{"id":5266,"date":"2006-04-02T14:07:00","date_gmt":"2006-04-02T14:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/inveske.co.uk\/jacare-do-rio\/"},"modified":"2006-04-02T14:07:00","modified_gmt":"2006-04-02T14:07:00","slug":"jacare-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.mariliacoutinho.com\/pt-br\/jacare-do-rio\/","title":{"rendered":"Jacar\u00e9 do Rio"},"content":{"rendered":"<p>Meu \u201coff\u201d come\u00e7a s\u00e1bado \u00e0 noite e termina domingo \u00e0 tarde, no qual como uma por\u00e7\u00e3o de bobagens e tamb\u00e9m de coisas boas. Ontem ca\u00ed de boca em dezenas de iguarias proteicas e gordurosas em companhia de meu amigo Luis, enquanto convers\u00e1vamos sobre responsabilidade e consci\u00eancia corporal. Faz\u00edamos conscientemente nosso exagero semanal e especul\u00e1vamos sobre formas de ajudar as pessoas v\u00edtimas de suas aliena\u00e7\u00f5es a conquistarem pelo menos esse n\u00edvel de responsabilidade \u2013 aquele sobre seu pr\u00f3prio corpo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o hoje cheguei \u00e0 casa do Mauro pronta para continuar a orgia quando fui surpreendida por meu \u00faltimo presente de anivers\u00e1rio: um Jacar\u00e9 do Rio. Trata-se de um Bonsai brasileiro. Gosta de sol, me explicou a Tuca. \u00c1gua, mas nem tanto. Resistente. Talvez nesse anivers\u00e1rio ela e o Laerte tenham baixado suas expectativas quanto \u00e0 minha compet\u00eancia para assumir responsabilidades sobre outros seres vivos e me deram um mais tosco (embora belo), pois a lind\u00edssima e delicada orqu\u00eddea do ano passado est\u00e1 meio moribunda. <\/p>\n<p>Lembrei de um filminho B bastante melado estrelado pela Sandra Bullock chamado 28 dias. Ela era uma profissional de m\u00eddia, se n\u00e3o me engano, workaholic e externamente alegre, completamente drogada e irrespons\u00e1vel. Quando esgotou a paci\u00eancia de familiares e do juiz cometendo in\u00fameras cagadas num porre, foi obrigada a se submeter a um tratamento de desintoxia\u00e7\u00e3o de 28 dias. Todos os internados eram doidos, drogados e irrespons\u00e1veis e de uma certa forma se deram suporte m\u00fatuo na recupera\u00e7\u00e3o. Eram todos um fracasso em qualquer tipo de relacionamento humano, como todo junkie. No \u00faltimo dia, quando estavam sendo \u201csoltos para o mundo\u201d, um deles perguntou ao terapeuta: \u201cquando saberemos que j\u00e1 estamos prontos para nos relacionar com algu\u00e9m?\u201d. O terapeuta respondeu: \u201cbem, primeiro voc\u00ea compra uma planta. Se ela n\u00e3o morrer em um ano, a\u00ed voc\u00ea arruma um bicho. Se ele n\u00e3o morrer em um ano, a\u00ed voc\u00ea pode tentar arrumar um namorado ou namorada.\u201d \u00c9 o protocolo da responsabilidade incremental \u2013 primeiro, sobre si mesmo, sobre seu pr\u00f3prio corpo. A\u00ed caminha-se pelo universo de coisas vivas, aprendendo a assumir novas responsabilidades.<\/p>\n<p>Essa regra de ouro ficou na minha cabe\u00e7a. Eu sou um fracasso absoluto em relacionamentos. Todos que duraram mais de duas semanas se tornaram grandes desastres. Eu era melhor nas minhas estrat\u00e9gias de assumir responsa sobre mim mesma, mas mesmo assim demorei um par de d\u00e9cadas para descobrir o melhor esquema. A\u00ed fiquei pensando que talvez eu tenha violado o protocolo da responsabilidade incremental. Talvez eu devesse primeiro ter me entendido comigo mesma, depois arrumado umas plantas e assim por diante. Casamentos foram carros na frente de bois existenciais. Filho ent\u00e3o! Coitada da Mel&#8230; Mas sobreviveu e&#8230; bem, agora est\u00e1 assistindo TV, comendo p\u00e3o com pat\u00ea de tomate seco.<\/p>\n<p>No entanto, pode ser que ainda haja salva\u00e7\u00e3o: j\u00e1 ouvi falar de tratamentos experimentais com indiv\u00edduos com s\u00e9rias desordens de desenvolvimento (vulgarmente chamados de \u201cretardados\u201d) que s\u00e3o submetidos a sess\u00f5es de \u201cretorno\u201d a fases anteriores, talvez puladas, talvez mal vividas. Engatinham, depois caminham, e assim por diante. Quem sabe n\u00e3o posso fazer isso tamb\u00e9m? Quem sabe esse Jacar\u00e9 do Rio n\u00e3o \u00e9 minha chance para adotar, agora de forma sistem\u00e1tica e bem comportada, o protocolo da responsabilidade incremental? Afinal, \u00e9 um Jacar\u00e9 resistente. Verde. Forte. De casca dura e miolo tamb\u00e9m. Se eu esquecer dele por um tempo, n\u00e3o vai reclamar nem morrer. Sei que ficarei culpada, mas n\u00e3o tanto como se o resultado da minha neglig\u00eancia fosse machuc\u00e1-lo ou mat\u00e1-lo. Quem sabe depois disso at\u00e9 da orqu\u00eddea eu consiga cuidar melhor. E talvez ser mais competente com aquele nariz esfolado do Akela, me tornar uma humana melhor para meus c\u00e3es e tamb\u00e9m para o coelho da Mel. Se at\u00e9 nisso eu for bem sucedida, talvez eu me veja sendo melhor m\u00e3e, melhor amiga, melhor irm\u00e3 e melhor filha. Minha d\u00favida \u00e9 se, seguindo esse protocolo, eu consiguirei chegar a assumir aquela \u00faltima responsabilidade que at\u00e9 arrepio nas costas me d\u00e1 de pensar&#8230;<\/p>\n<p>Mas, afinal, \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de consci\u00eancia e responsabilidade, ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Marilia <\/p>\n<p style=\"margin-top: 0; margin-bottom: 0\"><b><font face=\"Georgia\" size=\"1\"><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.bodystuff.org\/\">BodyStuff<\/a><\/font><\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu \u201coff\u201d come\u00e7a s\u00e1bado \u00e0 noite e termina domingo \u00e0 tarde, no qual como uma por\u00e7\u00e3o de bobagens e tamb\u00e9m de coisas boas. Ontem ca\u00ed de boca em dezenas de iguarias proteicas e gordurosas em companhia de meu amigo Luis, enquanto convers\u00e1vamos sobre responsabilidade e consci\u00eancia corporal. 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