{"id":5250,"date":"2006-03-09T15:16:00","date_gmt":"2006-03-09T15:16:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/sintese-das-ideias-sobre-preconceito-muscular\/"},"modified":"2006-03-09T15:16:00","modified_gmt":"2006-03-09T15:16:00","slug":"sintese-das-ideias-sobre-preconceito-muscular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/sintese-das-ideias-sobre-preconceito-muscular\/","title":{"rendered":"S\u00edntese das id\u00e9ias sobre preconceito muscular"},"content":{"rendered":"<p>(esse foi um post no forum de um amigo meu, Braulio Colmanetti)<\/p>\n<p>Antes de mais nada, Braulio, pe\u00e7o desculpas por n\u00e3o ter comparecido antes, j\u00e1 que mais ou menos tudo andou se complicando por aqui e eu queria contribuir com algo decente.<br \/>\nPara come\u00e7ar, gostaria de dizer que talvez eu choque um pouco voc\u00eas todos com algumas das id\u00e9ias que eu tenho sobre essa quest\u00e3o do preconceito contra nossos corpos. Por outro lado, talvez n\u00e3o, j\u00e1 que voc\u00eas me conhecem e sabem que de normal eu tenho muito pouco. E gra\u00e7as a deus, nunca contei com uma turma de amigos e companheiros t\u00e3o pouco preconceituosa e aberta \u00e0s minhas maluquices quanto voc\u00eas, meus iron-brothers.<br \/>\nAcho que eu come\u00e7o dizendo que esse preconceito \u00e9:<\/p>\n<p>1.\tmuito mais antigo do que imaginamos<br \/>\n2.\tmuito mais pervasivo (ou seja: invade muito mais \u201c\u00e1reas\u201d da nossa vida social) do que parece;<br \/>\n3.\tmuito mais diversificado do que percebemos<\/p>\n<p>Passemos para a antiguidade. Na minha opini\u00e3o, o preconceito contra o corpo musculoso tem uma ra\u00edz: A SEPARA\u00c7\u00c3O ENTRE CABE\u00c7A\/MENTE E CORPO. O corpo musculoso nada mais \u00e9 do que um corpo em evid\u00eancia. Os m\u00fasculos s\u00e3o a express\u00e3o da estrutura e do movimento. N\u00e3o \u00e9 por acaso que as frases mais comuns associadas a esse preconceito expressam exatamente isso: \u201cmuito m\u00fasculo, pouco c\u00e9rebro\u201d. Nesse sistema, \u201cc\u00e9rebro\u201d (que, por ser sede da \u201cmente\u201d, n\u00e3o \u00e9 considerado \u201ccorpo\u201d!) se op\u00f5e \u00e0 \u201cm\u00fasculo\u201d.<br \/>\nDe onde teria vindo isso? De uma separa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica entre aqueles que possuem corpos, que EXECUTAM coisas, e aqueles que MANDAM (tomam decis\u00f5es, sendo a sede das decis\u00f5es, o c\u00e9rebro, a cabe\u00e7a). Escravos X Senadores. Servos X Senhores. Prolet\u00e1rios X Burgueses.<br \/>\nObviamente, a est\u00e9tica de quem manda tamb\u00e9m manda no mundo das representa\u00e7\u00f5es, ou seja, na maneira com que descrevemos, fotografamos, pintamos e pensamos a realidade. Os corpos bonitos s\u00e3o os corpos que n\u00e3o fazem porra nenhuma de F\u00cdSICO, pois sua fun\u00e7\u00e3o social \u00e9 mandar e ser servidos.<br \/>\nEssa heran\u00e7a vem l\u00e1 de tr\u00e1s, do momento em que nossa civiliza\u00e7\u00e3o se montou em cima de uma estrutura de classes, onde tem quem fa\u00e7a e quem se apropria do que os outros fazem.<br \/>\nSomou-se a isso a moral mais importante do mundo ocidental: a moral judaico-crist\u00e3. Nesse sistema de valores, corpo \u00e9 ruim, esp\u00edrito \u00e9 bom e as duas coisas s\u00e3o essencialmente diferentes. \u201cA carne \u00e9 fraca\u201d. Veio da\u00ed uma longa trajet\u00f3ria de submiss\u00e3o sofrida dos corpos, auto-flagela\u00e7\u00e3o, ascetismo, etc. Corpo \u00e9 coisa ligada ao \u201cmal\u201d, ao dem\u00f4nio. E m\u00fasculo \u00e9, como eu disse antes, a express\u00e3o exacerbada do corpo.<br \/>\nEssa combina\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias na hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 podia dar na merda que deu para n\u00f3s.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, como \u00e9 a caracter\u00edstica da hist\u00f3ria da nossa civiliza\u00e7\u00e3o, em cima de uma tend\u00eancia, outras na mesma linha se constroem.<br \/>\nPeguemos a sa\u00fade, por exemplo. A profiss\u00e3o dominante na \u00e1rea da sa\u00fade \u00e9 a medicina e, dentro dela, a cardiologia. Quando a gente diz dominante, os crit\u00e9rios s\u00e3o o peso profissional medido pelo tamanho e for\u00e7a pol\u00edtica das associa\u00e7\u00f5es, prest\u00edgio, custo das interven\u00e7\u00f5es, prioridade no sistema de sa\u00fade, poder decis\u00f3rio, etc. Tudo coisa mensur\u00e1vel, nada que eu esteja inventando. Quando, muito recentemente, os cardiologistas come\u00e7aram a enfatizar PREVEN\u00c7\u00c3O e olharam pela primeira vez para atividade f\u00edsica, no p\u00f3s-guerra, olharam apenas para as atividades aer\u00f3bicas. O motivo parece \u00f3bvio: porque essas atividades s\u00e3o as que exibem uma rela\u00e7\u00e3o mais direta com respostas cardio-vasculares. Seria s\u00f3 isso? Acho que n\u00e3o. Hoje sabemos que o treinamento de for\u00e7a \u00e9 mais relevante para preven\u00e7\u00e3o e tratamento de desordens cardio-vasculares do que os exerc\u00edcios aer\u00f3bios \u2013 h\u00e1 evid\u00eancia experimental para isso. Minha opini\u00e3o \u00e9 que ela n\u00e3o foi enfocada antes porque a FOR\u00c7A, como capacidade funcional, \u00e9 t\u00e3o desprezada pela medicina como todo o \u201cpacote\u201d que envolve o desenvolvimento da musculatura.<\/p>\n<p>Explicando melhor: o desprezo da medicina pelo aspecto preventivo do treinamento de for\u00e7a, a neglig\u00eancia dos cientistas em estudar for\u00e7a e hipertrofia muscular, o rep\u00fadio \u00e0 est\u00e9tica musculosa, o preconceito com pessoas musculosas e a associa\u00e7\u00e3o entre for\u00e7a e burrice est\u00e3o NUM MESMO PACOTE DE PRECONCEITOS FORTEMENTE ARRAIGADOS.<\/p>\n<p>Mas&#8230; e sempre tem um mas \u2013 os corpos musculosos exercem atra\u00e7\u00e3o sexual. Isso n\u00e3o h\u00e1 quantidade de preconceito que consiga aplacar totalmente. Al\u00e9m disso, o desempenho sexual de pessoas musculosas \u00e9 superior ao das pessoas n\u00e3o-musculosas (e infinitamente maior do que o das sedent\u00e1rias). O resultado disso \u00e9 que se desenvolveu essa rela\u00e7\u00e3o esquisita e ambivalente com os corpos musculosos: \u201cdetesto mas quero\u201d. \u201cN\u00e3o quero pra casar, mas quero comer\u201d. Isso e o fato de sermos raros (e, portanto, em geral, \u201cdiferentes\u201d), atrai uma coisa diferente do simples preconceito: o \u00f3dio e o ressentimento. Que est\u00e3o relacionados tamb\u00e9m a inveja. <\/p>\n<p>De maneira geral, acho que apesar de todos n\u00f3s j\u00e1 nos termos deparado com preconceito, ele \u00e9 administr\u00e1vel. A n\u00e3o ser em poucas situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 f\u00e1cil de contornar e n\u00e3o chega a atrapalhar. Mesmo para n\u00f3s, mulheres, cujos corpos musculosos s\u00e3o uma grande controv\u00e9rsia (afinal, somos ou n\u00e3o machonas? Quem gosta de n\u00f3s \u00e9 gay ou n\u00e3o?), n\u00e3o percebo grandes inc\u00f4modos. Minhas amigas atletas s\u00e3o quase todas bem casadas ou namoradas, eu tenho uma vida amorosa tranquila e a vida vai indo como tem que ser.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o \u00e9 que o preconceito \u00e9 mais perigoso no geral, impedindo benef\u00edcios importantes \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica, do que individualmente para n\u00f3s. E n\u00f3s temos com fun\u00e7\u00e3o oferecer \u00e0 sociedade essa alternativa que s\u00f3 tende a beneficiar a todos.<\/p>\n<p>Abaixo acrescentei os links de alguns textos que escrevi com essas id\u00e9ias, que tentei resumir aqui.<\/p>\n<p>Sobre o \u00f3dio &#8211; http:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/15433.html<br \/>\nAlgumas considera\u00e7\u00f5es sobre bola &#8211; http:\/\/www.livejournal.com\/users\/mariliacoutinho\/9151.html<br \/>\nAspectos ocultos do preconceito: a marginalidade cient\u00edfica da for\u00e7a (1) &#8211; http:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/4560.html<br \/>\nAspectos ocultos do preconceito (2): a marginalidade cient\u00edfica da hipertrofia muscular &#8211; http:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/5145.html<br \/>\nBodybuilding \u2013 esporte marginal &#8211; http:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/5636.html<br \/>\nTrivializando o conceito de depend\u00eancia na base do preconceito<br \/>\nhttp:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/7682.html<br \/>\nA desvaloriza\u00e7\u00e3o do profissional do treinamento de for\u00e7a na \u00e1rea da atividade f\u00edsica<br \/>\nhttp:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/8576.html<br \/>\nEsportes de for\u00e7a: politicamente incorretos? (tradu\u00e7\u00e3o do de baixo)<br \/>\nhttp:\/\/mariliacoutinho.livejournal.com\/1212.html<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(esse foi um post no forum de um amigo meu, Braulio Colmanetti) Antes de mais nada, Braulio, pe\u00e7o desculpas por n\u00e3o ter comparecido antes, j\u00e1 que mais ou menos tudo andou se complicando por aqui e eu queria contribuir com algo decente. Para come\u00e7ar, gostaria de dizer que talvez eu choque um pouco voc\u00eas todos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_seopress_robots_primary_cat":"","_seopress_titles_title":"","_seopress_titles_desc":"","_seopress_robots_index":"","site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[19],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5250"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5250"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5250\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5250"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5250"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5250"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}