{"id":5254,"date":"2006-03-12T12:28:00","date_gmt":"2006-03-12T12:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-alienacao-corporal-pesa-mais-sobre-a-mulher\/"},"modified":"2006-03-12T12:28:00","modified_gmt":"2006-03-12T12:28:00","slug":"a-alienacao-corporal-pesa-mais-sobre-a-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-alienacao-corporal-pesa-mais-sobre-a-mulher\/","title":{"rendered":"A aliena\u00e7\u00e3o corporal pesa mais sobre a mulher"},"content":{"rendered":"<p>Como se expressa a aliena\u00e7\u00e3o corporal? Como podemos identificar sua express\u00e3o na vida social?<\/p>\n<p>Existem v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es patol\u00f3gicas da aliena\u00e7\u00e3o corporal:<br \/>\n&#8211; desordens alimentares<br \/>\n&#8211; insatisfa\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria imagem \/ desordens dism\u00f3rficas<br \/>\n&#8211; sedentarismo (sim, considero sedentarismo um comportamento patol\u00f3gico)<br \/>\n&#8211; desordens sexuais<br \/>\n&#8211; fracasso na ades\u00e3o a programas de atividade f\u00edsica<br \/>\n&#8211; fracasso na ades\u00e3o a tratamentos de sa\u00fade que requerem pro-atividade<\/p>\n<p>1. Desordens alimentares<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da literatura mainstream, eu fa\u00e7o uma distin\u00e7\u00e3o entre os comportamentos volunt\u00e1rios e os involunt\u00e1rios neste caso. Existe uma epidemia de sobre-alimenta\u00e7\u00e3o na sociedade n\u00e3o necessariamente associada a um comportamento patol\u00f3gico, e sim como resultado da vitimiza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo pouco informado ou pobre pela ind\u00fastria aliment\u00edcia. Esse indiv\u00edduo se sobre-alimenta INVOLUNTARIAMENTE, j\u00e1 que as doses de alimento nas refei\u00e7\u00f5es suficientes para satisfaz\u00ea-lo t\u00eam um conte\u00fado cal\u00f3rico muito superior ao seu consumo fisiol\u00f3gico e ele n\u00e3o sabe disso. \u00c9 o caso do pobre ou indiv\u00edduo sem acesso a informa\u00e7\u00e3o que consome fast food e ingere mais de 1500 calorias apenas em sandu\u00edche e refrigerante.<br \/>\nA sobre-alimenta\u00e7\u00e3o VOLUNT\u00c1RIA \u00e9 outro caso: \u00e9 o comportamento dos indiv\u00edduos que t\u00eam acesso a informa\u00e7\u00e3o suficiente para muni-lo com ferramentas decis\u00f3rias e que DECIDE fazer superavit cal\u00f3rico. Ele sabe que as consequ\u00eancias ser\u00e3o aumento de peso ou manuten\u00e7\u00e3o de seu sobre-peso, e ainda assim mant\u00e9m o mesmo comportamento.<br \/>\nA sub-alimenta\u00e7\u00e3o \u00a0volunt\u00e1ria est\u00e1 envolvida nas causas das desordens dism\u00f3rficas da anorexia e bulimia, enquanto a involunt\u00e1ria ocorre em situa\u00e7\u00f5es de fome end\u00eamica.<\/p>\n<p>\u201cOvereating\u201d (sobre-alimenta\u00e7\u00e3o) e suas consequ\u00eancias, o sobre-peso e a obesidade, a anoexia e a bulimia s\u00e3o desordens de causas complexas, mas t\u00eam algo em comum: o corpo \u00e9 externo ao portador. Ele DECIDE n\u00e3o atender a uma demanda fisiol\u00f3gica porque a demanda \u00e9 de \u201calgu\u00e9m mais\u201d, e n\u00e3o dele. N\u00e3o \u00e9 \u201cele\u201d que ganhar\u00e1 excesso de gordura ou perder\u00e1 peso atrav\u00e9s do comportamento, e sim \u201cseu corpo\u201d. O corpo \u00e9 um fardo, um problema, algo inclusive odiado, porque rebelde e fora de controle.<\/p>\n<p>2. Insatisfa\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria imagem \/ desordens dism\u00f3rficas<\/p>\n<p>Nesse ponto \u00e9 importante fazer uma observa\u00e7\u00e3o: as desordens dism\u00f3rficas apelidadas de \u201cvigorexia\u201d, \u201cbodybuilding dependence\u201d e \u201cdismorfia muscular\u201d est\u00e3o excluidas deste \u00edtem. Em outros textos, j\u00e1 justifiquei por que acredito que elas n\u00e3o existem e por que s\u00e3o falsas categorias criadas pela psiquiatria por um fracasso dos pesquisadores em compreender um comportamento socialmente partilhado e os c\u00f3digos de uma cultura de praticantes esportivos. Portanto, n\u00e3o s\u00e3o desordens dism\u00f3rficas.<\/p>\n<p>As desordens dism\u00f3rficas verdadeiras e as alimentares est\u00e3o muito associadas. Estas s\u00e3o a sobre-alimenta\u00e7\u00e3o\/obesidade, anorexia e bulimia. Elas s\u00e3o caracterizadas por uma percep\u00e7\u00e3o exagerada, distorcida ou simplesmente ficcional da imagem corporal do indiv\u00edduo. A v\u00edtima se percebe excessivamente gorda ou magra, independente de indicadores objetivos como peso, dados relativos a composi\u00e7\u00e3o corporal e input externo como opini\u00f5es alheias. \u00c9 ing\u00eanuo questionar a rela\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos com o espelho, considerando que a interpreta\u00e7\u00e3o de imagens n\u00e3o \u00e9 um processo mec\u00e2nico, e sim mediado por fen\u00f4menos subjetivos complexos. A v\u00edtima v\u00ea o que todos vemos, mas PERCEBE algo inteiramente diferente.<\/p>\n<p>As causas dessas desordens s\u00e3o variad\u00edssimas e complexas. No entanto, todas elas s\u00e3o caracterizadas por uma ruptura entre a interpreta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o (quantitativa, visual e principalmente auto-percep\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de sinais internos ou auto-manipula\u00e7\u00e3o) sobre o corpo e a forma\u00e7\u00e3o de uma imagem desse corpo. Isso \u00e9 uma consequ\u00eancia direta dessa separa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica entre corpo e mente, chamada aqui de aliena\u00e7\u00e3o corporal.<\/p>\n<p>3. Sedentarismo<\/p>\n<p>O sedentarismo \u00e9 uma express\u00e3o patol\u00f3gica da aliena\u00e7\u00e3o corporal das mais relevantes do ponto de vista epidemiol\u00f3gico. Calcula-se em cerca de 57% a mortalidade mundial associada a causas de risco relacionadas \u00e0 inatividade f\u00edsica e inadequa\u00e7\u00e3o nutricional. A ado\u00e7\u00e3o de modos de vida que suprimam a mobilidade \u00e9 produto da interioriza\u00e7\u00e3o em massa da aliena\u00e7\u00e3o corporal. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o em que o corpo \u00e9 inibido em sua express\u00e3o mais b\u00e1sica, que \u00e9 o movimento.<\/p>\n<p>4. Desordens sexuais<\/p>\n<p>As desordens sexuais s\u00e3o amplamente debatidas no mundo m\u00e9dico, acad\u00eamico e mesmo na m\u00eddia leiga como produto de ideologias e religi\u00f5es conservadoras. No entanto, esses mesmos componentes culturais integram um sistema mais abrangente de nega\u00e7\u00e3o das express\u00f5es corporais b\u00e1sicas: a mobilidade, a sexualidade e a nutri\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>5. Fracasso na ades\u00e3o a programas de atividade f\u00edsica e fracasso na ades\u00e3o a tratamentos de sa\u00fade que requerem pro-atividade<\/p>\n<p>Esse \u00edtem na verdade \u00e9 um s\u00f3, embora as duas situa\u00e7\u00f5es sejam bastante diferentes \u2013 uma lida com o corpo em relativa sa\u00fade, a outra com uma condi\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica. Em ambos os casos, o indiv\u00edduo adota uma postura de passividade e impot\u00eancia, em que a responsabilidade sobre seu corpo \u00e9 delegada a um \u201coutro\u201d (m\u00e9dico, educador f\u00edsico, terapeuta, etc.). Essa recusa ou incapacidade em assumir responsabilidade sobre o pr\u00f3prio corpo \u00e9 produto da aliena\u00e7\u00e3o do mesmo.<\/p>\n<p>Todas estas express\u00f5es s\u00e3o mais presentes entre as mulheres do que entre os homens. As express\u00f5es corporais b\u00e1sicas s\u00e3o muito mais fortemente reprimidas precocemente nas mulheres. Muito cedo na inf\u00e2ncia, as meninas s\u00e3o separadas dos meninos e sua mobilidade \u00e9 restrita. A elas s\u00e3o oferecidas op\u00e7\u00f5es de atividade com um elenco muito menor de movimentos \u2013 em amplitude, velocidade, localiza\u00e7\u00e3o espacial, etc. Meninas brincam em \u00e1reas menores, no plano, com movimentos de pequena amplitude, pot\u00eancia e velocidade. Consequentemente, seu acervo motor ser\u00e1 proporcionalmente reduzido. Consequentemente, sua consci\u00eancia corporal ser\u00e1 prejudicada. Al\u00e9m disso, valores negativos s\u00e3o associados \u00e0 maior mobilidade entre as meninas \u2013 meninas s\u00e3o valorizadas por serem \u201cquietas\u201d e \u201ccontroladas\u201d.<\/p>\n<p>A incid\u00eancia da obesidade em mulheres \u00e9 cerca de 10% superior do que em homens em quase todos os pa\u00edses industrializados. Estat\u00edsticas americanas mostram que a propor\u00e7\u00e3o de mulheres com anorexia nervosa, bulimia ou \u201cbinge eating disorder\u201d \u00e9 cinco vezes maior do que a dos homens. Outros estudos sugerem que apenas 5 a 10% dos portadores de anorexia ou bulimia sejam homens.<\/p>\n<p>Por esses motivos \u2013 maior incid\u00eancia de todas as desordens alimentares em mulheres \u2013 praticamente todos os programas voltados para desordens dism\u00f3rficas t\u00eam como alvo as mulheres.<\/p>\n<p>Pelos motivos j\u00e1 discutidos, o sedentarismo \u00e9 muito mais significativo entre mulheres do que em homens. Uma pesquisa bastante criativa publicada em 1999 no American Journal of Public Health desenvolveu uma metodologia para quantificar o sedentarismo. Os resultados da aplica\u00e7\u00e3o da metodologia numa amostra da popula\u00e7\u00e3o adulta da cidade de Genebra mostrou que 79.5% dos homens e 87.2% das mulheres eram sedent\u00e1rios.<\/p>\n<p>A pro-atividade em programas de atividade f\u00edsica \u00e9 baix\u00edssima em mulheres e este \u00e9 um fato do dia a dia do professor de educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Enquanto os homens, de todas as idades, se esfor\u00e7am minimamente para ter alguma autonomia nesses programas, as mulheres permanecem em grande parte numa atitude passiva.<\/p>\n<p>Em todas as manifesta\u00e7\u00f5es da aliena\u00e7\u00e3o corporal, portanto, a incid\u00eancia \u00e9 maior em mulheres.<\/p>\n<p>Marilia<\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0;\"><b><span style=\"font-family: Georgia; font-size: xx-small;\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/span><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como se expressa a aliena\u00e7\u00e3o corporal? 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