{"id":5244,"date":"2006-02-23T10:29:00","date_gmt":"2006-02-23T10:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/trombetas-do-caos\/"},"modified":"2006-02-23T10:29:00","modified_gmt":"2006-02-23T10:29:00","slug":"trombetas-do-caos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/trombetas-do-caos\/","title":{"rendered":"Trombetas do caos"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias fiquei sabendo que um grupo de adolescentes do meu c\u00edrculo se reuniu para experimentar \u201cch\u00e1 de l\u00edrio\u201d. Trata-se de alguma planta do g\u00eanero Datura, tamb\u00e9m chamada de \u201ctrombeta\u201d pela forma de sua flor. Essas plantas produzem certos alcal\u00f3ides, mol\u00e9culas org\u00e2nicas que frequentemente apresentam efeitos t\u00f3xicos. Neste caso, os alcal\u00f3ides hisciamina, escopolamina e atropina s\u00e3o bastante empregados em medicamentos pelo seu efeito anti-colin\u00e9rgico. Eles inibem uma enzima chamada acetil-colinesterase, respons\u00e1vel por quebrar a mol\u00e9cula acetil-colina, um neurotransmissor. A inibi\u00e7\u00e3o da acetil-colinesterase provoca desde o al\u00edvio de sintomas de n\u00e1usea e v\u00f4mito, passando por taquicardia, alucina\u00e7\u00f5es psic\u00f3ticas, at\u00e9 a morte. Enfim: n\u00e3o \u00e9 exatamente uma \u201cmagic bullet\u201d (bala, proj\u00e9til m\u00e1gico, express\u00e3o usada quando queremos dizer que algo \u00e9 muito preciso no alvo atingido).<br \/>\nSendo assim, essas plantas s\u00e3o altamente t\u00f3xicas e seu efeito alucin\u00f3geno tem sido utilizado por diferentes culturas ao longo da hist\u00f3ria da humanidade. Em outros tempos, eram usos rituais ligados a procedimentos religiosos. Hoje, n\u00e3o deixam de ser rituais, mas ligados a ritos de passagem mais sombrios.<br \/>\nTenho certeza de que os adolescentes do caso que me foi relatado n\u00e3o eram totalmente inocentes quanto aos efeitos e a\u00e7\u00e3o desta droga. V\u00eam de escolas da elite intelectual, entre seus pais encontram-se inclusive bi\u00f3logos e s\u00e3o jovens inteligentes e cultos.<br \/>\nEles obtiveram a planta, fizeram o ch\u00e1 e tomaram na casa de um deles. Os pais n\u00e3o estavam. O efeito foi forte. Os tr\u00eas respoderam pesado. Muito fortemente. Tiveram as esperadas alucina\u00e7\u00f5es psic\u00f3ticas e, quando os adultos da casa chegaram, encontraram os tr\u00eas jovens passando muito mal. Os outros pais tiveram que ser acionados.<br \/>\nOs dois visitantes foram levados por seus pais. Um deles passou a noite com alucina\u00e7\u00f5es, com um adulto do lado ajudando a diferenciar objetos reais de imagin\u00e1rios.<br \/>\nO terceiro adolescente n\u00e3o se recuperou. Pelo que sei, continua em estado alterado, sei l\u00e1 que diagn\u00f3stico foi dado. O fato \u00e9 que continua funcionando psicoticamente.<br \/>\nO efeito esperado de uma intoxica\u00e7\u00e3o forte pode durar at\u00e9 tr\u00eas dias. Passado este tempo, trata-se de um efeito mais grave, relatado na literatura m\u00e9dica frequentemente.<br \/>\nOs meninos sabiam que isso podia acontecer? Com certeza! A \u201clenda urbana\u201d do fulaninho que tomou ch\u00e1 de l\u00edrio e nunca \u201cvoltou\u201d faz parte do imagin\u00e1rio do \u201cjovem cabe\u00e7a\u201d desde a minha adolesc\u00eancia.<br \/>\nE por que tomaram, ent\u00e3o, desafiando a morte e \u2013 muito pior que isso \u2013 a sanidade mental?<br \/>\nPara responder, vou contar minha pr\u00f3pria experi\u00eancia com isso. \u00c9 rid\u00edcula, mas ilustrativa.<br \/>\nEu tamb\u00e9m fui uma adolescente e jovem adulta muito drogada. Tomei mais ou menos de tudo e, em algumas coisas, fui bastante fundo. Aos 17 anos, tomava bastante coisa: os \u00f3bvios \u00e1lcool e maconha, mas tamb\u00e9m drogas de farm\u00e1cia, como diazepam, e cogumelo (psiloscibina). Um dia, meus amigos e eu ficamos sabendo sobre \u201cch\u00e1 de l\u00edrio\u201d. Parecia bom e f\u00e1cil demais: era um efeito \u201cmuito loko\u201d e uma planta fac\u00edlima de arrumar! Como as ruas n\u00e3o estavam repletas de malucos em del\u00edrio, com a quantidade de l\u00edrios que v\u00edamos pela cidade? Devia ser porque todos eram idiotas e n\u00f3s eramos muito espertos. Fomos para a casa de uma amiga, sa\u00edmos pela rua e coletamos muitos \u201cl\u00edrios brancos\u201d (que n\u00e3o t\u00eam nem uma remota rela\u00e7\u00e3o taxon\u00f4mica com as plantas do g\u00eanero Datura). L\u00edrios. Brancos. N\u00e3o daturas. Fizemos o maldito ch\u00e1 e tomamos. Esperamos a tarde toda, fumamos maconha para n\u00e3o perder a viagem, comemos ovos e tomate \u2013 enfim, ao contr\u00e1rio de nossas expectativas, foi uma tarde light.<br \/>\nSim, \u00e9 uma hist\u00f3ria rid\u00edcula. Mas poderia n\u00e3o ser! A atitude estava l\u00e1! Se algu\u00e9m nos tivesse oferecido a planta verdadeira, as daturas, ter\u00edamos tomado alegremente da mesma forma que tra\u00e7amos os inocentes l\u00edrios ornamentais.<br \/>\nEramos todos estudantes do col\u00e9gio Equipe, onde se concentrava parte do creme-de-la-creme da intelectualidade paulistana. N\u00e3o eramos idiotas e, para nossa idade, eramos o que podia haver de bem-informados. Sab\u00edamos dos riscos ou pelo menos pod\u00edamos avaliar.<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o mais comum para esse comportamento \u00e9 o imediatismo juvenil, uma atitude caracterizada pelo desprezo pelas consequ\u00eancias dos atos presentes. O jovem se sentiria invulner\u00e1vel, todo-poderoso e a morte \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o inapreens\u00edvel.<br \/>\nEssa \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o. Serve tamb\u00e9m para explicar porque eles transam t\u00e3o frequentemente sem camisinha, apesar da divulga\u00e7\u00e3o sobre o perigo da AIDS.<br \/>\nNo entanto, acho que existe mais coisa por baixo disso. Entendo a AIDS e a camisinha: ningu\u00e9m morre fulminado por AIDS assim que enfia o pau num(a) contaminado(a). \u00c9 algo para um futuro fora do alcance da imagina\u00e7\u00e3o imediatista do jovem.<br \/>\nMas e drogas?<br \/>\nAcho que \u00e9 diferente.<br \/>\nOs jovens n\u00e3o brincam de roleta-russa com a mesma frequ\u00eancia que usam drogas psicoativas letais. Eu acho que esse \u00faltimo uso est\u00e1 relacionado com um tipo de ilus\u00e3o ing\u00eanua de que, no fundo, temos poder sobre o c\u00e9rebro e seu funcionamento. Fora do c\u00e9rebro, tem \u201ceu\u201d, e \u201ceu\u201d comando o c\u00e9rebro \u2013 esteja ele intoxicado, doente, ou n\u00e3o. Eu estou fora do meu c\u00e9rebro e mando nele.<br \/>\nCheguei a esta suposi\u00e7\u00e3o porque meu melhor amigo brincou com a id\u00e9ia de demonstrar para mim que era poss\u00edvel ter controle sobre certas emo\u00e7\u00f5es negativas tomando, voluntariamente, algo que provocasse as mesmas (depress\u00e3o, ansiedade, surtos psic\u00f3ticos), e suprimindo seus efeitos. Minha rea\u00e7\u00e3o foi violenta: fiquei MUITO brava com ele. Deixei claro que ele tinha me provocado medo (porque amo esse amigo) e que eu ficaria muito, muito puta se ele sequer pensasse em fazer algo assim. N\u00e3o sei se ele entendeu por que eu reagi dessa forma.<br \/>\nPara isso, ele teria que saber que a menininha de 17 anos que comeu flores in\u00f3cuas cresceu para se tornar uma adulta seriamente afetada por desordens e sofrimento mental. E que foi submetida a todo tipo de tratamento medicamentoso poss\u00edvel, sem nenhum efeito realmente efetivo. Mas as drogas que tomei me mostraram do que somos feitos, todos n\u00f3s: sinaliza\u00e7\u00e3o qu\u00edmica inter-sinaptica, seja ela mal ou bem-comportada. \u00c9 isso. Ponto final. As coisas que m\u00e9dicos me prescreveram fizeram as mais variadas festas nessas sinaliza\u00e7\u00f5es. Perdi o controle motor, perdi acuidade visual, perdi mem\u00f3ria, meu pensamento se distorceu para todos os lados poss\u00edveis, mergulhei nos mais profundos infernos que um ser humano possa imaginar atrav\u00e9s dessa drogas: Zyprexa, Trileptal, Geodon, Topamax, Serzone, todos os poss\u00edveis benzodiazep\u00ednicos do universo e dezenas e dezenas de outros neurol\u00e9pticos, controladores de humor, anti-convulsivantes, anti-depressivos e narc\u00f3ticos.<br \/>\nAlgu\u00e9m pode dizer que nenhuma dessas drogas provoca prazer. Que \u00e9 natural que eu tenha horror a elas, mas que as drogas recreativas s\u00e3o \u201cdo bem\u201d, d\u00e3o barato e depois v\u00e3o embora.<br \/>\nN\u00e3o me convence muito, n\u00e3o. No fundo, tudo isso entra l\u00e1 na sede do tal \u201ceu\u201d, bagun\u00e7a a sinaliza\u00e7\u00e3o qu\u00edmica inter-sinaptica e a\u00ed&#8230; Quem \u00e9 \u201ceu\u201d? Em geral, ainda sobra um tanto de \u201ceu\u201d. Um \u201ceu\u201d bem atrapalhado, quimicamente poluido, mas est\u00e1 l\u00e1. Se der azar, n\u00e3o sobra \u2013 s\u00e3o os tais que nunca \u201cvoltam\u201d.<br \/>\nA moral da hist\u00f3ria \u00e9 que n\u00e3o existe esse \u201ceu\u201d separado do \u201cmeu c\u00e9rebro\u201d. A sede desse \u201ceu\u201d \u00e9 o c\u00e9rebro, que, se estiver intoxicado, j\u00e1 era. Na base da porrada, eu aprendi a respeitar o meu. Acho que \u00e9 preciso um pouco mais de humildade, baixar a bola e parar de separar corpo e mente. O c\u00e9rebro \u00e9 ambos&#8230; <\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 alguns dias fiquei sabendo que um grupo de adolescentes do meu c\u00edrculo se reuniu para experimentar \u201cch\u00e1 de l\u00edrio\u201d. Trata-se de alguma planta do g\u00eanero Datura, tamb\u00e9m chamada de \u201ctrombeta\u201d pela forma de sua flor. Essas plantas produzem certos alcal\u00f3ides, mol\u00e9culas org\u00e2nicas que frequentemente apresentam efeitos t\u00f3xicos. 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