{"id":5264,"date":"2006-03-28T12:30:00","date_gmt":"2006-03-28T12:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/a-goteira-na-minha-cabeca\/"},"modified":"2006-03-28T12:30:00","modified_gmt":"2006-03-28T12:30:00","slug":"a-goteira-na-minha-cabeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/a-goteira-na-minha-cabeca\/","title":{"rendered":"A goteira na minha cabe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Ontem caiu uma grande tempestade em S\u00e3o Paulo. Daquelas que parecem algo sinistramente apocal\u00edptico, noturna, burulhenta e repleta de trov\u00f5es, raios que iluminam atrav\u00e9s de janelas fechadas, som de coisas indistigu\u00edveis caindo pelo mundo. Minha casa \u00e9 t\u00e9rrea, de madeira, num bairro muito arborizado. Caiu de tudo, por toda parte.<br \/>\nEu havia me deitado l\u00e1 pelas 0:30h e me dei conta da tempestade quando senti \u00e1gua caindo no meu rosto. Era uma goteira. A goteira criou um fio de \u00e1gua que acertou precisamente o ponto em que encosto a cabe\u00e7a no travesseiro. Durmo em geral sozinha numa cama grande de casal, mas sempre do lado direito, onde o colch\u00e3o at\u00e9 mesmo j\u00e1 se deformou. Sempre com dois travesseiros. Sempre come\u00e7o a dormir de lado. Sempre acabo virando de bru\u00e7os, com um dos travesseiros. Gosto da minha cama, durmo mal em outras.<br \/>\nQuando a goteira me acordou, acendi a luz e me dei conta de que teria que afastar o colch\u00e3o. Talvez dormir em outro lugar da casa.<br \/>\nMinha cachorra Rita, apavorada com tempestade, havia pulado uma janela e estava no corredor arranhando a porta do meu quarto. N\u00e3o a deixei entrar e tentei dormir com o colch\u00e3o torto, mas em poucos minutos percebi que seria imposs\u00edvel. Tentei outras alternativas no pr\u00f3prio quarto, enquanto Rita arranhava mais ainda minha porta e fazia outros barulhos pela casa. A essa altura, o outro c\u00e3o, Akela, irm\u00e3o dela, gania escandalosamente na porta da cozinha \u2013 ele n\u00e3o sabe pular janelas e odeia ficar de fora quando a Rita entra.<br \/>\nLevantei, abri a porta para o Akela, que entrou meio molhado, a Rita entrou no meu quarto e tentou subir na minha cama, que j\u00e1 estava torta, eu a expulsei e fechei a porta.<br \/>\nColoquei um pano para absorver o pequeno rio de chuva que caia no estrado e me dei conta de outra goteira.<br \/>\nJ\u00e1 bastante cheia de pequenas decis\u00f5es a tomar, senti fome \u2013 eram 2:30h e j\u00e1 faziam umas 4 horas que eu n\u00e3o comia.<br \/>\nLevantei para fazer um lanche e vi uma cena dantesca pela casa: os c\u00e3es, sob stress, se comportam de maneira absurda. A Rita espalhou todo o lixo do banheiro da minha filha pela casa e o Akela virou o lixo da cozinha. Olhei aquilo com grande desgosto, dei broncas horr\u00edveis nos dois, expulsei-os para a sala e passei uma meia hora limpando tudo. A\u00ed fui comer.<br \/>\nQuando acabei, n\u00e3o tinha mais sono, embora estivesse cansada.<br \/>\nO problema \u00e9 que essa noite de sono era estrat\u00e9gica para mim, pois uma outra tempestade, menos literal, havia caido sobre minha cabe\u00e7a horas antes. O diretor do \u00f3rg\u00e3o inter-governamental para o qual eu prestava consultoria havia abortado meu projeto ap\u00f3s um per\u00edodo dif\u00edcil em que finalmente ele tinha se concretizado. Consegui persuadir \u00f3rg\u00e3os governamentais a financiar a pesquisa e o projeto havia se tornado vi\u00e1vel. Re-organizei toda minha vida profissional sobre a centralidade dessa atividade e obviamente dessa fonte de renda. Mas ap\u00f3s tr\u00eas meses de indecis\u00f5es e adiamentos por parte da institui\u00e7\u00e3o executora, comecei a estranhar o comportamento e pressionei por uma decis\u00e3o definitiva. O diretor foi r\u00e1pido e me respondeu em poucas horas: minha consultoria estava dispensada.<br \/>\nO dinheiro com o qual eu contava como certo pelos pr\u00f3ximos dois anos n\u00e3o existiria mais. Eram 20h. Pouco a se fazer de imediato. Mas tudo a se fazer nos dias seguintes. Eu precisava de uma noite de sono para estar perfeitamente alerta e firme pela manh\u00e3.<br \/>\n\u00c0s 2:30h, sem sono, resolvi sentar no computador e desengavetar v\u00e1rios projetos que tinham se tornado secund\u00e1rios durante a finaliza\u00e7\u00e3o das negocia\u00e7\u00f5es do projeto central do \u00f3rg\u00e3o inter-governamental, que era sobre demandas de informa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnico e cient\u00edfica na \u00e1rea da sa\u00fade. Desengavetei, fiz contatos, escrevi, escrevi, escrevi&#8230; at\u00e9 que amanheceu.<br \/>\nDe manh\u00e3, eu tinha um compromisso assumido h\u00e1 tempos com um amigo da USP: dar uma aula sobre epistemologia da Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica para seus alunos. Duas aulas, para duas turmas. Nelas, falei muito sobre a import\u00e2ncia da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica na constru\u00e7\u00e3o da identidade profissional. Mais do que nunca, estava convencida sobre a import\u00e2ncia do projeto que eu criei e que nunca seria executado.<br \/>\nCheguei em casa e encontrei muitos resultados dos contatos feitos de madrugada. Fiquei satisfeita ao perceber que consegui colocar v\u00e1rios bondes em movimento \u2013 qual deles levaria a um destino produtivo, n\u00e3o h\u00e1 como saber. Falei com meu s\u00f3cio e a essa altura temos uma semana cheia de compromissos e reuni\u00f5es.<br \/>\nCansada, fui treinar \u2013 nem que seja realmente o fim do mundo, meu treino \u00e9 intoc\u00e1vel. E quando voltei para casa estava cansada, por\u00e9m contente.<br \/>\nDo mesmo jeito que a chuva perturbou meu confort\u00e1vel h\u00e1bito de dormir sempre na mesma posi\u00e7\u00e3o, a rasteira que tomei da institui\u00e7\u00e3o para a qual prestava consultoria perturbou a confort\u00e1vel expectativa de uma rela\u00e7\u00e3o profissional cont\u00ednua e provedora.<br \/>\nMe mexi e consegui abrir novas perspectivas.<br \/>\nNo treinamento de for\u00e7a intenso, \u00e9 preciso adotar estrat\u00e9gias para romper o que todo atleta teme, mas enfrenta: a estagna\u00e7\u00e3o. Tem uma hora que ele percebe que por mais que treine, suas cargas n\u00e3o aumentam e sua performance estaciona. Antes que isso aconte\u00e7a, \u201cperturbamos\u201d a homeostase com modifica\u00e7\u00f5es no tipo de treino, nos exerc\u00edcios, na intensidade e na frequ\u00eancia. Todo atleta sabe que para CRESCER, \u00e9 preciso romper a homeostase, quebrar a rotina, desfazer o conforto, inovar.<br \/>\nMais uma vez, o que vale para o treino e para o esporte, vale para a vida de modo geral.<br \/>\nAcho que o diretor da institui\u00e7\u00e3o inter-governamental me fez um favor, quebrando a minha homeostase. Por causa dele, acho que entrei num novo ciclo de crescimento, vamos ver no que d\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ontem caiu uma grande tempestade em S\u00e3o Paulo. Daquelas que parecem algo sinistramente apocal\u00edptico, noturna, burulhenta e repleta de trov\u00f5es, raios que iluminam atrav\u00e9s de janelas fechadas, som de coisas indistigu\u00edveis caindo pelo mundo. 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