracinhos eram t\u00e3o finos quanto meus punhos, meleca no nariz, remela nos olhos e ar assustado. Falavam baixinho, um pequenininho era o l\u00edder: \u201cd\u00e1 o dinheiro, a gente s\u00f3 quer o dinheiro, passa logo se n\u00e3o a gente te fura&#8230;\u201d Os meninos s\u00e3o o \u201cn\u00f3 no. 3\u201d da teia.<br \/>\nNa hora, \u00e9 inevit\u00e1vel: quando a gente se d\u00e1 conta de que est\u00e3o fazendo uma proposta para a gente que implica em uma amea\u00e7a de morte, d\u00e1 aquela gelada geral. Mas eu fiquei calma e pedi a eles o mesmo. Disse que faria o que eles pediam e comecei a buscar na minha mochila. Minha mochila tinha tudo: blusa, potinhos de whey, uma c\u00e2mera digital de 5.1Mpixels, um celular novinho e muitas outras coisas que valiam bem mais do que a nota de 50 que eu tinha na carteira. Carteira que eu n\u00e3o achava na bagun\u00e7a. Eles tentavam me apressar dizendo que iriam me cortar se eu n\u00e3o pegasse logo a grana, que o sinal ia abrir&#8230; Pensei bem e conclui que era um risco real. Mas que, diante dele, o m\u00e1ximo que eu podia fazer era colaborar e tentar encontrar a maldita carteira, e que, se eles se desesperassem e tivessem um ataque de \u00f3dio, eu morreria. E se morresse? Bem, azar: tinha sido um dia legal, foi uma vida legal e seria uma pena, porque estava ficando cada vez mais legal. Mas tudo bem, tamb\u00e9m, porque valeu, puxa, at\u00e9 que foi bom ter sido t\u00e3o porra-louca, j\u00e1 imaginou se eu tivesse sido certinha? Ia ficar muito puta naquele momento, sabendo que iria morrer sem ter vivido a maior parte das coisas que valem a pena na vida. Que bom que n\u00e3o fui. Enquanto tinha esses pensamentos filos\u00f3ficos, esvaziava a mochila. Cairam tr\u00eas objetos importantes: dois frascos de iogurte com frutas e um ingresso usado para o Instituto Butant\u00e3, que guardei pela linda ilustra\u00e7\u00e3o de aranha, uma Loxosceles gaucho.<br \/>\nMe dei conta de que os bracinhos dos meninos entrando pela minha janela lembravam as pernas da Loxosceles. Meninhos-aranhas, t\u00e3o magrinhos e sem for\u00e7a, t\u00e3o sem for\u00e7a e sem dignidade, que s\u00f3 restou a eles buscar algum dinheiro com uma mulher claramente n\u00e3o-rica, mas descuidada. Cuja vida realmente n\u00e3o importa nada a eles. Cujo dinheiro talvez fosse o suficiente para supri-los do que quer que seja que eles precisem cheirar, fumar ou tomar para anestesiar a fome, a raiva e o absurdo de viver a vida que vivem.<br \/>\nA Loxosceles \u00e9 o \u201cn\u00f3 no. 4\u201d.<br \/>\nO sinal abriu, os meninos foram desencanando de mim, saindo aos poucos. Um \u00faltimo olhou para dentro e perguntou: \u201ctia, voc\u00ea me d\u00e1 pelo menos o danone?\u201d. N\u00e3o exigiu. N\u00e3o amea\u00e7ou. S\u00f3 pediu. Eu entreguei os frascos para ele e respondi: \u201cmas \u00e9 claro!\u201d. E ele disse: \u201cbrigado, tia. Desculpa a\u00ed. E vai com deus, que deus te acompanhe.\u201d Eu olhei para ele, sorri e disse: \u201cque \u00e9 isso, na boa&#8230; se cuida, e que deus acompanhe voc\u00eas tamb\u00e9m.\u201d<br \/>\nNem sei se acredito em deus. Mas pareceu a coisa certa a dizer ali. Eu n\u00e3o poderia acompanh\u00e1-los, os pais deles certamente haviam desistido disso h\u00e1 anos e o Estado&#8230; Bem, o Estado nunca acompanhou nem acompanhar\u00e1 nenhum deles. Sobra deus, se existir. Tomara que exista.<br \/>\nAquilo ficou na minha cabe\u00e7a enquanto eu dirigia, agora futilmente com os vidros fechados. Algu\u00e9m precisaria acompanhar esses meninos-aranhas. Os n\u00f3s da teia come\u00e7aram a se alinhavar.<br \/>\nPensei na Roldan e em tantas outras academias simples, algumas totalmente underground, nos segundos e terceiros andares de edif\u00edcios comerciais de regi\u00f5es complicadas de S\u00e3o Paulo. Bem na frente de onde se reunem os grupinhos de meninos-aranhas. Pensei nos bracinhos deles, na falta de grana, dignidade e for\u00e7a \u2013 for\u00e7a em todos os sentidos. Imaginei o que aconteceria se fosse poss\u00edvel dar a eles um pouco disso ao que todo ser humano deveria ter direito. Sei l\u00e1&#8230; Se fosse poss\u00edvel dar pelo menos umas 40g a mais de prote\u00edna a eles por dia, um pouco de leite e ovo, prote\u00edna barata, e permitir que eles fizessem algo com seus bracinhos e perninhas de aranha. Que pudessem puxar os dumbells que eu acabava de fotografar.<br \/>\nPensei no whey que tinha ficado no potinho na minha mochila, na minha dieta hiper-proteica, no dia em que decidi projet\u00e1-la, em que meu outro (iron) brother, Jaka, me disse que eu estava ingerindo pouca prote\u00edna. Pensei nas minhas quase 200g de prote\u00edna por dia, nas provavelmente menos de 50g de prote\u00edna semanais dos meninos-aranha, na academia-servi\u00e7o-social que um dia o Jaka tocou em Novo Hamburgo. Novo Hamburgo, Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, ga\u00facho. Loxoscelles gaucho. Jaka, o \u201cn\u00f3 no. 5\u201d.<br \/>\nMeninos-aranhas. Bodybuilding, uma poss\u00edvel porta para a dignidade. Brasil, pa\u00eds dos meninos-aranhas. Bodybuilding-brasil, a comuna do orkut. Orkut: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 conectado a 13.377.542 pessoas atrav\u00e9s de 320 amigos. Aumente sua rede agora mesmo!\u201d, diz minha home-page.  A Bodybuilding-brasil \u00e9 o \u201cn\u00f3 no. 6\u201d.<br \/>\nCheguei ao meu pr\u00f3ximo destino, a casa da minha amiga Ana, que passou por uma histerectomia. Que sofreu tanto com um longo desentendimento com seu pr\u00f3prio corpo e agora espera um programa de dieta e exerc\u00edcios que eu prometi montar para ela. A Ana \u00e9 o n\u00f3. no. 7.<br \/>\nE eu sou o n\u00f3 no. 8. O \u00faltimo n\u00f3 da teia.<br \/>\nUma teia de responsabilidades e trajet\u00f3rias, destinos, aventuras e desafios que, no fim, une os meninos-aranhas, as academias dos terceiros andares, meus iron-brothers, talvez 13.377.542 pessoas e&#8230; eu. <\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero falar sobre meninos, aranhas, teias e as \u201ciron arts\u201d. 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